páscoa

Foto: Heloisa Medeiros

Nunca escrevi sobre a Páscoa em forma de crônica, tanto que estou sem saber direito para que lado ir. O engraçado é que foi durante uma das tantas e deliciosas Páscoas em família que passei em Gramado que nasceu a ideia de um dos primeiros textos que escrevi neste formato e que acabou indo para as páginas do meu único livro solo, Bailarina sem Breu.

Esse texto que foi escrito durante a Páscoa, há exatos 10 anos, não fala sobre a festividade religiosa em si e a ressurreição de Jesus três dias depois da sua crucificação no Calvário, conforme o relato do Novo Testamento. Só me dei conta disso agora, que estou aqui sem muitas ideias para dividir com vocês.

Na última segunda-feira, primeiro dia da semana da principal celebração do ano litúrgico cristão, bem como a mais antiga e importante festa cristã, fomos surpreendidos pela Notre-Dame ardendo em chamas. Estou longe de ser aquelas pessoas que esperam amedrontadas previsões de Nostradamus ou acompanham a lua e sol e suas diferentes fases. Gosto mesmo de admirar e sentir a natureza e suas manifestações, e cada vez mais sua força e impacto na vida das pessoas fazem sentido para mim. Tento (nem sempre consigo) prestar atenção nas minhas ações, percebendo as boas e nem tão boas assim consequências que elas trazem para a minha vida todos os dias.

Voltemos à Páscoa real, sem coelhos coloridos ou overdose de chocolate. Quando publiquei essa primeira crônica no blog, que assinava enquanto titular de uma coluna diária na ZH, renasceu em mim algo precioso. Era um tempo em que ainda ligávamos e atendíamos celulares e telefones fixos. Era domingo à tardinha, uma semana após a Páscoa daquele ano e, do outro lado da linha, era a Katia Correa, uma amiga querida, mas ainda distante de mim naquela época. Ela disse ter adorado o que eu havia escrito.

A cada frase que ela dizia, eu me aquecia por dentro. Eu sentia uma alegria quase infantil, como quando achávamos os ninhos escondidos na casa dos nossos avós em Gramado. As palavras generosas e de incentivo da Katia jamais saíram do meu coração e dos meus desejos. Era só o que eu precisava ouvir naquele momento para ressuscitar meus anseios antigos de ultrapassar os limites da escrita como jornalista (e na época colunista social), transformando-me, então, em uma cronista. Nos despedimos com a seguinte frase dela: “promete que não vai parar de escrever assim. Dá um jeito. Arranja tempo. Tu és boa nisso!” E eu disse extasiada: “Prometo”!

Repeti anos depois, muitas vezes, essa história para ela, inundada de gratidão pela sua genuína atenção comigo. Foi a época da minha vida em que eu mais recebi elogios rasgados, de todos os lados e tipos de pessoas. Muitas superbacanas (e que tenho a sorte de ter por perto até hoje) outras superinteressadas em aparecer lindas e imponentes na minha página. Faz parte… A Katia não tinha interesse nenhum em me agradar, pois ela é casada com um dos acionistas da empresa em que eu trabalhava e, na minha coluna, mal podia aparecer direito. Desde então, passei a escrever do jeito que conseguia — de madrugada, com uma mamadeira na mão e o computador no colo, ou da forma que fosse possível. Entre outras pessoas, perto de mim e das minhas palavras, eu tive apoio incondicional da escritora Claudia Tajes e da minha amiga, desde a barriga das nossas mães, a Denise Castro. Ultrapassar as regras e a fronteira do jornalismo naquele momento era meu “Domingo de Ressurreição”.

Iniciei este texto sem ideias e desolada, porque, atrás de uma lembrança ou foto minha na Notre-Dame ou na frente da catedral (se eu estive lá dentro alguma vez foi na minha primeira visita a Paris, em 1999, mas, que agonia, eu não LEMBRO!!!!), me perdi, encontrando um monte de lembranças de lugares e pessoas especiais que também contam a minha história. Não achei o álbum de Paris, e a minha ideia de descobrir se entrei ou não na Notre-Dame já não importa para encerrar o que vim dizer para vocês. O que, de verdade, importa nesta semana de Páscoa e em todos os outros recomeços é a compaixão, a atenção que dedicamos às pessoas e a nós mesmos — o amor e a gratidão que estão a todo instante prontos para ressuscitar dentro de nós.

Feliz Páscoa, recomeços e desejos eternos para cada um de vocês!
Com amor, coelhos sapecas & chocolate,
Mariana Bertolucci

  1. Ana Laurent says:

    Lindo , lindo o que escreveste !!!
    Não para nunca de escrever !!!
    São momentos adoráveis e encantadores que desfruto lendo tuas crônicas !

    FELIZ PÁSCOA !

    1. Helena says:

      Mari amada,tuas crônicas são ótimas,tens um talento nato❤️Continua sempre encantando a todos com teu jeitinho especial q amo❤️💋💋💋💋💋

  2. Mirza says:

    Que bom que existem Katias,Claudias,Denises ..Com o incentivo delas e teu talento ,temos textos bons pra ler. Voltando um pouquinho no tempo,o texto sobre tua experiência em Colônia,na semana do Slow ,estava sensacional!Feliz Páscoa.

    1. Adri says:

      Mari aqui vai o comentário da tua coleguinha de inglês na zona sul, lembra? Heheh
      É um prazer ler as tuas crônicas, acho que todos devemos agradecer a Katia, Cláudia e Denise.
      A mensagem é linda e deixa claro que sempre é tempo de recomeçar 🤩!
      🙌🏼🙏🏼😘😘😘

  3. Thuane Bristot says:

    O universo se manifesta de uma maneira simples e grandiosa: através daqueles que se aproximam de nós, sem interesses, sem jogos, simplesmente oferecendo conselhos e opiniões. E nós esperamos aquela luz divina descer lá do alto e dizer: “Continue escrevendo Mariana!”. Não é bem assim, tão fantasioso, mas o recado do Universo está dado. Borboleta que não só se transforma, mas incentiva a transformação a sua volta! 💙

  4. Elizabeth says:

    Texto maravilhoso! O verdadeiro sentido da Páscoa é recomeçarmos cada dia revendo nossos atos e tentando sermos cada vez melhores! Humanamente melhores! Deus a abençor! Feliz Páscoa!

  5. Graziela Andreazza says:

    Que texto!!! Não sabia para que lado tu irias, mas quando fechou e eu entendi a tua ressurreição, a compaixão declarada pelas amigas ou apenas conhecidas na época , foi muito legal. Também pensei nas minhas próprias ressurreições!

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