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Tem coisas que o dinheiro não compra

Tem coisas que o dinheiro não compra

Outro dia um amigo me convidou para assistir um painel que ele iria participar a convite do Sebrae/RS. O evento era para jovens empreendedores e o meu amigo foi contar um pouco da sua trajetória como empreendedor.

O encontro foi na vila Bom Jesus, em Porto Alegre, nas instalações de uma usina de reciclagem, numa quadra esportiva. Rafa veio me buscar em casa e fomos juntos. No caminho, buscamos o Matheus. Matheus tem 16 anos e é empreendedor. Está cursando o Ensino Médio e atualmente mora com a avó e os primos.

Pensa numa pessoa style, é o Matheus. Além de estiloso, ele é um amor, inteligente, tem voz de locutor e parece que nasceu pronto para ser um comunicador.

Só parece, porque sabemos que ninguém nasce pronto, nos construímos ao longo da vida e não foi diferente com o Matheus, com o Rafa, a Joana e muitos jovens que estavam lá dividindo com uma galera na plateia suas histórias inspiradoras, como a da Joana- uma menina de 16 anos que falou sobre o Projeto Garotas de Vermelho, um projeto potente e importante que ensina outras meninas sobre educação menstrual.

Na volta, quando entramos no carro, Rafa e eu cumprimentamos o Matheus pela sua participação, ele estava emocionado, e uma das primeiras coisas que nos disse foi:

“Não vejo a hora de chegar em casa e contar tudo para a minha vó.”

Criei meus filhos em uma realidade muito diferente da das pessoas que encontrei naquele lugar. Voltei para casa observando, aprendendo e pensando em tantas coisas que, muitas vezes, passam despercebidas para quem vive em outra bolha.

Para o Matheus, o sucesso da sua participação estava completo no momento que ele fosse contar para a sua vó. O caminho de volta foi longo, conversamos mais. Ele contou sobre o seu trabalho, novos clientes, ouviu o mestre, no caso, o Rafa, que aconselhava, ou melhor, dirigia e dava mentoria para o aluno. Eu ouvia, aprendia com os dois. Entre escuta e observação, me dei conta do quanto o Matheus precisa caminhar para chegar na casa da sua vó, muitas vezes à noite, sozinho. Perguntei se ele não tinha medo: “Olha, Valesca, medo todo mundo tem, né? Mas eu sei me defender. Outro dia, indo para casa, cruzei para atalhar no meio de um campo de futebol e tinha uma galera jogando bola. Um cara gritou que campo de futebol não era lugar para mulher. Fingi que não ouvi. Outro falou: ´mulher com gosto de mulher, não essa aí´. Daí não aguentei, me virei e gritei. Eu sou mais homem que todos vocês aí juntos e virei as costas e segui meu caminho.”

Quanta coisa que eu aprendi com esse jovem de 16 anos numa manhã de sábado.

Obrigada, Rafa, por tanto.

Valesca Karsten

Educadora, fundadora e diretora da Escola de Educação Infantil Caracol, em Porto Alegre. Curadora de arte para a infância e realizadora do podcast PodeMãe. @valesca.karsten

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