Rui Spohr - Felipe Vieira

Foto de capa: Felipe Vieira

Na semana do falecimento do ícone da moda gaúcha Rui Spohr, decidimos relembrar a supermatéria que fizemos com o estilista em 2016, quando foi capa da Revista Bá #19. À família nossos sentimentos, e a você, Rui, nossa gratidão eterna.

Convidamos você, caro leitor, a revisitar essa entrevista conosco!

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Fotos de Ricardo Lage

Primeiro brasileiro a estudar moda em Paris, em 1951, Rui Spohr casou-se com Dóris Uhr Spohr em 1960, e os dois juntos iniciaram a bonita história de uma das maiores marcas de alta-costura do Brasil. Em 1963, nasceu Maria Paula Spohr, única filha do casal, que em 1985 os presenteou com Antônia Spohr Moro, a única neta.

“Não é um desespero de tempo?”, me responde perguntando Rui depois de eu falar sobre os 60 anos de carreira. Respondi encantada por aquele belo senhor me encarando: “não é desespero, Rui. É uma dádiva te ouvir”.

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Batizado em 1929, Flavio Hennemann Spohr, um dos quatro filhos da tradicional família de Novo Hamburgo, era um menino sério de rotina tranquila na cidade de colonização alemã. Começou a trabalhar como modelista de calçados na fábrica do pai. A dinâmica mecânica de fábrica não era o que ele estava buscando. Como boa parte dos jovens da sua idade, ele não sabia exatamente o que queria. Sabia o que não queria.

Foi quando apareceu um curso de corte e costura em NH. Todas as meninas se inscreveram e o filho do seu Albino Alfredo e da dona Maria Hortencia também queria se inscrever: “Foi um escândalo. Meu pai me olhou e disse: ‘Só se tu pagar do teu salário mínimo, porque não vou te dar dinheiro’. Era um uruguaio ou argentino vigarista e não aprendi nada. Mas economizei. E fiz”.

Depois de ver ao vivo em Buenos Aires a marcante Evita Perón vestindo Christian Dior em um comício, sentiu que o enigma do futuro estava prestes a ser revelado. Despertava ali um dos grandes criadores de alta-costura da história da moda brasileira e o maior nome da moda do sul do Brasil. O único ainda em atividade, aos 87 anos de vida e seis décadas de trabalho.

De volta a 1951, Rui já era morador de Porto Alegre, trabalhava no Citibank e cursava Belas Artes. Mas também não era bem isso o que queria. Pediu demissão, juntou economias com a família e no final de julho embarcou na segunda classe de um transatlântico, cruzou o oceano e, depois de 11 dias, estava sozinho na França, aos 21 anos. Foi o primeiro gaúcho a estudar moda em Paris. Antes na Chambre Syndicale de la Couture Parisienne, e depois na École Guerre Lavigne (atual Esmod).

Ávido de mundo, numa Paris boêmia e incensada pelos pensamentos de liberdade, na Cidade Luz fez amigos de todo o mundo, inclusive do seu Rio Grande do Sul. Viu Yves Saint Laurent e Karl Lagerfeld darem seus primeiros passos no mundo da moda. No palco, Josephine Baker e outras cantoras famosas da época. Conheceu boates que surgiam às pencas nas caves parisienses. Aprendeu francês, a beber vinho tinto e champanhe, a vestir preto e apreciar ópera, música e literatura. Conheceu boa parte da Europa e, como estágio final, trabalhou com o maior chapeleiro da França, Jean Barthe, que lhe ensinou tudo sobre a arte de fazer chapéus. Recém-formado, desembarcou no Salgado Filho para ser chapeleiro em Porto Alegre, em 1954, pouco tempo depois da morte de Getúlio Vargas.

Nos anos seguintes, fez os primeiros desfiles e conheceu Dóris, a mulher com quem divide os sonhos, a família, a rotina e a carreira há igualmente seis décadas: “Vimos tudo acontecer, a Bossa Nova nascer, a Rhodia crescer e acabar, a moeda dar mil voltas, a destruição da guerra. Em todos esses anos, ele sempre esteve na ativa. Um dos raros no Estado e no país. Se eu sobreviver a ele, e depois quiserem fazer homenagens, não aceitarei. Agora é a hora. Enquanto a cabeça dele está boa e eu com saúde”, conta Dóris, do alto dos seus 79 dinâmicos anos.

Se na cabeça é difícil armazenar tanta memória, esse problema não há no impressionante acervo organizado por ela desde o primeiro desenho que o marido  fez, ainda criança. Cada história da dupla com a moda tem pasta catalogada, nome, sobrenome, ano, croqui, dados de confecção, tecidos. Vestidos usados por primeiras-damas, misses, cantoras e outras tantas personalidades estão devidamente registrados, assim como as formas dos chapéus, máquinas de costura, moldes, tesouras, tecidos e uma imensidão de revistas de moda. De fascículos franceses de 1890 à coleção da Vogue França desde a década de 1960 até os dias de hoje.

Em 1997, lançou a biografia Memórias Alinhavadas, escrita com a jornalista Beatriz Viégas-Faria. Em 2015, foi a vez da coleção Cápsula Croquis, com lenços e camisetas estampadas com os croquis. Ano em que também foi lançado o livro Moda e Estilo para Colorir, com 20 lâminas de desenhos icônicos de Rui para pintar. Gratidão é um sentimento simples e nobre. Rui é inundado dele, como você perceberá na entrevista a seguir. Ele é grato a muitos que lhe deram as mãos nessa longa e elegante jornada. A jornalista e assessora de imprensa Rejane Martins é uma dessas pessoas: “Para mim, ela é uma mãe. Tudo, tudo ela resolve. É fantástica”.

Já estudado academicamente como uma referência, foi o único estilista gaúcho a fazer parte da mostra 500 Anos de Design Brasileiro, em cartaz em 2000, na Pinacoteca de São Paulo. Entre 2004 e 2005, quando o Senac apresentou a exposição Estilistas Brasileiros – Uma História de Moda, nosso Rui também estava entre os 34 grandes da moda brasileira. Em 2011, um vestido seu integrou a exposição Moda no Brasil: Criadores Contemporâneos e Memórias, apresentada no Museu de Arte Brasileira em São Paulo, mantido pela Fundação Armando Alvares Penteado.

Estudiosos e curadores da moda sabem o valor de Rui. Segundo Dóris, ele próprio às vezes esquece. Como, por exemplo, quando fala sobre o Instituto Rui Spohr, que deve ter suas formas já bem definidas em 2017: “Não gosto muito dessa coisa de instituto. Será que sou tão importante assim?”. Eu e Dóris nos olhamos e rimos.

Ela me conta que levou a neta, Antônia, para visitar o acervo do avô. E qual a surpresa? “Ela ficou louca. Profissionalizou tudo que eu já tinha organizado e com estagiários quantificou tudo, em cada pasta estão descritos todos os detalhes. A ideia é transformar esses guardados em instituto e museu. Dois projetos paralelos que se completarão”, explica a super-Dóris, que agora conta com a ajuda mais do que especial da neta para transformar esse sonho de 60 anos em realidade e patrimônio cultural do país.

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Revista Bá: Fala um pouco de como tudo começou?

Rui Spohr: Pelos 12, 13 anos, eu queria trabalhar com algo, mas não sabia o quê. Algo criativo, com desenho, ou arquitetura. Eu era uma criança que queria ser adulto e não tinha gancho. Eu estava no ar. Passei pela fábrica de sapatos do meu pai e não era para mim. Fiz um curso de perito contador. Era uma época em que os formandos pediam ajuda nas empresas para viajar na formatura. Foi a primeira vez que entrei no mundo fantástico que era Buenos Aires naquela época. De repente, vimos uma corrida de gente e as pessoas dizendo “comício, comício”. Éramos uns três, quatro e fomos ao comício em que Evita ia aparecer. De repente, vem aquela mulher vestindo tule branco, flores, chapéu deste tamanho. Uma verdadeira vedete. E eu olhava e pensava: “É com isso que eu quero trabalhar”. Me agarrei naquele gancho e só pensava: “É isso o que eu quero”. “Mas o que é isso?”, eu também me perguntava, sem saber responder. Essas flores, esse tecido, essas coisas eu estou procurando há muito tempo. Perguntei, acho que para um professor que nos acompanhava: “Mas o que é isso, esse conjunto?”. Ele me disse: “Isso é moda. Pessoas que fazem roupa e criam coleções”. Saí tonto dali.

Revista Bá: Sofreste preconceito naquela época, em Novo Hamburgo, uma cidade pequena e de colonização alemã, com esse interesse pela moda? Como é que um cara aos 16 anos no final dos anos 1940 saía com um bloquinho na mão com desenhos de vestidos?

Rui: Sofri todo tipo de preconceito, da família, dos amigos, até da igreja. Em um domingo de manhã, o padre falou nos sermões das missas das 6h, das 7h, das 8h e das 10h sobre uma família que vivia em pecado e que não sabia como os pais tinham coragem de tomar a comunhão, pois quem tinha um filho como o deles jamais deveria entrar em uma igreja. Como o meu pai era importante na comunidade, a família se reuniu para falar sobre o assunto e meu tio mais velho convocou o padre até a nossa casa. Ele pediu desculpas e colocou a culpa em gente simples, que teria feito fofoca para ele. Minha mãe citou uma parte da Bíblia em que foi destruído um travesseiro de penas, espalhando tudo para todo lado, e completou dizendo que se ele conseguisse, como na história bíblica, juntar todas as penas que tinha espalhado, só assim ela o perdoaria. Isso foi antes de ir a Paris.

Revista Bá: Como foi chegar a Paris aos 21 anos?

Rui: Era outubro, frio, 6h da manhã. Eu parado na estação de Montparnasse, com uma mala numa mão, uma sacola na outra e Paris na frente. Uma mistura muito grande de alegria e coragem. Respirei fundo e saí na chuva. Olhei o endereço que eu tinha para ir e estava escrito Montparnasse. Era na própria rua onde eu desembarquei. Achei uma coincidência. Acordei no outro dia e escrevi uma carta para minha mãe contando da viagem. Naquele tempo, levava 15 dias para chegar uma carta ao Brasil. Tu vês como a gente é velho. Nem telefone tinha. Em poucos dias, por sorte, acabei em contato com um gaúcho de Flores da Cunha, Flavio Zanatta, e o também brasileiro Dirceu di Pasca. Quando eu disse para o primeiro que queria aprender moda, ele me respondeu: “Isso não existe”. E eu devolvi: “Como não existe? Os grandes costureiros são daqui”. Já o segundo, que era mais intelectualizado, comentou ao saber do meu interesse: “Mas que interessante que tu venhas lá do sul do país interessado em uma coisa que mal começou aqui. Vou te ajudar”. Mudei para o hotel dele, que era mais barato, e 48 horas depois de chegar assustado em Paris já estava em um hotel, protegido por amigos e inscrito na escola de moda. Era aquela sensação de “eu quero, eu quero, I will, mas será que um dia vou dizer I got it?”.

Revista Bá: Fala um pouco desse tempo…

Rui: Já falava espanhol e alemão, aprendi francês. Terminei o curso fazendo estágio com o maior chapeleiro de Paris, o Jean Barthe. Tinha uma turma muito boa de amigos, três rapazes e três moças. Todos de preto, nos reuníamos no meu quarto de 1m80cm por 2m e juntávamos o dinheiro que tínhamos para ir à boate. Sempre existiu a moda, mas nessa época ainda não era respeitada como ofício. Era o auge de Paris. A turma acabou indo cada um para um lado. A despedida foi no Carnaval de 1954, na Alemanha, e depois disso cada um foi para o seu lugar.

Revista Bá: E a volta para o Brasil?

Rui: Pensei assim: “Tem muita gente boa aqui (em Paris). Vai ser difícil achar meu lugar”. E lembrei daquela frase: “Em terra de cego, quem tem um olho é rei. Vou voltar”. Meus amigos foram para os seus países e fiquei só de novo. Mas daí já tinha feito muitos amigos, como, por exemplo, o José Bonetti Pinto, que hoje é um senhor de 92 anos. Uma pessoa encantadora. Meu grande amigão até hoje, professor de economia na Ufrgs.

Revista Bá: E como nasceu o Rui, Flavio?

Rui: Um amigo era diretor do Jornal NH e era um cara muito aberto. Depois do rebuliço da igreja, ele me convidou para escrever no jornal. Claro que aceitei, mas disse que ninguém poderia saber, pois iam cair de novo em cima de mim. Passei a assinar somente Rui nessa coluna. As pessoas agrediam mais ainda, e o codinome me protegia. Naquele tempo, era um preconceito velado. Era pederasta, não existia o termo gay, veado.

Revista Bá: Como foi sofrer essas agressões ainda tão jovem?

Rui: Sempre tive o apoio de um casal de tios, pessoas muito abertas. Mais que os meus pais. Me ajudaram e me emprestaram dinheiro para ir atrás do meu sonho. Na volta para o Brasil de Paris, foi um pouco mais fácil. Até porque vim para Porto Alegre.

Revista Bá: E a chegada à capital gaúcha, como foi?

Rui: Cheguei de navio a Porto Alegre, e agora o que eu ia fazer? Trouxe uns chapéus de liquidação do Jacques Fath e Christian Dior. Precisava começar a trabalhar e fui vender chapéus. O meu primeiro desfile foi no Edifício Nice, em um quarto e sala. Estavam todos meio apertados pelo corredor. As parentes vieram de Novo Hamburgo para não ficar vazio. Após o desfile, como faziam em Paris, onde se servia champanhe, eu não queria ficar atrás, e servi vermute, em uns copinhos que catei na família inteira. Fiz uma releitura de Paris (risos). Dali, fui adiante. Quando voltei da Europa, eu logo fiz sucesso. Era o início da crônica social, com Ligia Nunes, Gilda Marinho, Luiz Carlos Lisboa, o Gasparotto veio depois. Logo saíram reportagens de páginas inteiras e fiquei conhecido.

Revista Bá: Como foi tão rápido?

Rui: Eu tinha três coisas  que me ajudaram muito a ser tão bem recebido aqui de volta na minha terra. Eu era jovem, falava francês e era bonito. Depois desse desfile do vermute, fiz muitos chapéus. Havia muitas boas modelistas, mas chapeleiros só tinha eu e uma outra muito talentosa. Ainda assim, era uma época em que tinha muita encomenda e não estava dando conta. Precisava de alguém para me ajudar. De repente, lá por 1956, a Gilda Marinho colocou na coluna dela: “Não se usam mais chapéus. Só de toilette, para festas finas”.

Revista Bá: Foi aí que essa história chamada Rui Spohr tomou forma?

Rui: Sim. Uma senhora amiga da mãe da Dóris me indicou a Dóris. Ela veio falar comigo com um vestido que ela mesma fez, bem simplesinho e bem cortado. Gostava muito de moda e precisava ajudar em casa. O vestido está aí ainda. Chegou bem nervosa, o vestido era cor de ponche, e ela esperava encontrar um alemão corpulento e loiro. Quando eu entrei vestindo pulôver preto, cabelo e óculos pretos, bem existencialista — era um visual chocante para a época —, ela disse que levou um susto. Eu logo gostei dela e perguntei se ela queria aprender a fazer chapéus. Ela disse que sim. E eu: “Então tu vais ser minha secretária, mas eu não vou te pagar porque não tenho dinheiro”.

Assim começou, ela organizava tudo. Um dia nos olhamos e dissemos um para o outro: “O que estamos esperando?”. Casamos em 1960. Era para ser um ano antes, mas faltou dinheiro. Fiz o vestido dela. Ela diz que gostava antes de mim e que eu não me manifestava. O vestido também existe.

Revista Bá: Como é essa parceria de vida, trabalho, amor e família? Já disseste muitas vezes que nada seria possível sem ela.

Rui: O Ronaldo Fraga, que é amigo da Dóris, diz que atrás de um grande homem sempre há uma mulher… cansada. E ela é o suprassumo de trabalho, tem uma resistência. Agora está se agilizando na política com o sindicato do vestuário e etc. Eu não vou durar muito, mas acho que ela continua nessa história de Instituto Rui.

Revista Bá: Tens um sonho de deixar teu acervo e história todo organizado para educação e formação sobre moda?

Rui: A Dóris está se reunindo com uma série de políticos, diretores e órgãos como a Fiergs para esse fim. Além disso, os mais jovens se aconselham com ela. Ela dá força para as pessoas. E repete que nós também estamos na rua e temos dificuldades. Não é porque eu sou famoso e saio nos jornais que o dinheiro cai do céu. O nosso dinheiro ficou ruim também. Eu passei 60 anos de trabalho e nunca tive página em branco na agenda, neste ano eu tive. Eu cansei de começar do zero, e isso acontece com todo mundo. Não estamos devendo nada para ninguém. Aí a gente vê quem são as amigas e as clientes fiéis que acreditam no nosso trabalho. Ela catalogou os desenhos do primeiro desfile que eu fiz. Talvez por ter sido difícil o meu início, tenho respeito e dou força para quem está começando. Recebo aqui. Sinto prazer de incentivar. Eu sofri boicote da dona Mary Steigleder. Meu acervo está aí para fazer uma grande escola, um grande museu que minha mulher está se virando para organizar.

Revista Bá? Como essa organização toda, Dóris?

Dóris Spohr: As coisas tinham que ser guardadas. Olha esse, por exemplo (e me mostra o primeiro desenho de Rui). Esse aqui, de quando ele trabalhava na fábrica do pai em Novo Hamburgo. Como é que eu vou colocar fora isso?

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Revista Bá: Dóris, como é o Rui pai da Maria Paula e avô da Antônia?

Dóris: A Maria Paula é de formação agrônoma. O Rui dizia “Minha filha, fazenda só tenho a metro”, mas ela adorava. Quando ela se formou, a Antônia era bebê. Aí o Ricardo, que era cirurgião plástico, foi convidado para trabalhar em uma clínica em Roma. Eles se mudaram para lá e ela perdeu o gancho da agronomia. O casamento terminou e ela voltou falando italiano, trabalhou com cidadania italiana, e convivendo com os advogados decidiu fazer Direito e se formou aos 50 anos.

Rui: Minha mulher é bacana, mas minha filha é maravilhosa.

Dóris: Cheguei aqui e já costurava a minha roupa. Essa coisa já me fascinava. Isso já me encantava. Naquela época, as mulheres terminavam o ginásio e tinham que se casar, e não trabalhar. Uma Themis Reverbel era uma em mil naquela época. Me arrumei toda e fui. A amiga da minha mãe ainda: “Tu vais bem arrumadinha, que um dia tu podes casar com ele”. Eu pensei: “Ela tá louca”. Mas me arrumei, em todo caso. Estava esperando um alemão, loiro, grande. Aí vem aquele cara magrinho todo existencialista, de preto. Isso não existia por aqui, só em fotos e reportagens da Revista Cruzeiro. De óculos pretos, cabelos bem pretos e me disse: “Tu sabes fazer chapéu?”. Levou um ano sem me pagar um tostão. Meu pai dizia: “Minha filha, pelo menos a passagem do bonde”. Em 1958, noivamos, era para casar em 1959, acabamos sem dinheiro e nos casamos em 1960. Pintamos nosso apartamento e começamos nossa vida.

Revista Bá: Conta um pouco sobre essa época?

Dóris: Eu brinco que quem está nesse meio é picado pela mosquinha azul. Sempre realizei as ideias dele. De acordo com o que ele aprendeu, as informações que trouxe de Paris, nós criamos o nosso método, depois com as costureiras e alfaiates. E fomos juntos aprendendo, aprendendo. Eu concretizava os sonhos dele. Criação não. Sempre fui uma realizadora dos projetos dele. Não sei como eu conseguia. Hoje, se eu olho as agendas velhas… Cortava cada peça. O trabalho que dava. Uma a uma. Quando nos casamos, éramos só eu e ele. A primeira roupa foi devolvida. Mas depois vieram as mulheres maravilhosas que acreditaram na gente: a Norinha Teixeira, sogra da Lelete Teixeira, as mulheres inteligentes e com visão se cercavam dele. Então elas contribuíam também, para desenvolver a ideia dele e até inspirá-lo. A Gladis Aranha, a Miriam Beck de Oliveira, entre muitas outras. Casamos no dia 4 de fevereiro de 1960.

Revista Bá: Como fazer aquela interferência para ajudar a mulher a se favorecer e não a ficar mais esquisita com uma roupa que não a ajuda?

Rui: As pessoas têm umas ideias que não têm nada a ver com elas. Às vezes, perdemos uma cliente porque sabemos que aquilo não vai funcionar. Não vai ajudar e ainda vai estragar. Não copio de revista. Tento conversar com elas. Tem que ser criativo, se não se acha uma renda, imita o bordado de renda. Ou se não acha aquele estampado bonito, tenho três moças que pintam tecido. O meu estilo de ver a moda tem continuidade, é atemporal. Se tu pegas um Christian Dior, não querendo me comparar, e um Rui, tu vais saber: isso é Christian Dior e isso é Rui. A maneira como burilamos a coisa deixa a cliente satisfeita. Isso nos trouxe bastante segurança porque somos muito honestos. Muito direitos. Antes de as senhoras acharem que aquilo não estava bom, nós já mudávamos.

Dóris: No ano passado fechou o último lanifício. O fim da indústria têxtil prejudicou muito. Entrou a China, na época do Collor ele abriu os portos e terminou com tudo. Nunca mais foi a mesma coisa.

Rui: Isso existe para o médico, para o jornalista, para os romancistas. O estilo de cada um está marcado. Lê uma parte do livro e se vê que é Erico Verissimo. Os jovens daqui fazem coisas maravilhosas que eu não sei como eles conseguem fazer sem ter esse know-how e essa vivência que tivemos.

Dóris: O mundo mudou muito. Pega o avião aqui e sai em Miami com as amigas numa farra e compra qualquer vestido. Perderam a noção, a educação, os valores, a civilidade. Não se respeitam mais as pessoas. As regras mudaram. O próprio casamento também se perdeu. O mais importante não é o amor, a celebração ou o sacramento. Bota o tomara que caia, faz a badalação, coloca o chinelinho de dedo. Não sei quantas mil lembrancinhas, coloquei esses tempos muita coisa fora. E penso em como gastam dinheiro.

Revista Bá: O que é importante em uma mulher?

Rui: Eu realmente ainda gosto de uma mulher elegante. Não importa com o que ela está vestida. Pode estar de pijama, camisola, saia justa ou vestido de gala. Vai estar sempre vestida dela mesma. O costureiro não vem para enfeitar a mulher. Ele vem para colocar a moldura. Valorizar o que ela já tem. Se ela chega aqui e não tem nada disso, a gente consegue entrar no mundo dela e descobrir juntos. Todo mundo tem algo interessante a revelar.

Revista Bá: O que te realiza?

Rui: É tão gratificante quando uma mulher se enxerga no espelho na terceira prova e os olhos brilham e ela deixa escapar um: “Como estou bonita”. Algo que sempre me chama a atenção e me marca ainda hoje é a elegância da Dóris.

Revista Bá: O que é o amor…  A Dóris é maravilhosa…

Rui: Ela agora não está tanto (risos), mas eu acho que ela tem essa coisa de quando senta, senta elegantemente. Mulher elegante é aquela que entra em um grupo e todo mundo se vira, para de falar e olha ela passar.

Dóris: Isso serve para homem também, personalidade, atitude, estilo e coragem.

Rui: Às vezes fico com pena de muitas pessoas, mulheres e senhoras de mais idade. Mulher elegante hoje é na faixa dos 50 anos, porque antes disso é raspa, fantasia. Não é mais vestido. As mulheres de 40, de 30, não querem deixar de usar as roupas de crianças, isso é ridículo.

Revista Bá: O que a maturidade te trouxe de belo? O que te alimenta hoje nesses anos todos que viveste?

Rui: Olhando para trás, eu faria tudo de novo. Sem arrependimentos. Então tem coisas que gostaria de ter feito, mas, se não fiz, não deviam ser tão importantes para mim. Somos muito benquistos em toda parte que vamos. Sem querer ser, mas a gente é. Há jovens curiosos comigo, me descobrindo agora. Fico feliz.

Dóris: Somos tão bem recebidos onde vamos, ele não aproveita porque ele fica meio encastelado. Talvez meio tímido. Ele gosta muito de transmitir o conhecimento. Com o Instituto, acho que será ótimo e ele vai gostar muito. Sobre a maturidade na mulher, acho que ela vai mais em busca. Sossega menos. A idade nos traz segurança e a possibilidade de chegar em todo mundo. Até os 50, é difícil se manifestar porque parece que tu estás querendo algo mais. Depois dos 50, tu não deves mais nada para ninguém, fala com o guri, com homem, com velho. Acho que é diferente essa visão do homem e da mulher. Para a mulher é mais fácil envelhecer. Ela tem mais possibilidades.

Revista Bá: Uma saudade…

Rui: Morar em Saint-Germain-des-Prés.

Revista Bá: Como manténs a disposição?

Rui: Adoro dormir.

Revista Bá: Tens medo de morrer?

Rui: Lamento que um dia eu não vá poder mais aproveitar as coisas de que eu gosto e ajudar as pessoas. Agora estou bolando uma coisa que a Dóris nem sabe. Queria dar um curso. A gente vê as crianças fazendo cada curso picareta.

Revista Bá: Uma peça-chave que uma mulher tem que ter?

Rui: Saia justa.

Por Mariana Bertolucci

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