Carta para Cazuza, por Mariana Bertolucci - Foto: Nem de tal/AE

Eu ando cansada da minha cara. Não exatamente “tão down” como diz uma de suas canções que eu menos gosto. É autoenjoo mesmo. É a primeira vez em 30 anos que eu fico tanto tempo só comigo. Você não ia acreditar, mas estamos presos em casa, enfrentando mascarados uma luta coletiva contra um vírus novo. Você sabe bem…

Sabe quando repetimos atitudes e comportamentos que nos levam sempre para o mesmo lugar? Provocam o mesmo desassossego no peito de dezenas, centenas de outras vezes. Os franceses chamam de déjà vu. A tradução em português é “já visto”.

Obviamente que, durante essa sucessiva repetição de erros e acertos que é viver, nos divertimos e nos distraímos bastante. Eu diria que nos divertimos até demais. Mas ao longo dos anos, cansa.

Há umas três décadas que me sinto um pouco assim. Desde que conheci você e nunca mais parei de te ouvir e de me repetir. Chovendo no molhado. Subindo escada rolante ao contrário. Dançando a mesma coreografia, e repetindo a pose óbvia do final.

Desconfio que você não teria muita paciência para a minha conversa. Monótona, cafona, careta e covarde. Pessoal tem chamado de Mi-mi-mi. Às vezes, é bem assim que eu me sinto, miando sozinha por puro impulso. Cultivando hábitos, reações e “sentires” como se fossem raízes, mordendo o queijo que eu mesma coloquei na ratoeira.

Confundindo ansiedade com romantismo. Carência com falta de atenção. Empatia com falta de autonomia. A moda por aqui agora é falar no “novo normal”. Ando em desvantagem, ainda presa ao meu “antigo normal”.

Escrever para você me transportou sem escala para 1990, o ano da sua morte. Tudo o que você dizia nas entrevistas e nas suas letras completavam os meus pensamentos. E sentimentos. O descompromisso dos seus gestos chancelava as minhas vontades. As tiradas espontâneas, seu jeito de mexer o corpo no palco ou de ajeitar o jeans era tudo que eu achava que significava liberdade. Estilo. Ousadia.

Para completar, você era pura sensualidade sem preconceito, dono de talento e sensibilidade peculiares. Você nunca foi mais um cara, Cazuza. Tinha carisma, coragem, sabia incluir e acolher em si a poesia visceral e desconcertante e todos os seus opostos de potência e dor.

Sarcástico, ansioso, indignado, belo, debochado, divertido e rebelde. Eu gostava das suas cores, das bandanas, da camiseta do Mickey, da sua graça moleca e atrevida. A naturalidade com que você acolhia luz e sombra me fascinava no artista e ser humano que você era.

Pleno e vazio. Intenso e denso. Moderno. Libertador. Até o fim, você encontrou dignidade para ser você. Cara a cara com a morte, não deixou de criar suas últimas obras. E que obras. Parece que você sabia o quanto elas te definiriam e seriam ainda mais eternas do que toda a maravilha que já tinha saído de você.

Com sua carioquice natural, você passeava com intimidade constrangedora tanto por sentimentos vibrantes e virtuosos, quanto por buracos obscuros, impulsivos e destrutivos. Do grand monde ao pé sujo, você sempre esteve cercado de amigos. De gente interessante, que além de gostar de beber com você, bebiam na fonte inesgotável da sua energia. Queriam estar perto de você, só por ser você: Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, genuíno, dono sublime do seu dom e personalidade únicos. Porque você devia ser um barato, uma pessoa potente e angustiada. Livre e dengosa. Frágil e forte, inteira e fragmentada.

E como você era lindo! Dançava gostoso, mexia faceiro. E ainda sabia olhar profundo, lânguido, sapeca ou furioso. Sem medo de não agradar. E com menos medo ainda de agradar muito! Arrojado, desbocado, danado, destemido. Moleque da irreverência. Inteligente, sedutor, abusado, romântico, carente, herói e anti-herói.

Você fazia caber em si quantos Cazuzas fossem necessários para a ocasião. E você era tantos. Ainda transformava toda essa personalidade multifacetada em letra, poesia, melodia, rebolado e confusão. Embalando nossos primeiros beijos, arrepios, aventuras, viagens, cores, dores e amores.    

Quando você nos deixou, eu tinha 17 anos. Queria uma ideologia para viver. Você, só não cantava “Ideologia”, como era a ideologia em pessoa. Ah, falando em ideologia, esquece… Só quero falar com você sobre amor.

Em 2020, escrevendo essa carta à convite da minha parceira e mestra de yoga Lu Brites, entendo porque “Exagerado” sempre foi a minha preferida. Eu e a Lu nos conhecemos na mesma época que você surgiu nas nossas vidas. Como a “Camila”, da música do Nenhum de Nós que você cantava, tínhamos apenas uns 17 anos, mas não baixávamos a cabeça para tudo.

Ainda nos cruzamos em uma noite memorável com amigos em comum em SP, daquelas que você ia adorar. Mas foi há mais ou menos seis anos que nos reencontramos para definitivamente morarmos uma no coração da outra.

Conduzidos por ela, eu e mais uma centena de pessoas especiais estamos fazendo nascer a DOM Digital. Orgânica, natural, sem pressa, sem pausa, como ela vem nos ensinando. Está intenso, árduo, mas precioso. Você ia pirar muito estudando e praticando Yoga com a gente na Jornada do Autoconhecimento. Tenho certeza Cazuza.

No filme sobre a sua vida, na cena em que você foi se despedir do mar em uma Kombi e o enfermeiro te levou no colo para o seu último mergulho, você nos ensina a amar a vida e todas as suas potências. Você encolheu fisicamente aos nossos olhos incrédulos com tanto desejo e dignidade, que se agigantou ainda mais diante de todo o país.

Sua sangha é poderosa, poeta. A arte que você fez por aqui ecoa no nosso cotidiano até hoje. Você viu nossas piscinas cheias de ratos porque nossas ideias realmente não correspondem aos fatos, antes de muita gente perceber. Há quem nem ainda nem tenha notado, dá para acreditar?

Sua missão foi cumprida, embora houvesse tanto ainda para viver, para criar, para amar e para SER. Para que todos nós pudéssemos continuar admirando VOCÊ SENDO. 

Não por acaso, você é o remetente da minha carta. Sua morte foi no dia em que completei 17 anos. Era um domingo gelado de julho, você se despedia da vida e eu começava a viver a minha intensamente. Olhando para aquela garota que só queria mudar o mundo e que só três décadas depois não quer mais assistir a tudo em cima do muro, me sinto quase capaz de perdoá-la. Esse perdão corrói por dentro, porque exige furungar sem medo em cada uma das nossas dores. No monólogo em que somos escalados para o vilão e o mocinho ao mesmo tempo, em um protagonista único do roteiro turbulento e precioso que é existir.

Ando bem mexida, viu Cazuza… O autopasseio pelos meus esconderijos não tem sido exatamente um giro gostoso e divertido pelas ruas do Leblon com a brisa leve do verão carioca. Nas esquinas das minhas vísceras e estranhezas, ando encontrando dores velhas, insistentes, entranhas amontoadas e enrijecidas. Milhões de dúvidas, uma só certeza: não há outro caminho.   

Todo amor que houver nessa vida,
Mariana

  1. Elizabeth Dallagnol Kalil says:

    Oi amada, a tudo isto que estás sentindo, dou o nome de maturidade GRANDE, ou melhor, amadurecimento. Assim como entrar na adolescência foi um tanto sofrido, na maturidade, apesar de no teu caso , um pouco tardio, também se sofre.. foi um pouco ou mais que um pouco de dores!
    A vida sempre nos surpreende em momentos os quais não esperamos!
    Fico feliz por ti, pois quando se chega neste teu momento de maturidade GRANDE, A gente se torna “ gente grande” … aí… hum… aí, como dizia meu paizão: a vida numa mulher, começa pertinho dos cincoenta, se torna dona de sí e maravilhosa!!!
    Usa e abusa deste teu momento MARAVILHOSO !’
    Beijinhos minha querida Mári!!!

    1. Ana F. says:

      🙏🏻🙏🏻🙏🏻Meu amigo … nossa amizade nasceu na praia… amava como eu o mar ..Descreveu lindamente o artista .. o moleque .. o homem.. o doidinho .. o amigo … viva Cazuza .. Viva o Circo Voador .Viva Fortaleza ! Viva Canoa Quebrada !parabens pela carta ao nosso sempre Cazuza!

  2. Ivana Xavier says:

    Lindo texto!!
    Ele é, ainda hoje, uma inspiração!! Soube viver, aproveitar a vida sem temer julgamentos, opiniões!!
    Viva Cazuza!!

  3. Denise Melzer says:

    Simplesmente lindo, ele nos acompanha a tanto tempo né minha amiga?! E quando pensamos que somos livres, somos essência, ele nos provoca, nos instiga… Debochado, sensível, inteligente, irreverente e lindo!
    Exageradas, com tantos amores inventados, andamos de bar em bar, mas nunca esquecemos que quem tem um sonho não cansa!
    Eu amo essa, mentiras sinceras me interessam!
    Dica

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