finais-mariana-bertolucci

Não gosto dos finais. Às vezes nem dos felizes, muito menos dos tristes ou dos óbvios. Esse último até irrita. Porque se era óbvio, para que deixar chegar até o saco do final? A desconfiança, e em um segundo momento, a certeza da finitude não são serenas e confortáveis dentro de nós. Quase sempre vêm acompanhadas de saudades, o que só piora. 

O fim da vida ou a falta da saúde são os que mais nos assustam, mas sabemos que são inevitáveis. Encerrar relações e ciclos afetivos e profissionais também é duro. Essa conversa de que para cada porta se fecha, se abre uma janela incrível só funciona se a pessoa, essa que levou a portada na cara, tem uma bola de cristal em casa. E das boas. Sem bola de cristal, no exato momento do fim, nada é capaz de acabar ou diminuir a sensação de rejeição. E tudo bem. É assim que funciona. A gente sabe, e blá, blá, blá, blá. Só que não sentimos e deixamos de sentir tudo tão facilmente e descomplicado assim como eu pareço escrever aqui e como postamos no Instagram. 

Hoje mesmo vi no Instagram algo que dizia assim: “A razão sempre disponibiliza as cordas, madeiras e ferramentas, mas é a sensibilidade que determina se você fará uma cerca ou uma ponte.” Pensei que sem razão não é possível ser sensível, e sem sensibilidade nem adianta ter razão.

A impotência firme e definitiva dos finais só aumenta o buraco em um lugar misterioso e que parece inacessível dentro da gente (mas, não é). Um buraco como se fosse uma casinha chamada amor-próprio. Dentro dela, vamos encontrando jeitos de juntar nossos cacos e remendar as nossas asas depois das quedas e dos finais. Com a nossa própria ajuda e também das pessoas que nos amam. Passarinhos machucados preparando novos voos. É difícil lidar com aquilo que não depende de nós. Com o impacto que a decisão de outras pessoas ou fatores externos acabam tendo na nossa vida.  

E só aumenta aquela vibe de inadequação, de desprezo, de descontrole, de raiva por estar em uma situação que você não planejou ou desejou. Soa como injustiça e não como uma surpresa boa. O fim. Que as pessoas costumam sentir nesses momentos de portas fechadas. Em que nada é possível, além de aceitar. E reagir, no tempo e do jeito que você conseguir.

As séries são tão sedutoras porque, além de bem feitas, temos uma falsa e temporária sensação de que as ações estão ao alcance dos nossos simples comandos, no conforto do nosso lar. Ali, somos poderosos, dando o play e decidindo qual será o novo e emocionante episódio. 

Mas a vida está longe de ser previsível. A obedecer nossos tempos, pauses, cliques e vontades. Não temos controle nenhum sobre ela, tampouco remoto e ainda menos deitado na cama ou no sofá tomando um bom vinho. Não é tão confortável assim viver e encerrar ciclos. Não tem outra maneira de preencher os vazios desses finais, senão vivendo. Como explicou o psicanalista e escritor Contardo Calligaris na última segunda-feira no Fronteiras do Pensamento, que lotou a PUC: 

“O sentido da vida é viver a própria concretude da vida, da forma como ela é. Inclusive, entendendo que o fim também faz parte da vida.”  

Em uma noite qualquer da primavera de 2011, fui tomar um chope com o meu ex-colega e amigo David Coimbra. Era só para nos vermos rapidamente mesmo, em um bar em que eu entrei aquela única vez. Subimos por uma escada lateral e pedimos o chope mais comprido que eu já tomei. Nunca fui a nenhuma Oktoberfest, mas imagino que os chopes sejam servidos em copos daquele mesmo tamanho. Depois de trocar uma ideia sobre o Bernardo e a Antônia, que cresciam fortes e sapecas, e colocar em dia o papo sobre a minha vida fora da redação e a dele dentro, derramei umas lágrimas, no segundo gole do chope.

Ele me olhou, com aquela cara, quando vira a cabeça para o lado, ergue a sobrancelha e tenta preparar uma piada rápida para estancar a choradeira (sim, naquelas alturas da nossa amizade, que completava 15 anos, ele já era experiente com xororôs e serelepices repentinos) e me perguntou: “Mas o que foi, Magrela?” Eu disse: “Eu ando achando que eu sou louca.” Mais lágrimas chope adentro. Ele não controlou aquela risada farta e folgada e me devolveu: “Mas por quê, Magrela? O que tu aprontou dessa vez?” Respondi, chorando mais, atrás de guardanapos para assoar o nariz: “Nada. Não fiz nada dessa vez, mas eu sinto saudade da redação todos os dias. Tanta saudade que eu choro. Vai dizer que isso não é coisa de gente louca. Ou por acaso tu conhece algum ex-colega nosso assim?”. Ele me olhou meio com dó, meio com vontade de rir e disse algo que jamais esqueci: “Tu não é louca, Magrela, e não, não conheço outro ex-colega nosso assim. Mas posso te contar uma coisa?” Eu já chorava sem timidez nenhuma, terminando aquele chope quente e sem fim: “Pode”

Ele me explicou: “Todo mundo sente saudades Magrela. A única diferença é que tu fala e chora.” 

Por Mariana Bertolucci

  1. Rosane says:

    Maravilhosa reflexão Mari…. a finitude sempre provoca espanto: de alegria ou de dor
    A falta que algo nos faz só é capaz de saber quem já sentiu…
    Eu sinto SAUDADES imensa da redação e sempre choro quando lembro que tudo terminou e não do jeito que eu sempre imaginei. Não teve respeito, nem reconhecimento. Foi de um dia para o outro sem explicação alguma….
    Aí já pensei como vc: “será que sou louca?”
    Não amiga , temos razão e sensibilidade!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *