brizola
Na foto: Neusa, eu, Leonel e minha mãe, Dedé.

A lã grossa da minha touca só deixava os olhinhos curiosos e o nariz gelado de fora. Fazia frio no inverno de 1975 e pela primeira vez me separava dos meus pais. Eles foram passear em Punta del Este e me deixaram antes em Montevideo, aos cuidados dos meus padrinhos, exilados políticos na capital uruguaia. Durante outra visita, anos antes, minha mãe estava grávida de três meses. Minha madrinha disse que se eu fosse menina, ela queria me batizar: nasci 6 meses depois, no ano de 1973.

Voltemos ao inverno de 1975; mais de uma babá nativa tentou me agradar. Não adiantou. Eu já articulava as primeiras ideias e, incomodada, repetia: “não ‘quelo’! Elas não têm boca nacional”. Não sei se essas lembranças foram construídas e guardadas em mim por meio dos relatos dos meus pais ou pelas fotografias (em uma delas eu apareço com uma das babás). Mas minhas recordações são tão lúdicas e bonitas como é ou deveria ser a infância. 

Entre casacos, luvinhas e cachecóis, eu via as luzes coloridas de uma imensa roda gigante. Espiando tudo entre as pernas e as conversas dos adultos, caminhava fascinada de mãos dadas com eles num parque de diversão que, para mim, tinha o tamanho do mundo. O que eu não sabia é que o casal escolhido para me batizar tinha em suas existências a marca de uma causa que também tinha o tamanho do mundo. Por esse motivo, eles foram proibidos de morar no nosso país e estavam sozinhos naquela cidade que eu visitava pela segunda vez. A primeira foi para ser batizada, quando foi tirada a foto acima. Meu padrinho sempre foi “fogo na pistola” e sem papas na língua. Para mim, era igualzinho ao meu avô, Walter, seu amigo e companheiro político. Mas o pai sempre me contou que ele perdeu a liberdade e o direito de ir e vir por tantos anos somente porque queria e exigiu que a lei se cumprisse. 

Quando os meus pais ainda não eram casados, o Jânio Quadros, que foi um presidente para lá de esquisito, renunciou alegando “forças ocultas”. Até para mim, do alto dos meus 2 aninhos, seria compreensível que o certo seria o vice assumir o comando do país. O vice era o João Goulart, que além de ser eleito com mais votos do que o presidente, era irmão da minha dinda. Natural para mim e para muitas famílias iguais a nossa, mas para boa parte das forças “ocultas”, ops, digo forças militares (não todas), meu dindo, por defender esse direito da nação e do cunhado, tornara-se o homem mais perigoso e temido do país. Para mim, era só um sujeito de sobrancelhas enormes, observador, divertido e corajoso que me cochichava, às gargalhadas, para eu chamar de gorilas os chatos dos seguranças que ficavam em frente ao prédio e não saiam do nosso pé, nem na hora do parquinho. 

Percebi que os gorilas achavam que ele era um incendiário egocêntrico, além de comunista, que deveria ser tirado de circulação para não influenciar negativamente a nação. E ele era mesmo um influencer e tanto, capaz de mobilizar massas em tempos de censura e quando só o rádio era a cereja do bolo. Nunca foi comunista. Era sim um defensor incansável de uma sociedade mais justa, da liberdade e da educação. Eles fugiram para o Uruguai com o apoio e a torcida de alguns amigos, como o meu avô. Em 1977, durante a ditadura no Uruguai, os militares do país propuseram ao governo brasileiro um trabalho em conjunto para, como ação da Operação Condor, capturá-los para, muito provavelmente, torturá-los e matá-los. Mas ele era danado! Tinha um sorriso largo, um olhar marcante e atento. Sabia fazer graça, tinha fala firme, dono de uma sagaz ironia e uma constante preocupação. Expert em articular pessoas e pensamentos em torno das causas que defendia — e eram muitas naqueles tempos. 

Por sorte, a inteligência norte-americana, que unia esforços com as ditaduras latinas para controlar o seu paradeiro, foi surpreendida por uma mudança da política dos EUA para a América Latina, e eles ganharam exílio no governo de Jimmy Carter, conseguindo deixar vivos o Uruguai, que não era mais seguro. Só em 1979, na anistia geral, eles conseguiram voltar para casa. Eu tinha 6 anos e pouco lembro da emoção que muitas famílias brasileiras como a minha viveram nesse momento. Nessa época, eu gostava mesmo de imitar as Frenéticas. Ao longo de toda a minha vida, eu ouvi as histórias sobre as aventuras e batalhas que ele e a minha dinda enfrentaram. Não tivemos uma convivência próxima como eu gostaria. Meu pai dizia que a atenção dele era para o Brasil. Quando, além de imitar as Frenéticas, eu costumava resmungar alguma coisa para o meu pai sobre isso, ele me explicava, muito calmamente e contava alguma história que me encantava: “minha filha, quando tu cresceres e fores uma moça brilhante e inteligente, vais sentir muito orgulho da tua história, das nossas escolhas e dos teus padrinhos”. Eu respondia meio entediada: “ bem pai, mas eu queria também mais atenção e algum presentinho, !?” 

Eu era uma criança e, ainda por cima, vira e mexe, quando estávamos em algum churrasco com amigos e o nome do meu dindo vinha à tona, dava a maior brigalhada e saímos todos rápido para encurtar a confusão e controlar a exaltação do meu pai. No outro churrasco, entre abraços e cervejas, tudo voltava a ficar bem. Eram outros tempos, e meu pai e avô “quase” sempre fizeram as pazes com os amigos que discordavam deles. Meio óbvio, !? Discordar não era odiar naquela época. Votar pela primeira vez ao lado do meu pai, aos 16 anos, na primeira eleição direta depois da ditadura me deu o peso real que tinha toda essa minha história. Quando vi tudo isso na tela do cinema do 47º Festival de Cinema Latino-Americano de Gramado, na estreia do filme Legalidade, senti algo muito mais forte do que o orgulho: gratidão. Obrigada vô, vó, pai, mãe, Leonel e Neusa Brizola, Zeca Britto, Luciana Tomasi e Leonardo Machado (in memorian). Acho que ainda não virei uma moça brilhante, mas me sinto muito orgulhosa.  

Por Mariana Bertolucci

    1. Sandro Marcelo Ferreira dos Santos says:

      Olá Mariana,
      Parabéns pelo texto! Me lembrei dos churrascos na casa do Tio Walter e do telefonema que presenciei na telefònica de Gramado (sim, naquela época as comunicações eram assim) em que o Tio Walter e o meu pai, Garibaldi, fizeram ao Dr. Brizola em Nova Iorque. Acredito que o ano era 1976. Que felicidade! Os dois pulavam de felicidade e aquilo me contagiou. Tanto é que em várias ocasiões na escola dava vivas ao Dr. Brizola! Me lembrei do meu pai indo à São Borja (com o Tio Walter) no enterro do Dr. Jango (quando todos os gorilas lá estavam, me lembrei também da volta do exílio do Brizola, também por São Borja. O Brasil precisa cada vez mais de idealistas como o teu Dindo. Forte abraço extensivo ao Tio Pércio e à Dedé.

  1. Margaret M. Bakos says:

    Emocionante, Mariana! O teu convívio com esses homens, teu avô e Brizola, que fizeram a história do Brasil, te marcaram profundamente. te tornando uma pessoa batalhadora e brilhante! Sem dúvida, Neusa e Dedé tiveram igualmente a sua parte importante na tua formação!

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