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Nunca uma Páscoa teve seu significado de renascimento tão visceral e presente como essa que acabou de passar. Para quem, como eu, pode se dar ao luxo de estar em isolamento, saindo semanalmente para ir ao supermercado, trocar comidinhas da mamãe por sacolas do Zaffari, vendo de longe os pais mascarados e a avó pela janela, a Páscoa, os dias e a vida já ganharam novos significados em 2020.

Em meados de março, lá estávamos nós em nossas casinhas e trabalhos confortáveis (ou nem tão confortáveis assim, como é a realidade da maioria dos brasileiros), pensando no que fazer no feriado de Páscoa, até termos nossas vidas radicalmente reprogramadas pela aparição da Covid-19. 

Estamos fazendo exatamente o que recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os órgãos governamentais de saúde pública de todos os países do mundo. Não vemos nossos pais e avós, filhos ou netos. Não podemos mais trabalhar, nem cumprir a antiga rotina de compromissos que você (veja bem!) costumava sempre reclamar que andava agitada demais. Aproveite! Adeus, abraços e beijos. 

Não ousem tocarem uns nos outros, sair de casa, frequentar festas, bares, conhecer pessoas, encher pistas de dança, shows e eventos bacanas. Também deixamos de nos reunir com amigos queridos semanalmente, como de hábito, e tivemos que abrir mão de fazer todas as coisas do jeito que estávamos acostumados.

Perdemos coletivamente e quase ao mesmo tempo, a liberdade de simplesmente “sermos”. Agora temos o desafio de conjugar de novo e sem hipocrisia esse verbo essencial: SER.  E como bem dizia Shakespeare em Hamlet: Eis a questão! Vivemos a negação justamente dessa preciosa possibilidade e oportunidade que ganhávamos todos os dias. A cada instante e despertar.

Nós, sempre tão donos de nossos destinos, perdemos as nossas chances diárias de levantarmos das nossas camas e de simplesmente “ser ou não ser”. De verdade. Quem somos. Sem questão. Entendermos nosso papel no mundo e na vida das pessoas.

Misterioso, sorrateiro, rápido, implacável, o vírus em poucos meses (consta que o primeiro caso apareceu em dezembro de 2019, na cidade de Wuhan, na China) tornou-se protagonista absoluto da vida de todo o planeta. Alastrando-se feroz, invisível e sem muita explicação. Assombrando, confundindo e tirando a vida de cientistas, pesquisadores e médicos e pessoas do mundo inteiro. Já infectou quase dois milhões de pessoas e causou 127.590 mortes. Mirando sem piedade nos idosos e em quem é ou está mais vulnerável de saúde. Cortando na carne e saindo pelos poros da humanidade inteira o quanto essenciais ainda são os sentidos mais singelos: um gesto ou um toque carinhoso, um olhar próximo, um abraço apertado, uma refeição juntos, um sorriso cúmplice. O cheiro de alguém, que não sentiremos mais.

Artistas se apresentando, cantando, dançando, expondo, professores ensinando, pessoas compartilhando dons. Na imensidão de países, culturas, cores, idades, profissões, crenças religiosas e ideologias diversas, antagônicas. Mas, desde que JUNTOS, nessa mesma e frágil existência.

Precisaremos encarar de frente, com medo, perdas reais e estatísticas duras uma pandemia para compreendermos de uma vez por todas que somos seres integrais: a soma de nossos indivíduos, responsáveis por nossas essências e existências únicas e também parte de um coletivo, que envolve outros seres vivos e meio ambiente. Essa convivência, por mais diversa, distante e ampla que possa parecer, exige regras de empatia, prevenção e respeito. Com o todo, com as plantas, com os bichos, com a terra, com o ar, com as águas. Com os seres humanos.
A integração começa dentro de nós. Não é porque ganhamos likes, que temos que perder personalidade. Os momentos são mais preciosos do que os objetos. Troque mais afeto e menos farpas. Se for empoderada no Instagram, evite choramingar no Whats App. Siga linda e feliz no look do dia, desde que também seja capaz de abrir um sorriso para o vizinho. É diário, constante, permanente. Seja coerente com você, que ficará mais fácil ser com os outros e com o planeta.

O planeta, por sua vez, está inteiro focado em combater o Covid-19. A poluição e as emissões de gases de efeito estufa, que intensificam o aquecimento global, caíram consideravelmente com a diminuição da atividade econômica, com os cancelamento de voos e a menor circulação de carros. Temos que vetar todas essas atividades e ações? Não, obviamente que não. Controlar o desequilíbrio ambiental do ecossistema e a extinção das espécies SIMMMMMMMM! Claro que sim.

Porque é assim que deve ser. Pensar e agir atento ao impacto da sua ação na vida do outro é algo cada vez mais raro, mas bonito e urgente de ser exercitado entre as pessoas. Um conceito que há muito já andava esquecido e parece ter saído de moda. Porque não move bolsas de valores, nem sacode mercados financeiros ou desfila nas semanas de moda internacionais. Tampouco decide eleição, ou será produzido em grande escala na China, gerando lucro e mais lucro para viver próximas boas décadas tranquilamente. Viver? Oi? Será?

Fazendo novas viagens, tirando muitas selfies, empilhando bolsas, sapatos, perfumes, jornais, livros, fotos, mais roupas, joias, carros de todas as cores, estações e de todos os jeitos para tirar mais fotos… E assim alimentar o ciclo que segue, sem pausar, na roda incessante e insana que todos sabemos que andava nossa vida.

Vai passar. Saíremos e seremos diferentes depois de 2020. Boa ressurreição a todos. Se puder, fique em casa.

Foto Heloisa Medeiros

Por Mariana Bertolucci

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