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A mando do ditador dominicano Rafael Leónidas Trujillo, no dia 25 de novembro de 1960, foram assassinadas na República Dominicana, as três irmãs Mirabal. Vinte e um anos depois, em, 1981, aconteceu o Primeiro Encontro Feminista Latinoamericano e do Caribe, em Bogotá, na Colômbia. Para homenagear as irmãs ativistas políticas, o dia 25 de novembro foi escolhido como o Dia Internacional da Não Violência contra as Mulheres. 

Quase 60 anos se passaram e por aqui nascemos meninas, crescemos mocinhas e viramos mulheres nesse tempo. Muita coisa mudou. Especialmente na última década. Ainda não aceleramos e estacionamos nossos carrinhos voadores como os Jetsons, mas já encontramos tudo e todos na plataforma digital. Inclusive muita frustração, um tanto de falsidade e outro bocado de notícias mentirosas. 

Fora isso, também rasgamos sutiãs, nos empoderamos, rebolamos e nos divertimos bastante. Pegamos umas nas mãos das outras, repetimos padrões, nos consolamos, nos elogiamos, nos abraçamos e compreendemos lindamente a força que tem nossa união e o compartilhamento feminino: de alegrias, tristezas, conquistas, feridas, perdas, dores e amores. 

Viramos CEOs, jogamos futebol, surfamos, usamos a roupa que queremos, pilotamos aviões, dirigimos caminhões, empresas, equipes, cortamos cabelos, fazemos pole dance e espacatos. Não queremos mais casar virgens, votamos, denunciamos abusos passados, presentes e perdemos um pouco do medo, porque percebemos que não nunca estivemos sozinhas. Tudo isso nos fortalece dia a dia. No entanto, algumas ideias e fatos não mudaram muito, não. Meninas e mulheres que transam com muitas pessoas continuam sendo chamadas de galinhas e fáceis e os homens que transam com muitas pessoas continuam sendo chamados apenas de homens. 

Seguimos apanhando, sendo humilhadas e assassinadas somente pelo fato de sermos mulheres. E bastante. Uma em cada três mulheres no planeta já sofreu violência física ou sexual. A cada seis horas uma mulher é vítima de feminicídio no mundo, segundo relatório divulgado pela ONU, em 2018. O Mapa da Violência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostra que o número de mulheres assassinadas aumentou no Brasil. Entre 2003 e 2013, passou de 3.937 casos para 4.762 mortes. Em 2016, uma mulher foi assassinada a cada duas horas no país. Em 2019, a cada doze horas uma mulher é morta no Brasil. O que deixa Organização Mundial de Saúde perplexa e atenta ao dia 25 de novembro. 

A violência contra as mulheres é um problema de saúde pública global de proporções epidêmicas e com sequelas psicológicas muito sérias. Mulheres agredidas têm duas vezes mais chances de desenvolver depressão e alcoolismo, para falar nos danos mais comuns. 

Fomos por toda nossa existência culturalmente diminuídas, até por nós mesmas, as próprias mulheres. Nos habituamos e nos conformamos com essa condição injusta por covardia e para “não nos incomodarmos” já que a vida em sociedade sempre teve e têm ainda suas regras e peculiaridades. Então aquelas de nós que ainda não morreram e não foram agredidas fisicamente, verbalmente, psicologicamente por seus parceiros ao longo destes anos, ainda fingem dores de cabeça horríveis ou orgasmos escandalosos. 

Ainda abrem mão das suas carreiras, opiniões e vontades próprias para atender às expectativas dos seus parceiros. Ainda se desgastam, se descabelam e perdem tempo, oportunidades e saúde por causa do foco excessivo numa relação desigual, onde a conta nunca fecha e você sempre dá muito mais do que recebe. Falo de energia, carinho, cuidado, atenção, esperança. Aquilo que chamamos de amor mesmo. Troca.

E isso não é mimimi, tá? Tampouco tem a ver com política. E como postou minha mãe esses dias no Facebook: “se eu gostasse de mimimi, eu comprava um gato gago”. Brincadeiras à parte, isso é a realidade da nossa condição feminina nos dias de hoje. E por isso que lembrar o dia de ontem é essencial para agradecermos a vida e a morte das irmãs Mirabal. Para termos a certeza de que nossa luta é diária, interna, cultural, incansável, necessária e, que quanto mais juntas estivermos, mais potência teremos. À propósito, mesmo que qualquer semelhança não seja mera coincidência: quem matou Marielle?

Por Mariana Bertolucci
Foto de Fran Hunter

  1. Ivana Cheuiche says:

    Parabéns Mariana!!!
    Excelente texto como sempre!!!
    E para a indagação final????
    No país em que vivemos…ficaremos sem resposta!!
    Lamentável!!

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