tempo - crônica - foto: janela

Chegamos entre mortos, feridos, infectados, deprimidos e pirados a dois meses de quarentena para conter a fúria descontrolada e misteriosa do Novo Coronavírus.

Não fosse a realidade cada vez mais assustadora saindo diariamente de todas as nossas telas e a ida precoce de uma amiga querida que lutou com força emocionante e inspiradora, mas não resistiu a um câncer no final de março, as primeiras semanas de isolamento teriam sido pura alegria e descobertas.

Jamais, na minha vida adulta, fui senhora absoluta do meu tempo. Do nosso novo tempo. Os primeiros dias e noites somente ao meu lado e da minha filha de 14 anos foram diferentes de tudo o que já vivemos. 

Criamos naturalmente uma rotina diária (antes tarde do que nunca, né Carlos Mânica?). Organizei horários para ler, escrever, tomar pelo menos uma hora de sol por dia, até manchar minha pele fazendo limonada. 

Iniciei pequenos rituais de meditação, acendi velas e dediquei fé e oração aos que estão precisando de mais saúde, paz e contentamento do que eu. Tenho amigas sofrendo e nunca deixei de pensar nas milhares de pessoas do mundo inteiro que estão lutando pela própria sobrevivência e dos seus. Desesperados para colocar comida no prato dos filhos, pela vaga no SUS, ou sozinhos à beira dos caixões. 

Ainda está nos meus planos remexer e organizar fotos antigas, dar um gás na minha eterna limpa de roupas e cacarecos, me atracar na papelada, descobrir como tirar o pó da casa sem ter ataque de rinite, aprender direito a limpar banheiros, passar roupa e fazer arroz. 

Continuar escolhendo maçãs mascarada no supermercado. Seguir pensando com calma na minha vida e espalhando para mais pessoas os meus pensamentos e as minhas palavras, e também algo que há alguns anos está me transformando em uma pessoa melhor: o yoga. Sem pausa, sem pressa. 

Valorizar ainda mais os abraços, a liberdade, as refeições e noites gostosas e divertidas, os olhares, as bagunças, os cheiros, as respirações, as catarses, as trocas, as pessoas TODAS, suas emoções, dores e histórias. 

Queria escrever com leveza e tentar até tirar algum humor das situações da quarentena e da minha inaptidão para dobrar lençóis sem pontas (aqueles de elástico, grrr), gravar áudios objetivos, não misturar os assuntos, valorizar as pausas e os espaços imensos e férteis que têm o silêncio. Mas antes de entrar na reta final desse texto, eu pifei. 

Perdi o fio da meada, esqueci onde eu queria chegar no dia em que iniciei essa crônica há uma semana. Desvio de rota. Acontece muito comigo. Entrei na TPM, comecei a chorar sem motivo (sem motivo?). Abri a jaula das minhas compulsões todas ao mesmo tempo. Senti medo, de tudo e de todos. Principalmente da fera mais perigosa: eu. 

Brigando internamente com a desordem desconcertante dos meus pensamentos: egoístas, apegados, padronizados, miúdos, antigos e mesquinhos. Quanto mais esse emaranhado de sensações ruins me invadia (Sou eu mesma esssa pessoa rançosa e fraca?!), mais eu espirrava. Choradeira, nariz assando, hormônios pulando, coração apertado. Ansiedade? Tristeza? Vazio? Medo? Eu? Imagina o povo amontoado dentro de casa, doente e sem dinheiro…. Fica em casa. Choraminga para a mãe!

“Vai faxinar! Quem tem carência é plano de saúde, Mariana!!!!!” 

Entope os chakras de noite, desentope os chakras de dia. Espirra, inspira, expira, eu só conseguindo ativar o modo “pira”. 

Mais choro, mais fome, mais sede, mais raiva, mais culpa. Mente perturbada, postura dramática, comunicação confusa. Uma fraquejada legítima, diria com toda a razão, ao me ver nesse estado deplorável, o nosso presidente. 

A vulnerabilidade atiça e seduz o medo. O medo intimida a esperança. Nos embaralha como cartas para o jogo começar de novo. 

A cada nova partida é a hora da primeira estrela. Ela aparece quase todos os dias, basta que estejamos dispostos e com o nosso “novo tempo” para enxergá-la. Quando o sol debruça-se novamente diante das nossas janelas.  Então reagimos, porque também somos nossa primeira estrela e únicos protagonistas da cena particular que é existir.

Resistir. Todos os dias. Um de cada vez. Como os ciclos. Da menstruação. Da vida. Das relações. Da natureza. Da política. Dos vírus. Todos passam. E voltam. 

Recolha consciente. Expanda consciência. Não é mais uma questão de escolha, não sobrou nenhuma outra alternativa correta e possível como nas provas on-line que nossos filhos têm feito. Aproveite a pandemia para se autoestudar. Não há nada mais bonito, dolorido e eficiente. 

Com amor e saudades,
Andiamo

Por Mariana Bertolucci

    1. Ana says:

      Excelente texto, a convivência diária com o nosso eu não é nada fácil, por vezes não nos reconhecemos, mas sempre temos outro dia para seguir olhando para dentro e para frente! Obrigada por essa crônica tão vida real! 🙏🏻

  1. Fernando says:

    Mari, retrataste de maneira maneira perfeita oq estamos passando. Me alivia ver que estou bem dentro da “ normalidade “. Agora, cada dia uma vida nova com paz espiritual, orações, yoga, devorando chocolates … vamos tocando e nos apegando ao q antes era banal, como a primeira estrala, cor do céu …. ;))

  2. Maria Alice Marques Ripoll Macedo says:

    Gostei muito da tua crônica Mariana. Expressou todas as emoções e percalços que estamos atravessando neste momento viral. Bjs!

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