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Vamo dale: manguebeat em Porto Alegre

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Fotos por Mário Leão

Meu jeito de amar

Eu já conhecia e estava ciente da popularidade de Duda Beat, mas até então não havia destinado um tempo de self care para ouvir o seu disco Sinto Muito, lançado em abril do ano passado. Semanas antes de seu show em Porto Alegre, contudo, uma amiga muito especial me apresentou, despretensiosamente, o hit “Bixinho”… e, minha gente, foi amor à primeira vista! 

Dali em diante, era Dudinha para cima, Dudinha para baixo. Seu álbum me acompanhou no trajeto diário até o trabalho, em momentos em que eu tive a casa toda só para mim e também em banhos demorados, nos quais, confesso com certa timidez, tentei reproduzir o sotaque maravilhoso da pernambucana. O vício era tanto que, se indagado sobre o que estaria eu a fazer às três horas da madrugada de um sábado, eu provavelmente revelaria: escutando Duda Beat, e você?

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Pela primeira vez no Opinião: vamo dale!

Apesar da minha tardia descoberta, a verdade deve ser dita: Duda Beat já era um estouro quando a conheci. Celebrada e reconhecida por Caetano Veloso, Ivete Sangalo, Pabllo Vittar e por outros gigantes da música nacional, ela é, indiscutivelmente, um fenômeno. Com mais de meio milhão de ouvintes mensais no Spotify e tendo participado do festival Lollapalooza em 2019 — número e fato que impressionam, especialmente se levarmos em conta que se trata de uma artista revelação —, a cantora lotou o Bar Opinião na última quinta-feira, 08 de agosto, e foi recebida com fervor pelos porto-alegrenses.

A noite teve início com a faixa “Parece Pouco”, reproduzida ao fundo enquanto a banda se posicionava no palco, e nós, enlouquecidos, demonstrávamos com gritos toda a nossa empolgação e admiração. Na sequência, vieram “Bédi Beat”, “Bolo de Rolo” e “Só Eu e Você”. Essa última deixou os fãs surpresos, afinal, não esperavam por ela, visto que a canção foi lançada posteriormente ao disco e com participação especial de Illy.

Àquela altura, em pouco mais de quinze minutos de show, todos já estavam muito animados, cantando muito, muito alto e em coro. A recifense radicada na Cidade Maravilhosa emocionou-se ao ver a casa cheia e aproveitou o momento para apresentar e agradecer a cada integrante de sua banda e da produção do Opinião pelo apoio recebido, sob a justificativa de que precisamos uns dos outros.

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Duda consegue deixar seu público bastante à vontade por conta de seu jeito humilde e humano. Vez por outra, ela interrompia o show para narrar acontecimentos que motivaram a criação das canções e para compartilhar causos de sua vida pessoal, a exemplo de situações embaraçosas vividas em decorrência de não falar inglês fluentemente em uma viagem recente a Nova Iorque. Toda boba, também revelou qual de suas letras era a preferida de Caetano, expôs suas experiências desastrosas usando o Tinder e fez uso da expressão gaúcha “vamo dale” diversas vezes — motivo de graça sempre que proferida. Isso tudo faz nos aproximarmos dela, identificarmo-nos com ela e sentirmo-nos por ela acolhidos.

Outra sutil atitude que cria uma aproximação entre a artista e os fãs é o fato de, ao longo de seu show, Duda encarar a sua plateia, olhá-la nos olhos, como quando ela apontou para o cabelo de uma menina, dando a entender que ambas tinham a mesma cor de cabelo. Parecem gestos simples, mas fazem toda diferença.

Próximo ao fim, Duda performou “Chapadinha” — a melhor paródia de “High by the Beach”, de Lana Del Rey, já feita. Em seguida, a pedidos (iniciados por mim, diga-se de passagem, e provando o quão empolgado eu estava), foi a vez de “Bixinho” e seu remix. Isto é, desfrutamos de mais de cinco minutos do maior clássico de Duda Beat (e, honestamente, eu não me oporia se ela continuasse por ainda mais tempo, afinal, só mais uma vez não vai fazer diferença).

“Me senti tão em casa [das outras vezes que estive em Porto Alegre], tão bem acolhida, tão bem recebida. E hoje não foi diferente. Muito obrigada, de verdade, do fundo do meu coração. Para fechar com chave de ouro: Bixinho!”

De acordo com Duda, essa foi sua terceira apresentação na capital gaúcha. As duas primeiras oportunidades sucederam-se na casa noturna Agulha, na Zona Norte. Ainda na ocasião, entre uma canção e outra, ela contou que fora tão bem recebida no Sul que os shows que aqui realizara foram grandes marcos para sua carreira e foram responsáveis por colocar Porto Alegre no top 3 de cidades mais queridas pela artista e sua banda.

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Sinto muito e boas novas

“Quem é que nunca sofreu por amor?”, questiona Duda Beat em entrevista à TripTV. Porém, não vencida pelos amores não correspondidos do passado, a cantora, demonstrando ter propriedade no assunto, complementa e aconselha:

“Viver a dor é essencial. Sofra; sofra, mesmo; mas, depois, faça uma parada para si.”

E assim nasceu seu álbum de estreia, Sinto Muito, que transforma sofrência em hit, ressentimento em agito, dor de cotovelo em manguebeat e que traz em seu nome uma dualidade: será o disco um pedido de desculpas ou será que se propõe a dar conta daqueles que se entregam de modo intenso às emoções?

A popularidade justamente conferida à cantora neste e no último ano se deve, na minha opinião, ao fato de ela ter conseguido captar em suas canções pontos que são universais quando o assunto é relacionamento e de tê-lo feito de modo leve, sincero e dançante — deixando-nos como bem manda o meme: sarrando e chorando. Para exemplificar, todos já quisemos, meses após o fim de um namoro frustrado, um momento para lançar na roda de conversa entre amigos:

“Eu não vou buscar a felicidade em mais ninguém
Porque cansei, meu amor”

Ou, então, tempos depois de um término, refletir contidamente:

“Tanto tempo se passou desde que você se foi
Que eu até me perguntei se eu gostava de você
E se eu conhecia você
E se o cheiro era bom”

Ou, ainda, ao experimentar um amor platônico, a distância ou não recíproco, gritar a plenos pulmões (mas mais para si do que para outrem):

“Se fosse fácil te fazer enxergar
Que ao meu lado é o teu lugar”

Quem não pôde assistir ao show no Bar Opinião não se desespere! Duda Beat segredou que voltará para Porto Alegre em breve, mas, dessa vez, com novas canções e com participações de “rappers brasileiros e meninas maravilhosas”, como a própria cantora disse. Ou seja, vem novidade por aí!

Ficou interessado ou interessada para conhecer o beat de Duda? Criei uma playlist que contém todas as músicas performadas no show. Confira!

Por Vinícius Alexandre Rocha Fernandes da Silva

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