Oi, Gabi, tudo bem?

Antes de palpitar sobre a tua vontade de escrever, queria te dizer que ter recebido o teu e-mail foi uma das coisas mais legais que já me aconteceram nos últimos tempos. Além de ter me identificado com os teus desejos, fiquei lisonjeada com a tua confiança.

Desde que me conheço por gente, gosto de falar e escrever. Meu pai sempre nos presenteou com muitos livros, e as palavras e histórias foram presentes em nossa casa. Mas foi na 4ª série, no Maria Imaculada, quando eu tinha nove ou dez anos, que a minha professora de português (na foto, comigo vestida de Emília e com as minhas colegas Aline e Renata) me incentivou a participar de um concurso de redação da Brigada Militar. Venci. Meus pais e irmãos estavam lá para me aplaudir. Eles emolduraram a redação, que enfeitou por anos a parede do meu quarto de adolescente.

Desde então, Gabi, carrego em um lugar precioso da minha essência um fascínio desconcertante e visceral pela força da palavra escrita. Já adulta e formada, encontrei em um ônibus a minha para sempre Tia Mara (o nome dela é Mara Monteblanco). Nos abraçamos, contamos de nossas vidas e percebemos que jamais deixamos de torcer e lembrar uma da outra naqueles anos que haviam se passado. Ela disse que morria de orgulho a cada texto meu que lia no jornal, e eu pude agradecê-la com toda a minha verdade, o seu carinho e ensinamentos daquela época deliciosa.

Quando eu não era feita de pano, mas era a Emília em pessoa, cheia de perguntas na ponta da língua e curiosidades malucas na cachola, foi nesse tempo que descobri que escrever me fazia feliz. Talvez fosse uma forma e um jeito de organizar os pensamentos que desciam do meu cérebro sem censura e sem escala, diretamente para a língua. Escrevia cartas e cartões para as amigas, avós e namorados. Redigia os trabalhos em grupo, rabiscava devaneios e um sem fim de relatos. E também sem muito nexo. Mesmo assim, fazia muito sentido para mim, tanto que ainda guardo muitos desses rabiscos. 

Sem os impulsos ou empolgações que a linguagem oral acaba nos induzindo, escrever colocava em ordem as minhas ideias . E eram tantas. Eu queria ser bailarina, cursei um semestre de Direito, amava Cazuza e, como ele, e porque também me sentia aquele garoto que queria mudar o mundo sem assistir a tudo de cima do muro, decidi ser jornalista. Queria ser repórter de televisão. A convite de Cristiane Ostermann, minha primeira missão profissional foi produzir um programa jovem de rádio diário, na FM Cultura.

Meses depois, fui conversar com o chargista Marco Aurélio a convite da minha amiga e colega de faculdade Juliana Moreira, que já trabalhava na Zero Hora. Depois de ouvir, incrédula, piadas e risadas dele e do povo que estava na sala ao lado, no final da entrevista de trabalho, Marco me olhou bem sério, tirou os óculos da ponta do seu indefectível nariz e perguntou: “guria, me diz uma coisa para encerrar: tu és colorada ou gremista?”. Àquela altura, eu já não estava entendendo mais nada daquele papo de louco, que parecia qualquer coisa menos uma entrevista para uma vaga em um jornal sério como eu imaginava que fosse a ZH. Mas, já que estava ali mesmo, respondi: “sou colorada”. Ele me olhou, levantando da cadeira para se despedir, e disse: “então ‘tá, minha querida, pode vir trabalhar na segunda-feira. Se é colorada, ‘tá contratada”.

Naquela segunda-feira e em todas as outras ao longo de 15 anos, eu vivi intensamente uma obsessão: aprender a escrever. Tive excelentes professores. Nem todos doces como a Tia Mara, mas quase sempre grandes profissionais. Dividir a redação, a vida e a paixão pela escrita por anos com eles foi fundamental para fortalecer as minhas certezas. Porque nesse tempo, Gabi, entendi que viver da escrita é tanto transformador quanto árduo e dolorido.

Tocar o coração e o pensamento de outras pessoas parece ser a mais linda e revolucionária das mágicas. E é. A maneira que encontrei para te dar “uma força” foi te escrever. Te afirmo, sem medo de errar, que vale a pena, sim, meu querido, perseguir os nossos sonhos. Então, leia muito, muito, muito, muito. De verdade. Tudo o que parar na tua mão e te interessar. Observe as pessoas e tente fazer o exercício de se colocar sempre no lugar delas, assim como diz o padre: na alegria, na tristeza, na saúde e na doença. Em todos os dias da tua vida. Só assim e com trabalho, foco e amor vais encontrar a força certa das tuas palavras para tocar a alma das pessoas.

Ah, há também algo meio desanimador, porém importante e prático que preciso te dizer. Por enquanto, mesmo contrariado, siga firme e forte no teu trabalho formal. Estamos em um momento diferente e de transição no nosso ofício. Todas as regras e formatos estão mudando, e a tecnologia hoje elege e derruba até presidentes da República. Há um infinito de possibilidades para quem quer se expressar. Veja bem, até eu que “dei certo” e que sou cada vez mais feliz no caminho das palavras e da informalidade tenho pensado sério sobre isso. Parar de escrever? Impossível. O caminho é sem volta. Nunca fomos tão necessários, mesmo que estejamos um pouco perdidos.

Vai, Gabi! Rabisca e te arrisca! Mesmo sem te conhecer, se eu for a Tia Mara da tua vida, só por isso, a minha já terá valido a pena.

Por Mariana Bertolucci

E-mail de Gabriel

Olá, Mariana. Me chamo Gabriel. “Gabi”. Sou de Três Coroas, tenho 27 anos. Adoro escrever e gostaria muito de poder um dia trabalhar com isso. Mas me faltam oportunidades. Estou “preso” ao emprego formal e a algumas contas e enfim… que envolvem o medo, que, a gente já sabe, nos distancia de realizar o sonho. Tu poderias analisar a possibilidade de me dar uma força? Algo que abra meus horizontes, que me dê uma ideia de como fazer para acontecer? A loja onde trabalho foi assaltada 2 vezes, e sinto muito medo cada vez que uma moto estaciona na frente, e o motoqueiro não tira o capacete e caminha na calçada. Tudo o que queria era acordar às 6h da manhã, escovar os dentes, tomar um banho e ir trabalhar num cantinho silencioso e, quem sabe, escuro, uma luzinha fraca, paredes escuras, com algumas poucas prateleiras, um notebook branquinho tela 13 em cima da mesa, tabaco, uma xícara de chá na cor vermelha, às vezes café… receber para pagar as contas, guardar uns pilas para comprar um apartamento ou um terreno e construir uma casa rústica, daquelas que você pisa no chão e ouve o barulho da madeira rangendo, com uma lareira de tijolo na sala. Coisa pouca, sabe? Mas realizar o sonho de ganhar meu sustento escrevendo ao invés de cumprir horários e tarefas iguais, e consequentemente ter mais tempo para deixar fluir as palavras… ir no sítio “ouvir o silêncio” (já ouviu o silêncio?). Entende o que digo, não? Ah! Não me diga que não, você é escritora… queria te contar também que conheci um lago que fica ali num bairro de Gramado, o Ipê Amarelo. É o lugar mais legal que já fui, queria poder voltar às vezes, ou, quem sabe, morar por ali. Isso parece distante, sabe? De qualquer forma, visitar aquele lugar desencadeou uma série de pensamentos que me devolveram o sonho de escrever. Só cheguei até você… porque vi uma foto do prefeito Orlando, aqui da cidade, recebendo um livro que conta a história do seu avô Walter, né? Se puder me escrever, já ficarei bem feliz… não tem pressa… mas quanto antes, melhor… desculpe por essa abordagem incomum, mas foi a forma que achei de ir atrás do meu sonho. De ter uma opinião de alguém que deu certo. Na verdade, é um objetivo, e é mais simples do que parece, mas envolve esforços, desprendimentos e outras coisas…
Abraço!

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