mulher | mariana-bertolucci

Embora todas as certezas estejam ofuscadas pelo Covid-19 — estou convicta (e não intuitiva, como na penúltima crônica) que quase tudo o que sinto e vou escrever aqui vai tocá-la com uma profundidade cúmplice. Com alegria em alguns momentos. Com dor em outros.

Nossa história começa em meados dos anos 80, lá por 1986. Éramos adolescentes, na chocante década de 80. Sim, tudo o que era legal nos anos 1980 chamávamos de “chocante”. Você vai lembrar bem. 

Algumas de nós eram malucas pelo Menudo. Eu já era meio (não totalmente) mocinha para gostar da Xuxa, mas preferia mil vezes dançar “Lua de Cristal que me faz sonhar”… do que “Não se reprima…”. Sempre fui da turma da MPB, herança dos meus pais. Amava Rita Lee, Blitz, a Marina e a Madonna, que nos hipnotizava cantando e dançando “La Isla Bonita”.

Usávamos calças Deandê, abrigos de arco-íris, tules, babados, xotes e xaxados, como cantava afinada e esvoaçante Gal, e jaquetas jeans à la Cindy Lauper. Também Melissas fosforecentes, polainas (eu uso até hoje), ombreiras, mangas bufantes e cabelos tenebrosos iguais ao Chitãozinho e Xororó, que só ficavam bem na Sandy — que aos três anos era lindinha de qualquer jeito cantando com o Junior “Abre a porta, Mariquinha!!!”.

Além de ir ao ballet Lenita Ruschel, ao Yázigi e ao colégio, eu andava totalmente livre e sem medo pelo bairro onde cresci, a Vila Assunção. O tempo também passava assistindo Demi Moore e Rob Lowe no Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas na Sessão da Tarde. Ou no headphone Sony amarelinho, onde apertava mil vezes rewind e ouvia Bryan Ferry cantando a melosa “Slave to Love”. Minha única preocupação era pensar como seria o momento em que me apaixonaria pela primeira vez. O frio na barriga logo se misturava com o desespero de imaginar como seria furiosa a reação do meu pai ao saber do meu “namoro”.

Namoro que não tinha nem com quem e nem por onde começar. Mas a culpa já estava ali. Latente, poderosa, visceral e corrosiva dentro de mim. Que assim como você, era só mais uma guria sonhadora querendo virar mulher nos anos 80. Até que tivemos muitos momentos divertidos, mas não foi tudo tão fácil e chocante assim, né?

Meu pai sempre foi um taurino rígido com a sua e a nossa disciplina. Tem um coração imenso, mas um olhar definitivo, enquanto entoa frases pausadas. Uma seriedade que metia medo. Claramente, ele nunca nos proibiu de namorar. A única coisa que ele não desistiu de fazer até hoje é me perguntar com a calma de um gentleman: “Mas não está pequeno demais esse biquíni, minha filha?”, se satisfazendo imediatamente com a minha resposta de sempre: “Eu gosto assim, pai”.

Mocinhas ouvimos com todas as letras das nossas mães que liam Simone de Beauvoir e gostavam da Jane Fonda: “Não casem virgens, mas também não é para sair transando demais, porque a sociedade ainda é bem machista.” Não foi fácil entender tudo isso enquanto mais e mais hormônios se degladiavam freneticamente pelo nosso corpo que deixava de ser infantil.

Crescemos, nos apaixonamos, beijamos, sofremos tudo sempre de novo, mais uma vez. Além da tristeza natural e o drama que todo o fim carrega em si, terminar uma relação, sempre nos coloca diante do risco de vir a ser uma mulher sozinha. Que não tem perspectivas de casar, e, provavelmente, não terá filhos e nem uma família para cuidar e chamar de sua…. Que tragédia! Veja bem, onde já se viu? Como uma mulher assim vai ser plena, bela e completa. Realizada? S-O-Z-I-N-H-A?

Fomos educadas e preparadas para encontrarmos o príncipe que nos trataria por toda a vida como uma rainha. Então, nossos pais nos reforçaram todo esse tempo que precisamos trabalhar para termos liberdade e independência. Deusmelivre depender de homem, mas também não vai escolher um duro. Mulher tem que ter a própria carreira, mas não vai engravidar minha filha? Crescemos, viramos mulheres e educamos nossos filhos e filhas entre tantas contradições e meias-verdades.

Então nesse último dia do mês da mulher, que foi literalmente atropelado pela pandemia mundial que vivemos, queria reforçar entre nós, algumas certezas, mesmo que você não tenha virado mulher no chocante anos 80, como eu e as minhas amigas. Porque somos todas bem parecidas. E esse é o elo mais precioso entre nós.

Você não precisa transar com ninguém sem ter vontade. Nem com o guri mais lindo do colégio, que você quer namorar, nem com o seu namorado só porque vocês estão na praia e tampouco com o seu marido. Seu corpo, suas regras. Melhor não mentir que está com enxaqueca. Ache um jeito, conversando com o seu parceiro, de sentir mais desejo ou termine de vez com a farsa que vem sendo a sua relação.

Se você está acostumada a relevar grosseria e gritaria dentro da sua casa é sinal de que está tudo errado. Não, você não é complicada, temperamental ou vive de TPM. Isso está E-R-R-A-D-O. E sim, igual nós líamos nas reportagens das revistas femininas, você também vive uma relação abusiva e agressiva. Mesmo que o seu parceiro jamais tenha levantado a mão para você. Vai insistir? Você pode me devolver: “Mas como é que vou ficar sozinha agora, só eu e as crianças?”. Ou ainda: “Mas eu não tenho mais idade para me separar?”. Tranquilo, amiga. Além do restinho miúdo e tímido de autoestima que ainda resiste em você se esvair de vez em dias, meses, anos… a tendência é você seguir essa pessoa infeliz nos próximos dias, meses, anos da sua vida. Cada um sabe de si, não é verdade? E não estou aqui para julgá-la. Só para dividir experiências, que assim como você, eu também já vivi e quando me descuido, estou vivendo de novo. Ah, sem dúvida, nós gostamos de repetir alguns padrões internos e também escolhas. Também sabemos bem quando alguém se importa conosco de verdade. O pior cego… você bem sabe o final desse ditado.

Se você é humilhada e está sempre tendo que fazer a samambaia (como diz a minha amiga Flavinha Mello) para olhares nojentos de malícia e de deboche dos homens que a cercam no trabalho ou em qualquer outro lugar. Isso não é culpa da sua beleza, do seu borogodó, do seu riso alto, decote ou do tamanho da sua saia. É comportamento vulgar de gente insegura que não acredita no próprio taco. Sim, sim, muitas vezes bem isso que você está imaginando…

Última coisa e não menos importante: seja amiga das suas amigas e das outras mulheres. Uma fofoquinha, muitas vezes pode parecer irresistível. Mas se for fazer, faça com humor e com graça. Sem maldade ou inveja. Esqueça padrões estéticos que são tão pobres e supérfluos para definir a maravilha que somos. Quem está magra, está doente. Se engordou, é relaxada. Quem se expõe, é exibida. Quem se esconde, está deprê… Nada disso, mulher! Juntas e de todos os jeitos somos mais, ok? Vem abril, que vamos te encarar com força, união, cabeça erguida, coração aberto, nervos à flor da pele. E repletas de amor.

Por Mariana Bertolucci

  1. Thaïs Álvares Bezerra says:

    Sensacional, como tudo que você escreve, prima amada e jornalista de brilho próprio. Bjoka com carinho e admiração de sua fã sergipana e também jornalista, TB.

    1. Alcimir Richter says:

      Perfeito querida!
      O respeito mútuo é ponto mais importante nas relações. Sejam essas quais forem.
      Em tempos de mudanças que estamos vivendo, e que esse momento não seja esquecido, é fundamental o elemento básico da relação humana e que vem junto com a solidariedade.
      Um grande beijo
      Fica bem e te cuida

  2. Jorge Armando de O Fraga says:

    Mariana
    Bela matéria. Bem apanhada, dentro da realidade da época. E que época boa. Continuo cada vez gostando mais.
    Siga
    Com abraço
    Jorge Fraga

    1. Mônica viesi says:

      Adorei. Matéria incrível!Realmente estamos passando por uma época que precisamos de muito amor,respeito , e pararmos de julgar certo e errado!
      Bjos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *