slow movement

Foto: Nauro Junior

Quem nunca respondeu a pergunta de como vão as coisas numa repetida expressão: “tudo bem… na correria.” A resposta geralmente está pronta, né!? Aliás, pronta antes mesmo de realmente pensarmos como estamos de fato. Essa resposta robótica soa mais direta, mais rápida, ágil, ativa, mais imponente ou passível de admiração dos outros, pois quem vive na correria, além de não ter tempo para nada, também dá a (falsa) impressão de que trabalha muito e está sempre envolvido em compromissos extremamente necessários para o desenvolvimento da sociedade. Ledo engano.

Sou uma destas tantas pessoas que passaram as últimas duas décadas respondendo a mesma coisa quando perguntadas como estavam. Depois de conhecer o jornalista e escritor escocês Carl Honoré e de participar do 1º Slow Nuestro, em Colônia de Sacramento, uma intuição me cochicha muito serena e calmamente que, daqui para frente, devo eliminar essa resposta automática dos meus diálogos, pelo simples motivo que eu não suporto mais viver na correria e não quero mais verbalizar isso.

Novos hábitos, como respirar melhor e me aprofundar na teoria e na prática do yoga, já sinalizavam e apontavam a direção para esse caminho. Nos 12 dias que me hospitalizei no ano passado para curar uma crise aguda de amigdalite bacteriana, percebi, assustada e já sem forças físicas para reagir, que por não conseguir parar voluntariamente meu corpo o fizera de forma abrupta e sem piedade. Isso é forte, transformador, mas não é preciso chegar nesse ponto.   

Correndo desenfreados em um mundo cada vez mais veloz e competitivo, a exigência para que sejamos permanentemente multitarefas causa uma ansiedade paralisante e desmotivadora. Como abriu sua conferência na última semana no Uruguai, Honoré dedica sua vida a explicar ao mundo que estamos equivocadamente acelerando a vida no lugar de vivê-la.      

Carl explica com uma comovente simplicidade e bastante bom humor que o movimento slow é mais essencial e necessário do que podemos imaginar. É uma lenta revolução contra a pressa — a angústia que ela provoca e os tantos malefícios para a nossa saúde e convivência social, terminando com as relações afetivas, porque não temos tempo para conversar, observar e ouvir nossos parceiros, filhos e amigos.

Morador de Londres, Carl Honoré nasceu em dezembro de 1967, na Escócia, e transferiu-se ainda bebê com os pais para o Canadá, na cidade Edmonton, que considera a sua cidade natal. Graduou-se em história e italiano pela Universidade de Edimburgo. Trabalhar com crianças de rua no Brasil nos anos 80 o inspirou a cursar jornalismo. Desde 1991, atuou por toda a Europa e a América Latina, quando, por 3 anos, foi correspondente em Buenos Aires, ocasião em que conheceu a Colonia del Sacramento.

Seu livro, de 2004, “In Praise of Slowness”, o best seller traduzido para o português no ano seguinte e lançado no Brasil com o título “Devagar”, explorou pela primeira vez como essa filosofia pode ser aplicada em todos os campos da atuação humana. O sucesso da obra alçou Carl como guru mundial do movimento. Assim, Honoré descreve o Slow Movement:

“É uma revolução cultural contra a noção de que mais rápido é sempre melhor. Não é fazer tudo a um ritmo de caracol, e sim tentar fazer tudo à velocidade certa, saboreando as horas e minutos em vez de apenas contá-los, fazendo tudo o que for possível em vez de ser o mais rápido possível. É sobre ter qualidade em detrimento da quantidade em tudo, desde o trabalho até a comida e a criação dos filhos.”

Não por acaso, na terra do dolce far niente, nasceu a ideia de desacelerar a vida cotidiana, quando o italiano Carlo Petrini realizou um protesto contra a inauguração de um McDonald’s na Piazza di Spagna, em Roma, em 1986. Nesse contexto, surgiu o Slow Food, e o princípio foi sendo aplicado em outros segmentos. O Cittaslow é uma espécie de selo concebido por uma organização não governamental fundada em 1999, também na Itália, que tem por objetivo reduzir a velocidade da vida nas cidades para se ter mais qualidade.

Não se trata de relaxar e relaxar sem ligar para as demandas da realidade. Ser devagar significa controlar os ritmos da nossa vida. Reconectar-se com a nossa tartaruga interna é viver na velocidade adequada e fazer uma coisa de cada vez, ao contrário de se sentir sempre em dívida com a agenda, os prazos, os sonhos e as pessoas.

É preciso trabalhar para mudar o tabu de que a lentitude é algo negativo e levantar a bandeira de que as cidades que respiram e vivenciam o movimento slow estão melhores, mais prósperas e habitadas por pessoas mais saudáveis. A calma interna e conexão de corpo e mente é tão essencial que o boom de terapias alternativas e naturais que ajudam as pessoas nesse sentido tornou-se um caminho sem volta em todos os cantos do planeta.

Conectado, atento e com uma agenda longe de ser somente slow, Carl não tem nada de extremista da lentidão e tampouco passa dias deitado em uma rede respirando brisa fresca. Ele comprovou, em estudos e na prática, o quanto a calma e a vagareza podem ajudar em tudo. Sem tirar o valor de um ímpeto carnal mais animado, está comprovado, na prática e em estudos, que o slow sex é uma experiência que propicia mais prazer, ternura e estreita todos os vínculos entre os parceiros — prova disso é o sucesso absoluto de dinâmicas e terapeutas tântricas que ajudam os casais nessas redescobertas. Está aí a gaúcha Carol Teixeira, que tem  encantado pessoas do Brasil todo.

Precisamos deixar que nossas crianças sintam-se frustradas e floresçam no aborrecimento, porque assim elas aprenderão a ter calma e superarão as crises com serenidade. Deve-se respeitar o cansaço. A conexão demasiada com a tecnologia não instiga nossa inteligência e sensibilidade — apenas nos distrai e nos afasta do que realmente importa na vida. Obrigada, Carl Honoré, Eduardo Alvares Boszko, Martin de Freitas, Emanuel Dalmás, Ivanna Sponda e Andres Naxto Dominguez! O Slow Nuestro foi lindo! Transformador! Por mais lentidude produtiva. Sigamos juntos, conscientes, devagar e sempre.

Por Mariana Bertolucci

  1. Luiz Inacio Medeiros says:

    Parabéns Mariana! Mais um texto fluido e rico em informação. Tua caneta está cada vez mais ágil e interessante. Um abraço e continua

    1. Silvia Medeiros says:

      Mais uma vez Mariana nota Mil pela maneira intensa que escreveste este texto tão real em nossas vidas !
      À partir de hoje vou me policiar para não ficar no bagaço no fim do dia como diz a tua mãe ! Hahaha
      Vou me agarrar a tartaruga para desacelerar! 👏👏👏💋💋💋

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *