Cenário preparado para a entrevista com Ney Latorraca, no Museu do Festival de Cinema de Gramado. Eis que Rubens Ewald Filho, crítico de cinema, escritor e curador do festival, entra na sala para fazer as vezes de apresentador do homenageado com o Troféu Cidade de Gramado deste ano. Foi a senha para a entrevista virar uma conversa entre amigos de longa data. Aproveite para saborear suas histórias, com aquele toque particular de Ney Latorraca, sempre disposto a contar o “lado b”!

 

Rubens Ewald Filho: aprendi muito com o Ney. Como vocês sabem, é uma das pessoas mais engraçadas que eu conheço e que o Brasil conhece. Ele é um grande amigo. Ney, vamos começar falando dos filmes. Você fez muitos filmes, lembra-se de quantos?

Ney Latorraca: quase 30 filmes.

Rubens: e agora você está presente em Gramado, e já esteve muito aqui…

Ney: eu vinha aqui muito no início do Festival de Gramado. Estive quase em todos os anos participava mesmo! Depois, com a história de viajar com o teatro, fiquei muito tempo sem poder vir.

“Eu já recebi homenagem em quase todos os festivais de cinema e receber homenagem do maior festival de cinema brasileiro é maravilhoso! Voltei na hora certa.

 

Enfrentei uma barra pesada em 2012. Passei muito mal e fiquei quase desenganado pelos médicos mesmo. Fiquei três meses no hospital e ouvia os médicos falarem que “não tinha jeito”. Eu, ouvindo aquilo, fui adiante e acreditei. Depois de uma situação dessas, o que vier é lucro. Cheguei em casa, vi minhas orquídeas e liguei para o Wilker, que me disse: “não me dá mais sustos, hein!”. Marília Pêra também. De repente, os dois se foram e eu fiquei aqui, e as orquídeas continuam lá em casa inteiras. Eu moro numa cobertura lá no Rio que dá para ver a cidade inteira, e a casa é toda cercada com as orquídeas que ganhei dos meus amigos. Eu sou um sobrevivente eu estou num momento assim, do lucro da vida!

Rubens: você começou no cinema com o Carlos Reichembach?

Ney: eu tenho uma amiga, a Teresinha Sodré (atriz), que namorava o Carlos Alberto Torres (jogador de futebol e ex-capitão da Seleção Brasileira, falecido em 2016). Aí, ela me fala que tinha um filme do Carlos Reichembach, mas sem verba nenhuma, e pediram para que o ator que fosse participar levasse comida. Fiz o Carlos Alberto e a Terezinha me levarem na rodoviária com dois sacos de batata e caixas de laranja. Cheguei em São Paulo dizendo “está aqui a minha participação” para a produção. Apareci pouco tempo na tela. Em close, em uma cena em que estou criticando o cinema brasileiro, bêbado, caindo de um desfiladeiro e falando com o Grande Otelo a câmera vai e fecha. Uma audácia! Como eu sou vaidoso, estava louco para ver o filme; quando ele saiu no Rio, só tinha eu na plateia… No mesmo cinema que, depois, eu ganhei a Coruja de Ouro no final da década de 60. Levei o prêmio para casa, mas inventei de dar o troféu para o Tarcísio (Meira, ator). Minha mãe me fez buscar de volta, de táxi na Barra, às três da madrugada.

Ney Latorraca e Rubens Ewald Filho.
Foto: Edison Vara Pressphoto

Rubens: já que você é um ator de cinema e estamos no Festival de Cinema, você tem algum plano, algum projeto pela frente?

Ney: o projeto eu não sei se eu posso falar… Depende dele (aponta para Rubens Ewald Filho)…

Rubens: podemos sim, não vai ter a mesma graça… De qualquer forma, a gente deveria estar gravando, aqui, um documentário sobre a vida dele. Choveu muito, tudo ficou mais difícil. Mas estamos desenvolvendo agora, e sai em uns dois meses. Vamos contar tudo isso que ele fala o resto é segredo. Eu sou o produtor do filme, as imagens aqui capturadas também vão ser utilizadas, como a imagem dele recebendo o prêmio e outras.

Ney: são várias histórias. A ideia é colocar tudo na mesa, para não haver nenhum tipo de policiamento, e depois ir limpando.

“Contar a história daquele garoto que com 10 anos que entregava as marmitas que a mãe vendia para sobreviver. Um dia, peguei-a em Copacabana e levei-a até o cinema Odeon, à época no ápice, e disse: “um dia a senhora vai ver o meu nome ali, ó! Bem grande!”. Ela só me perguntou: “o que é isso, Neyzinho?”. Um tempo depois, estava lá, no cartaz do Odeon, “Sedução, com Sandra Bréa e Ney Latorraca”. Fui direto na minha mãe. “Não falei para a senhora que eu estaria aqui?”. Ela me respondeu: “eu sabia!”.

 

Rubens: você tem um filme clássico com a Marília (Pêra)…

Ney: […] considerado o pior filme já feito, “O Grande Desbum”, do Braz Chediak, 1978. Marília e eu cantando… Nós não estamos bem. Numa cena, tenho um acesso de riso. Noutra, nós dois estamos vestidos de Carmen Miranda em uma banheira… Demoramos tanto para gravar que a banheira estava meio sujinha já… Nós dois cantando com turbantes na cabeça. Imaginem…

Rubens: você sempre teve um grande carinho por ela.

Ney: eu vim de Santos para vê-la fazendo uma figuração em “My Fair Lady”, com Paulo Autran e Bibi Ferreira. A crítica na época apontou: “muito bom o espetáculo, mas tinha uma corista, lá pela quinta fila, que chama a atenção, que se chama Marília Pêra”.  Aí ela já começou a aparecer. Eu não pensei que sentiria isto com a perda da Marília — eu senti o mesmo de quando a minha mãe morreu. Hoje eu nem sei com quem falar as minhas coisas. Com você eu falo bastante, mas com ela eu falava todos os dias por telefone, praticamente, o mesmo assunto, que ninguém sabia: a matemática da arte de atuar um assunto cansativo. Tinha vezes que a gente começava na hora da novela das seis e terminava quando já tava dando o Programa do Jô. Repetitivos…

Rubens: e ela é sua madrinha?

Ney: Marília é minha madrinha de teatro. Em seguida, eu fui fazer “O Balcão”, de Jean Genet, uma revolução no teatro. Depois veio “Hair”, com um elenco “fraquíssimo”, com José Wilker, Carlos Alberto Riccelli, Antônio Fagundes, Sônia Braga…

Rubens: você teve um diretor que sempre foi apaixonado pelo teu trabalho.

Ney: o Ruy Guerra. Ele me convidou para fazer um filme, “A Ópera do Malandro”, em que eu fiz um personagem chamado Tigrão. Como o filme tinha muito dinheiro, fiquei seis meses fazendo coreografia com a Regina Miranda. Quando eu fui gravar, lembro que tinha uma cena de dança e canto com o Edson Celulari, e o Ruy fala “fecha na Claudinha (Cláudia Ohana, ex-mulher do diretor)”. Fui aborrecido para casa fumei uns dois maços de cigarro. Daí o Ruy me ligou, discutimos e, lá pelas tantas, ele disse que faria um filme focado em mim. O roteiro era do Gabriel Garcia Márquez, excelente, mas ficou tão fechado em mim que o filme não ficou bom.

Rubens: na televisão, você fez um programa de comédia, aquele personagem famoso…

Ney: o Barbosa, da novela “Fogo no Rabo”, da TV Pirata. Reuniram um elenco ótimo para a sátira de “Roda de Fogo” uma novela que tinha Tarcísio Meira como protagonista. Eu faria um misto de Walmor Chagas com Carlos Alberto Riccelli. Virou o Barbosa, com aquela peruca branca e um bico… Acabei tomando conta da cena e satirizando várias peças famosas, como “Romeu e Julieta”, “Rei Lear”… Eu caminho todo dia pela Lagoa Rodrigo de Freitas, e as pessoas me param, relembram o Barbosa e outros personagens. E já denunciam suas idades!

Ney Latorraca dá selinho em Claudia Raia.
Foto: Fabio Winter Pressphoto

 

Rubens: e Walter Avancini, outro diretor importante em sua carreira?

Ney: pois é, olha o quanto eu trabalhei… nossa! O Avancini foi assistir, em 1970, no Teatro Novo, o “Hair”. Ele convidou todo mundo para trabalhar na Globo, menos eu. Passou por mim numa bancada e me pulou. Eu fiquei arrasado! Acabei entrando na emissora em 1974, para fazer “Escalada”, num contrato de três meses. Meu personagem, Felipe, vivia numa rede balançando. Naquele ano, a revista “Amiga” resolveu fazer um concurso para eleger o rei da TV. Minha mãe comprava todas as revistas e, na banca mesmo, distribuía os formulários para as pessoas preencherem. Acabei concorrendo com Tarcísio Meira e Roberto Carlos. Fiquei em segundo lugar! Um dia, o Avancini chegou e falou: “que sucesso, hein! Eu quero que você faça O Grito”. Aí que começou essa dupla eu com o melhor diretor da televisão brasileira.

Rubens: no SBT eu cheguei a escrever uma novela, “Éramos Seis”, e o Ney participou. Foi na mesma época em que a sua mãe morreu.

Ney: sim, 1994. Pedi liberação para o Boni na Globo e falei com o Rubinho para eu fazer um palhaço na história. O Sílvio (Santos) me pagou muito bem na época, e o dinheiro foi para o Retiro dos Artistas, porque os tapetes vermelhos, as capas, tudo isso é uma brincadeira. Foi até ideia da minha mãe eu fazer um testamento dividido em quatro partes: uma vai para o antigo Leprosário de Campo Grande (MS); a outra, para o Retiro dos Artistas; uma para a ABBR, do Rio, e a outra para o GAPA de Santos, do qual sou o patrono. Tive que buscar um advogado para formalizar isso tudo, que tinha que voltar para os lugares certos.

(Alguém interrompe a conversa e pergunta sobre a volta à televisão.)

Ney: tocou nessa ferida! Sou contratado da Globo, e aconteceu uma coisa bem desagradável. Eu digo muito “não” para novelas, porque eu prefiro fazer séries. Eu faria a novela “O Tempo Não Para”, que está no ar. Uma semana antes de começarem as gravações, a Globo renovou contrato comigo até 2022. Dois dias depois, eu falei que não queria mais fazer a novela. Eu estou cansado não gosto de levantar cedo: eu tenho trauma. Gosto de fazer um trabalho como o que eu fiz com o Luis Fernando Carvalho, “Alexandre e Outros Heróis”. Eu fiquei quatro meses me preparando para fazer, estudando mesmo aula de canto e tudo. Depois de cinco meses, viajamos para o interior, perto do Rio São Francisco. Ele me diz: “você entra na casa e, com as câmeras ligadas, fala o seu texto, com a sua roupa do personagem”. Eu achando que era ensaio; e estava valendo. Eu estava fazendo 17 páginas do meu texto eles estavam preocupados com a minha memória depois das anestesias que eu recebi. No dia seguinte, gravamos mais 12 páginas. O especial foi ao ar em dezembro, recebendo críticas ótimas. Até que recebi uma carta; achei que era uma pegadinha. “O seu trabalho está indicado ao Emmy Internacional.” Liguei para a Globo, eles confirmaram que eu estava indicado. Fui para os Estados Unidos. Foi ótimo! Mas ganhou um ator alemão que ódio que eu fiquei dele!

Rubens: e para terminar?

Ney: agradecer! E propor uma campanha. Ontem, no cinema, os aplausos depois da sessão da noite do festival… Sei que todos estavam emocionados, mas achei meio murchinha a manifestação depois do filme… Eu proponho que sempre se aplauda a todos os filmes e artistas muito, e de pé. (Nota da redação: todos no ambiente levantam e encerram a entrevista aplaudindo Ney Latorraca, fato que se repetiu à noite, quando ele recebeu o Troféu Cidade de Gramado.)

raca Foto: Cleiton Thiele Pressphoto

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