A entrevistada é Carol Campos, educadora e Diretora Executiva do Vozes da Educação. Carol também é especialista em educação nas emergências, advogada e mestre em Políticas Públicas. Atuou em instituições como MIT e Teachers College (Columbia), estudou na Harvard Extension School, e liderou projetos em Sobral e em redes municipais de ensino. Atualmente, é Diretora Executiva do Vozes da Educação, Conselheira do Movimento pela Base e Consultora da UNESCO junto ao MEC e ao Banco Mundial.
Depois da tragédia no Rio Grande do Sul, ficou claro que muitas escolas brasileiras têm dificuldade para lidar com enchentes e paralisações. O que falta na maior parte das redes de ensino do país?
Toda crise tem um antes, um durante e um depois. O “antes” engloba três fases: a prevenção, para evitar que a crise chegue, a mitigação, para reduzir os efeitos de quando a crise chegar, e a preparação, que é o momento em que eu me equipo para enfrentar o problema. Daí porque o “antes” é tão importante. Eu diria que é a parte mais importante numa crise.
A situação fica ainda mais complicada porque, no Brasil, embora os fenômenos climáticos extremos estejam se intensificando, a educação não costuma ser convidada a sentar na mesa na hora da tomada de decisão. A ironia é que a escola é sempre a primeira instituição a acolher a população. Quando surge a emergência, é ela que vira abrigo, orienta com informações seguras e distribui doações. Além disso, são os professores que ensinam a cuidar do território, dos oceanos, e a descartar o lixo corretamente. Incluir a escola na mesa de debate, conectando as redes de ensino à Defesa Civil, ao Corpo de Bombeiros e aos órgãos de saúde pública é algo que já devíamos ter feito há anos.
Quando falamos em defesa civil, normalmente pensamos em hospitais, estradas e energia elétrica. Por que a escola também precisa ser tratada como infraestrutura essencial nos planos de preparação e resposta a eventos climáticos extremos?
Porque é a escola quem oferece rotina para uma comunidade. Quando a escola para, por conta de uma crise climática, toda a comunidade sofre. E esse sofrimento acontece por conta da falta de rotina. Nós, humanos, precisamos de estabilidade e previsibilidade. E, quem nos oferta isso é a rotina. A escola é o espaço que mais oferta rotina para toda uma comunidade, porque é ela quem dita a hora que família acorda, o trânsito das cidades e até o fluxo dos aeroportos.
É por isso que retomar as aulas o quanto antes, importa e importa muito. Vale lembrar que essa retomada não é apenas crucial pela aprendizagem, mas também pela saúde mental. No entanto, a aprendizagem também precisa ser considerada nessa equação, e aí temos que nos lembrar da queda brusca nos índices de alfabetização que o município de Porto Alegre sofreu após as enchentes de 2024.
Quais são os impactos educacionais de longo prazo quando uma enchente, seca ou deslizamento interrompe as aulas por semanas ou meses? O que acontece com a aprendizagem, a saúde mental e até a permanência dos estudantes na escola?
A interrupção prolongada é um gatilho direto para a evasão escolar. Em momentos de necessidade extrema, o jovem sente a pressão de gerar renda imediata e enxerga os estudos como algo secundário. Além disso, enfrentamos o desafio dos deslocamentos forçados. Após rupturas como a de 2024 no Rio Grande do Sul, muitas famílias migram para não reviver o trauma, quebrando o vínculo com as escolas locais. Porto Alegre perdeu muito da sua classificação nos índices de alfabetização e se tornou a capital que teve maior dificuldade de alfabetização em 2025. Claro, porque em 2024 as escolas ficaram fechadas. Algumas escolas em Porto Alegre ficaram dois meses fechadas, porque estavam debaixo d’água.
Quando tiramos o equilíbrio de uma comunidade, ela entra no epicentro de outras crises secundárias, da perda de aprendizagem ao adoecimento mental e ao aumento das vulnerabilidades sociais. O Brasil costuma atuar de forma reativa. O que significa construir uma política de “educação para emergências”?
Costumo dizer que somos o “país cigarra”: sabemos que o inverno virá, mas não nos preparamos como a formiga. Tanto a cigarra quanto a formiga sabiam que o inverno ia chegar e a cigarra não se preparou. Ao contrário: a cigarra fica cantando, feliz pelos cantos, é verão e ela aproveita o momento. Enquanto isso, a formiga trabalhadora vai lá, estoca as coisas e se prepara para o inverno; estoca comida, arruma uma casa segura, ela deixa sua casa bem estruturada. Precisamos virar essa chave no Brasil. Aqui, embora o Ministério da Educação já possua articulações para o enfrentamento de crises, ainda precisamos de uma coordenação nacional unificada, envolvendo outros ministérios e que estabeleça uma rede efetiva de proteção.
Cidades que já vivenciaram desastres demonstraram maior maturidade. Recife, por exemplo, possui protocolos integrados com a Defesa Civil: conforme o nível do alerta, sabe-se exatamente quando suspender as aulas. A cidade também tem protocolos definidos para a desocupação rápida e organizada do espaço escolar. Precisamos aprender e escalar essas boas práticas locais.
Quais seriam três medidas urgentes que prefeitos e governadores deveriam implementar ainda este ano?
1. Planos de Contingência Intersetoriais: Criar protocolos integrando Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Saúde e Segurança.
2. Formação de Educadores: Formar os educadores para lidar com crises e conseguir apoiar no acolhimento emocional, em momentos de emergência.
3. Representatividade Institucional: Garantir a presença do setor de educação nas decisões estratégicas, planejando com antecedência espaços alternativos para aulas e acolhimento.
As chuvas voltaram a atingir Porto Alegre. Do ponto de vista da educação, o que falta para a prevenção e preparação se tornarem prioridades reais?
A intensidade e a frequência dos eventos no Rio Grande do Sul mostram que não falamos apenas do futuro, mas do presente. Isso exige mitigação: avaliar e adequar a infraestrutura de prédios escolares em áreas de risco, e preparação: criar planos de contingência e treinar equipes. Então, essa parte da preparação, do ponto de vista de uma educação que a gente chama de resiliente, é extremamente importante. E isso não é gasto, isso é investimento, porque aqui nós estamos falando em priorizar ações. A escola costuma ser a primeira fonte de informação confiável e apoio emocional para crianças e famílias. Colocar a pasta da Educação no centro das decisões de mitigação e preparação é indispensável para construir cidades e redes de ensino realmente resilientes.
Por Tatiana Bertoni
