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Santiago da Compostela: a jornada e superação de Andrea Prestes

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O que leva alguém, em pleno século XXI, a empreender uma viagem como o Caminho de Santiago de Compostela por três vezes? Curiosidade? Inquietação? Desejo de mudança? Espiritualidade? Busca de si mesmo?

A jornalista e fotógrafa Andrea Prestes resumiu seus motivos numa expressão que talvez explique: formatar o HD pessoal. Aos 41 anos, essa moça corajosa, empreendedora e determinada encontrou uma nova direção para sua vida profissional ao retornar de sua primeira viagem, trazendo na bagagem 5 mil fotos que acabaram fornecendo material para seu novo trabalho.

Desde o século IX, peregrinos de todos os cantos da Europa partem em direção a Santiago de Compostela, que guarda os restos mortais de São Tiago, discípulo de Jesus — uma caminhada repleta de fé, superação, desafios e autoconhecimento. Por isso é que existem vários Caminhos de Santiago, com diferentes pontos de partida e itinerários.

O auge das peregrinações ocorreu entre os séculos XII e XIII. A partir do século XVII a rota foi praticamente abandonada, sendo retomada a partir do século XX. Hoje, cerca de 200 mil peregrinos cruzam os caminhos pelo norte da Espanha para chegar até o local sagrado, a Catedral de Santiago de Compostela.

Em 2014, com 38 anos, Andrea pegou seus mapas, mochila, tênis, dois bastões, algumas roupas e seu celular e partiu para a peregrinação. De lá para cá, foram vários caminhos por Portugal, Espanha e França, que resultaram em dois livros fotográficos que registram detalhes de suas viagens e uma experiência renovadora para o espírito dessa moça nascida em Passo Fundo, formada em jornalismo pela UFRGS, que já trabalhou em jornalismo comunitário até partir para suas descobertas. O fato de ter lido Paulo Coelho na adolescência serviu de conhecimento da história do percurso, mas foi a conversa com amigos que fizeram a peregrinação, falando sobre o assunto com paixão, que fez renascer nela a vontade de se aventurar.

“Fiz um trabalho de freelancer no valor exato da viagem e, em poucos meses, eu fui para o caminho francês, que é a rota mais tradicional. Partindo da fronteira da França, em Saint Jean Pied Du Port, são 800 km até Santiago de Compostela. Fiz o caminho em 38 dias, parei para conhecer três cidades, caminhando 35 dias com uma média de vinte quilômetros por dia.”

Mas o que se deve levar na bagagem para uma empreitada como essa, que é basicamente uma caminhada diária, com pernoites em albergues, refeições comunitárias, percursos sob as mais diversas temperaturas, terrenos planos, pedregosos, entre montanhas, praias ou simplesmente barro? Que peso se deve carregar?

“Entre roupas, comida, água e remédios o ideal é carregar 10% do peso corporal do peregrino. Isso é o limite para não forçar demais o corpo. Caminhar todos os dias 20, 25 quilômetros é a rotina. A mochila deve conter duas garrafas de água, que vão sendo reabastecidas ao longo do caminho, em fontes, em estalagens. Uma ou duas mudas de roupa, uma fruta, algo para comer, um chocolate, umas castanhas. É a arte de praticar o desapego”, confessa naturalmente. “Quando se fala em Caminho de Santiago, se pensa em algo religioso, mas hoje isso mudou. As pessoas buscam uma energia. Tem muito mais espiritualidade, uma maneira mais ampla de ver a vida, e muita gente que vai pelo desafio físico, numa tentativa de superação, acaba se sensibilizando por estar mais aberta, em conexão com a natureza, praticando a solidariedade, a preocupação com o outro. Uma família na prática.”

Andrea fez três viagens para o Caminho de Santiago, mas a segunda e a terceira foram dois caminhos de cada vez.

“Em três idas ao Caminho de Santiago, eu fiz cinco caminhos, porque são rotas diferentes. Há o caminho francês, que começa na fronteira com a França, com 800 km até Santiago. Em 2016, eu fui até Portugal, que tem o caminho português central, que foi o que eu fiz: saindo do Porto, atravessa a fronteira da Espanha e chega a Santiago. Quando a gente chega a Santiago, ganha-se o certificado de conclusão da peregrinação com um mínimo de 100 quilômetros comprovados através de carimbos, que se vai recebendo numa credencial de peregrino. Inclusive, esse certificado se pode fazer em nome de outra pessoa, em homenagem a alguém ou uma instituição.”

O pernoite nos albergues é outra das características do caminho. Há os públicos, do município ou da província, os paroquiais e os privados. Cada um paga o que acha que tem que pagar. Algumas pessoas abrem suas casas cobrando entre 5 e 20 euros.

“Mas tem quartos que têm umas trinta pessoas dormindo em beliches. Eu recomendo tampão de ouvidos e aquelas máscaras para os olhos. É um exercício de tolerância. Tem um lado muito legal, que é a convivência com essas pessoas”.

Andrea salienta ainda que muitas mulheres percorrem o caminho sozinhas, sendo sempre bom caminhar com algum peregrino à vista. É recomendado ter sempre alguém por perto e não caminhar antes do amanhecer.

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“Qualquer problema tem alguém que te socorre.”

Percorrer as páginas dos livros de Andrea é viajar junto com ela por caminhos seculares que, muito mais do que uma profissão de fé, tornaram-se uma forma de se reconectar consigo mesmo, com a natureza e o universo. Uma caminhada que simboliza uma espécie de renascimento, marcado pela purificação, autoconhecimento e desapego.

Por Ivan Mattos

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