vidas negras e privilégio

Já parou para pensar quanta dor cabe em você? Quanto desalento, melancolia e desespero você consegue suportar dentro de si?

Já se imaginou sendo permanentemente ferida, chicoteada, impotente, desrespeitada e diminuída diante de uma única e mesma dor? Sem yoga, meditação, medicação, endorfina, ombro amigo, terapia ou abraço de mãe para aliviar ou cessar seu sofrer. 

Além do vírus e do medo que pairam no ar, o luto pelas vítimas do Covid-19 atinge quem consegue se colocar só um pouquinho no lugar do outro. A minha irmã diz sempre que não devemos usar o diminutivo porque atrapalha nosso fluxo com a abundância. Mas escrevi “pouquinho” porque não precisa muito mesmo.

Um pouquinho só é o suficiente para que você consiga fazer o exercício simples e grátis de se colocar no lugar de outro ser vivo e exercite um sentimento que poderia mudar o mundo: a compaixão

Desde o início do isolamento, como boa parte da humanidade que tem esse privilégio, tenho prestado mais atenção em mim. Hoje, uma nova amiga virtual (por enquanto, porque não vejo a hora de conhecê-la pessoalmente) e colega de yoga, que é uma mulher bárbara e se chama Isabela Nascimento, me mandou algo que dizia em inglês mais ou menos assim: “Qual a sua parte que você esconde do mundo?”

O que escondemos do mundo e sentimos vergonha de assumir inclusive para nós mesmos é aquela dor que escolhemos ter. Cada um tem a sua. A minha, no caso, é sempre pelo mesmo motivo. Tem o mesmo formato. Eu sei. Reconheço de longe quando ela vem vindo, mas acabo sentada na minha sarjeta particular e no lugar sombrio e triste que mantenho em mim a vida inteira. 

Prometo de pés juntos toda a vez que jamais irei voltar para esse labirinto de impotência erguido por mim nas minhas entranhas. Vira e mexe, lá estou eu de novo. Sozinha, fragilizada, repetitiva, envergonhada, doída, sem energia, doente, crônica. Como disse a minha amiga e escritora Letícia Wierzchowski: “É que nem casquinha de ferida, sabemos o que vai acontecer, mas vamos lá e arrancamos, sangra tudo de novo”.  

O livre arbítrio de escolhermos e escondermos as próprias dores é o que nos torna privilegiados. Ter esse privilégio e tantos outros que eu e você que está me lendo temos, não deveria ser uma vantagem. 

Como disse a nossa professora de yoga Lu Brites, temos que abolir essa história de que ter privilégio é bom. Uma sorte grande e, afinal de contas, somos todos muito gratos por isso. O privilégio deveria ser pejorativo e não motivo de orgulho. Porque o fato de ele existir é a causa de tantas dores sem escolha há tantos séculos em muitas pessoas no mundo. Quer ver?

Já insultaram você por sua pele branca? Você já foi seguido dentro de uma loja sem necessidade? Já viu o medo nos olhos de outra pessoa que caminhava sem jeito na direção contrária à sua? E depois a vergonha nos mesmos olhos? Alguém já atravessou a rua só para não passar perto de você? E a bolsa? Você já percebeu que alguém escondeu a bolsa ao dividir um elevador ou um transporte coletivo com você? 

Você já sentiu pavor ao ser abordado por um policial? Ou já foi parado e detido pela polícia sem nenhum motivo, só porque você é extremamente branco? Quantas vezes você já sofreu bullying ou foi alvo de deboche e apelidos só pela cor da sua pele? Já se negaram a te atender em algum lugar público ou olharam você e suas roupas, para ver se estavam adequadas? 

Ah, já estava esquecendo, você tem que ensinar seu filho desde pequeno a como não ser morto pela polícia? E a sentir orgulho da própria cor? Você ensina o seu filho a se sentir seguro e orgulhoso por ser branco? Ou precisa convencer sua filha todos os dias antes de ir para o colégio de que seu cabelo é bonito? Você faz isso com a sua pequena? 

empatia emocional é sentir o que o outro está sentindo. A cognitiva é enxergar pela perspectiva da outra pessoa. Tem também a preocupação empática, que é a capacidade de saber o que o outro precisa de nós em determinado momento. Já a compaixão, que para mim é uma das mais lindas palavras, é o desejo de diminuir o sofrimento do outro. 

Na nossa carne e na nossa pele privilegiadas, nós não temos como imaginar o quanto cala fundo toda essa dor secular.

Depois do assassinato brutal de George Floyd aos olhos do planeta, são mais de 15 dias de protestos antirracistas no mundo inteiro, especialmente nos Estados Unidos. Vamos curar nossas dores privilegiadas e escolher as coletivas e humanas.

Por Mariana Bertolucci
Foto em destaque: SILVIA IZQUIERDO / AP

  1. Isabella says:

    Adorei mari!acho q vc deve dar voz e rosto a este texto, omitindo meu nome, não mereço essa Homenagem,somos amigas e ponto. Grave por favor um vídeo e Ponha no Instagram. Mais gente terá acesso. Vale você se superaram inibição por uma crônica -causa tão nobre. Gostei muito Parabéns Senti pulsar vc, vc se soltou.

    1. Susana Zaman says:

      Belíssima reflexão de que o privilégio não deveria ser sinônimo de orgulho e sim de uma necessidade urgente de eliminá-lo dando a todos os mesmos direitos de viver uma vida livre de preconceitos.

      Bahaullah ja dizia “A terra é um só país, e os seres humanos seus cidadãos”. Quando será que o mundo entenderá essa verdade tão simples e profunda?

  2. Lindo artigo Mari, muito bem colocado o ponto da falta de empatia no mundo. Eu digo que esta causa ela é da humanidade, que não devemos delegar a governos e nem deixar a política em busca de poder se apoderar dela, aprisionando-a e se utilizando dela. E o primeiro passo que nós humanos devemos fazer para combater essa falta de empatia com a causa das vidas negras importarem é primeiro nos reconhecermos racistas. É como um vício ou uma doença psicológica em que o doente só vai poder aceitar o tratamento primeiro se ele reconhecer que está doente, que precisa se curar. O racismo é uma doença psique que nos foi incutida pela mente doentia humana. Nós somos humanos e precisamos nos curar desse mal tão ruim. Não vejo como privilégio, meu ponto de vista, acho privilégio uma concessão e muitas vezes somente nascer fora de uma condição social desfavorável não é uma concessão, mas quando há favorecimento legal e institucional aí sim o privilégio está concedido. Só temos que tomar cuidado para que ele não só mude de opção. Parabéns pelo artigo. Adorei!!

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