malu-mader

Lembro do dia em que me chamaram no João XXIII, onde eu estudava: “Mariana tem ligação para ti na sala da coordenação”. No outro lado da linha, a voz da minha tia: “Mari, é a tia Aninha, vem correndo no café do teatro que ela vai almoçar aqui”

Voei até a sala de aula, recolhi minhas coisas e disse para o Moço, que era o apelido do professor de biologia, que precisava sair mais cedo. Em minutos, já estava sentada e esbaforida na lotação repetindo mentalmente meia dúzia de frases para me apresentar. Subindo trêmula a escada que leva para o segundo andar do teatro, onde ficava o restaurante, esqueci todas as frases que tinha decorado no trajeto. 

Eu tinha uns 15 e ela uns 22 anos. Dores de Amores era sua estreia profissional no teatro e eu já tinha meu ingresso bem perto do palco. Parei dura na frente deles (dela e do ator Taumaturgo Ferreira, parceiro de palco e namorado, na época) e despejei rápido e sem jeito: “Oi Malu, eu sou a Mariana, a minha tia trabalha aqui e ela sabe que eu te adoro e que o meu sonho era te conhecer, olha…” — eu disse para ela, mostrando o meu arquivo encapado com recortes de jornais e revistas com suas fotos. Ela me olhou sorrindo e disse: “Que fofa você, Mariana”

Eu tinha 10 anos quando ela apareceu pela primeira vez na novela Eu Prometo. Ligava a TV no meu quarto, com volume bem baixinho, amava ver as cenas da Dóris. Ela era a filha caçula e sapeca do protagonista, vivido por Francisco Cuoco. Bem naquela idade em que a gente vira fã de alguém, que passei a adorar a Malu Mader e achar o máximo o jeito natural que ela tinha de atuar e de viver. 

A Glorinha da Abolição foi a personagem que ganhou o coração da Mariana em ebulição. Riponga, sonhadora e atrevida, eu a imitava tudo, jeans, coletes, peles, couros, pulseiras, braceletes, colares e o cabelo desgrenhado. Sei que não sou a única. Malu Mader marcou a vida e a personalidade da nossa geração (graças a Deus, uma mulherada gente boa que anda por aí). 

A figura humana, o talento e a verdade da Malu, somados a expertise da Rede Globo e seus autores na dramaturgia, em especial do Gilberto Braga, que escreveu muitos personagens para a atriz, fizeram dela uma artista que despertou admiração e identificação em tanta gente. Isso se chama arte. Mas o que me fascinava ainda mais era a maneira como ela conduzia a vida pessoal. 

Crescemos, virei jornalista, mãe, segui acompanhando sua carreira. Pela imprensa soube dos problemas de saúde que enfrentou e vibrei feliz com cada uma das suas alegrias, o casamento com Tony Belloto (que casal!), os filhos crescendo, cada personagem novo, que parecia sempre cochichar algo bacana para mim naquele exato momento da vida. No jornal, tive a oportunidade de entrevistá-la pessoalmente. Outra musa em comum, a Martha Medeiros, nos apresentou nos bastidores de um show dos Titãs, no Pepsi on Stage. 

Em outra ocasião, fui vê-la em uma pré-estreia no Cine Bancários e tiramos uma foto. Tudo muito rápido. Sempre achei e sigo achando cafona a histeria teen (e também não-teen) de berrar, chorar, se esgualepar ou dormir na fila para ficar frente à frente com os ídolos. Sou a maior tiete das pessoas, mas sem desespero. Não há motivos para criar situações desesperadas, já bastam aquelas (tantas) que não podemos evitar. Desatino zero, inspiração infinita. 

Em todos esses encontros, ela foi sempre tudo o que imaginei que fosse além de linda: educada, generosa e simples. Minha idolatria deu espaço a uma imensa admiração. Segui observando seus passos cuidadosos, admirando o zelo pela família, sua aparente tranquilidade (engano, ela é intensa e tagarela e eu nem sabia!). O peso das suas escolhas e a força do seu olhar atento. Pouca gente sabe ser uma estrela e um ser humano ao mesmo tempo. Escolheu viver a fazer pose para a vida. Foi a Martha de novo, quem nos conectou há alguns anos. Eu queria contar essa história para vocês na capa da Bá e entrevistá-la. Para me explicar os motivos pelos quais ainda não era o momento, ela me telefonou (quase morri). Eu compreendia cada um deles. Trocamos whatsapp e desde que comecei a escrever essas crônicas, quase sempre, ela me manda áudios comentando os textos, que curte ler e que se identifica com muitos deles. Li numa entrevista que ela gosta de alcançar o máximo de pessoas possíveis: 

“Sou atriz também porque gosto de me comunicar, me expressar e sentir que o recado que eu quis dar chegou direitinho em alguém.” 

No dia 12 foi o seu aniversário e eu senti vontade de dar por aqui esse outro recadinho: “Malu, sabemos que está cada vez mais difícil viver da arte e da criação nesse país. O aniversário foi teu, mas o presente quem recebe sou eu, a cada áudio bacana que você me manda. Obrigada por todos os recados que você deixou e continua deixando para a gente na sua vida. Pode ter certeza que todos eles chegaram direitinho e vão seguir chegando cada vez mais potentes no seu novo ciclo”.

Obrigada, Malu! 

Por Mariana Bertolucci

  1. Thaïs Bezerra says:

    Mari prima amada, que crônica primorosa. Aliás, como tudo que você assina, na sua brilhante carreira de jornalista antenada, inteligente, verdadeira e guerreira.
    Bjoka da sua fã e colega jornalista Thaïs Bezerra
    De Aracaju – Sergipe / Terra de seus avós.

  2. Tininha says:

    Eu me lembro direitinho dessa época tua. Tu foi ficando ainda mais parecida com ela. Saudade de ti, desse tempo e também quando atrizes que nem a Malu Mader eram modelos de pessoas, não de embalagens de gente.
    Beijo, minha véia!

    1. Graziela S A Ramos says:

      Glorinha da Abolição puro charme e depois Anos Dourados… a Malu era meu sonho de beleza juvenil também. Hoje como adulta, acho que ela é uma mulher coerente e de verdade. Se nossos filhos tivessem exemplos que fossem assim, pela arte e atitude e não por ter um bom blog de maquilagem… 😄

  3. MAURÍCIO says:

    Lindo! Malu Mader é tudo isso, desde Eu Prometo até o infinito que as estrelas alcançam! Demais, e todos agradecemos de coração. Em tempos de moradia carioca a vi um dia na Pça Nsa Senhora da Paz em Ipanema, com o filho ainda pequeno no carrinho. Imagem na memória.

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