vidrinhos vazios - crônica mariana bertolucci

Sabe aqueles vidrinhos com óleo para usar nos aromatizadores elétricos que perfumam o ambiente? Eu tenho três desses. Adoro lavanda e capim limão, e me habituei a ligar em algum momento do dia esse cheirinho na minha sala, especialmente na hora de praticar yoga. 

No primeiro mês de isolamento, todos os dias, eu pegava um deles e pingava umas gotas no aromatizador e, em instantes, um ar gostoso se espalhava pela sala. Os dias foram passando e as gotas de óleo que caiam de cada um dos vidrinhos eram cada vez mais espaçadas e raras.

Repetir aquilo todos os dias já andava me incomodando, pois cada vez eu perdia mais tempo para pingar a quantidade de gotas necessárias para que o óleo se transformasse na sensação que agradava o meu olfato. 

No dia seguinte, repetia o ritual, ainda mais impaciente, virando vidrinho por vidrinho. Um deles parecia nitidamente já não ter mais nada, mas eu insistia. Repetindo todos os dias a mesma ação, sem nem saber ou pensar muito bem no porquê disso. Abria os três, virava um por um, sacudindo, quando eu via, já estava emborcando e batendo cada um deles no aromatizador para acelerar o processo.

Seguimos assim vários dias, meses. Eu, o aromatizador e os três vidrinhos e a minha irritação habitual e crescente a cada tentativa de tirar óleo dos vidros vazios. A essas alturas eu já misturava os três líquidos de qualquer jeito. Nem sabia mais que cheiro tinham, ou se estava de fato gostando ainda daqueles cheiros ou apenas apegada ao hábito de ficar todos os dias nessa bateção de vidrinhos que só me deixava cada dia mais atacada.

Os meses passaram. O tempo engoliu os dias, arrastou as noites. Trocou os horários e suspendeu as perspectivas. Varreu empregos, projetos e adiou sonhos. Já levou consigo quase 89 mil vidas. Por aqui, na nossa bolha, andei repetindo a mesma rotina com os vidrinhos, as notícias, a louça, os cursos online, as práticas, as tarefas da casa, da família e do trabalho.

Nas últimas investidas que fiz de tirar óleo dos vidros, já tinha certeza absoluta de que todos tinham chegado ao fim, mas não conseguia resistir. Nem desistir. Tornou-se quase uma compulsão. Algo mais forte do que eu. Automático, mecânico, insistente. Quase doentio.

Antes de dispensar o trio de vidrinhos e substituí-los, eu sorri para o três e pensei:

“Antes da excursão de vocês para o lixo seco, vão ficar aqui nessas cadeiras bonitinhos até que eu escreva sobre os três.”

Como esse dia chegou, vou encerrar fazendo algo que amo: perguntas para mim e para vocês.

Será que todos nós não temos inúmeros vidrinhos internos que já estão totalmente ocos, sem nada que possa somar ou contribuir com nosso bem estar? Será que, às vezes, em nossas vidas, não ficamos insistindo tirar gotas inexistentes de vidros vazios? Apegados e presos a velhos formatos de trabalho e relações. Reféns de gestos iguais, de falas comuns, de reações previsíveis.

Como anda o seu vidrinho da alegria, da criatividade e do prazer? Estamos conseguindo ter momentos leves, criativos e felizes mesmo trancados em nossas casas confortáveis e quentes ou é preciso apostar em novas essências urgentes para se divertir mais e valorizar o que já possuímos?

E nossas gotas de amor incondicional? Há que renová-las de outros cheiros e sabores para sermos mais amorosos e produtivos conosco e com os outros? Ah, se eu desconfio que eles se escondem cheios, potentes e virtuosos no fim do arco-íris que nem história em quadrinhos? Não me levem muito à sério, não, mas tenho meus motivos cósmicos para dizer que sim. Juro para vocês, acredito de verdade que sim. E você? Já conversou com seus vidrinhos hoje?

Por Mariana Bertolucci

  1. Alcimir Richter says:

    Muito bom querida! Linda reflexão 🙏🙏🙏👏👏👏. Eu guardaria os três para lembrar que mesmo vazios nossos vidrinhos guardam lembranças. Tipo destas que ficarão impregnadas em nós como a essência deles para nos lembrar destes tempos bicudos, mas que tiramos grande ensinamentos. Grande beijo. Te amo

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