E Paris vê-se ardente, em ebulição, a cidade ferve, no duplo sentido. Concreto e figurado. Temperaturas muito acima da média, extremas, para um verão francês. O mercúrio bate o pico máximo do termômetro. O francês nunca viveu sob um calor tão escaldante.
De Sáara. Até brasileiro sucumbe. O Astro Rei brilha, aquece, sufoca, derrete. É Rei, Soberano. Mesmo assim, chapéu e filtro solar, H2O na bolsa, você sai para admirar a revolução das artes, nas ruas, nas pontes ou no interior dos palácios. Porque Paris arde também no sentido figurativo do termo. Circuito cultural pleno, intenso, tentador. Para escapar à onda de calor, você busca a onda da quimera. As exposições que seduzem a vanguarda artística parisiense neste verão propõem uma imersão num universo sensorial e metafísico, além do real, do palpável. Flutuar em ilusões, através das criações de artistas contemporâneos é o viés da atualidade.
O artista francês JR, transforma a Pont Neuf numa gigantesca gruta parietal do século XXI. A japonesa Fujiko Nakaya e suas perturbadoras esculturas em névoa e o argentino Leandro Erlich com suas instalações alucinantes, reinventam a realidade e nos mergulham em mundos extraordinários.
A CAVERNA de JR
O fotógrafo e roteirista francês JR (Paris, 1973), rende homenagem a Christo e Jeanne-Claude (que embalaram a Ponte Neuf há quarenta anos), com a instalação de uma obra monumental, uma caverna gigantesca, de 120 metros de comprimento, intitulada La Caverne du Pont Neuf estabelecendo o diálogo entre passado e presente. Este projeto titanesco decora o centro da cidade com uma gruta pré-histórica. A caverna, outrora incrustrada na rocha, agora é leve, inflável. Do exterior, as formas rochosas podem ser vistas dos cais do Sena, dos barcos que deslizam no rio, do alto da Torre Eiffel e de outros lugares elevados da capital. Do interior, o visual remete às paredes das grutas milenares com seus hieroglifos, primeiro registro da presença humana na Terra. O público, através de um fio condutor de sensações visuais e auditivas, viaja do presente ao passado remoto, à era das cavernas, gravados nas paredes, os primeiros rudimentos da escrita. A travessia é gratuita, a gruta pode ser explorada dia e noite, todos os dias da semana, segundo o seu ímpeto de viajar no tempo.
FUJIKO NAKAYA
Na Bourse du Commerce, é o momento de se conectar com a obra de Fujiko Nakaya. A artista japonesa, de 93 anos, define sua obra como uma “experiência metafísica”, uma viagem ambivalente entre o visível e o invisível. Suas criações são sempre efêmeras e instáveis. Na exposição denominada Clair-Obscur, mais uma vez, a neblina continuamente em movimento, faz oscilar nossa visão de mundo. Entre a luminosidade e o crepúsculo, o visitante deambula em meio à bruma, num espaço indefinido. A ideia é levar o expectador a vivenciar um sonho intemporal, onde o corpo e a mente mergulham numa névoa fluida, permeável, quase transparente; além do efeito lost in space, a obra confere surpresa, contemplação e serenidade. Fujiko Nakaya tornou-se conhecida em 1970, através de uma instalação imensa, ao colocar em meio à neblina, a cúpula do Pavilhão da Pepsi Cola na exposição universal de Osaka, Japão. A partir de então, suas obras de névoa ganharam o mundo, mergulhando o visitante em paisagens oníricas, visões difusas e interpretações multidimensionais.
LEANDRO ERLICH
Atenção ao que você vê! A realidade não é necessariamente o que você enxerga. O artista argentino Leandro Erlich confirma o adágio popular: “não creio no que meus olhos veem”, e desconstrói o real com suas perspectivas improváveis, suas arquiteturas em movimento, seus jogos de espelhos e suas ilusões de ótica. Nascido em Buenos Aires em 1973, Leandro Erlich conquistou o planeta com suas instalações participativas espetaculares, elaboradas sem tecnologias sofisticadas, mas com uma criatividade mágica espantosa. Lúdica, divertida e popular, a obra de Leandro Erlich é vítima de seu sucesso porque pode transmitir, a priori, uma impressão frívola e superficial da sociedade. Ledo engano! O conjunto de sua obra representa algo muito mais profundo, o que se percebe logo após a primeira imersão. Sua criação tem relação direta com a problemática social e ecológica da atualidade, segundo assinala Fabrice Bousteau, curador da versão parisiense desta mostra que já foi exibida em Tokio, Miami e Milão. Erlich aborda a temática das aparências, seguidamente enganosas, das ilusões do mundo, das visões distorcidas; incita o visitante a ‘abrir os olhos’ para captar a realidade disfarçada, superar o espanto diante do inesperado, desmascarar o semblante, enxergar atrás da máscara da face. Em suma, é um convite ao exercício do espírito crítico…
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Três artistas, um francês, um argentino e uma japonesa, com 43, 53 e 93 anos, respectivamente, numa visão multicultural e intergeracional, propõem a transmutação do real, com deformações e desconstruções, levando à reflexão, ao questionamento, à indagação. Admirar uma obra de arte, não significa, antes de mais nada, passar por uma experiência ilusória? Descobrir o prazer de explorar o vácuo deixado pelo artista, que nos separa da realidade para que melhor possamos confrontá-la?
No livro, A Arte e a Ilusão, lançado em 1960, o especialista em História da Arte, E. Gambrich, descreve o fenômeno da percepção visual paralelamente à parte psíquica da criação destacando o papel ativo do expectador, sua capacidade de projeção e de interpretação, ao que acrescento, sua capacidade de redesenhar as imagens segundo seu mundo interno, não menos instável, complexo e personalíssimo. A reprodução do real que, na verdade, dele se afasta, constitui o impulso fundamental da alma criativa do artista. E tal fenômeno se intensifica diante de cada olhar atento e único. Um instante em que realidade e miragem fusionam para admirar, como chamamos, uma obra de arte!
Maria Alice Ripoll, Paris, agosto de 2026

Prezada Maria Alice, que texto lindo!
Adorei sua reflexão sobre o vácuo deixado pelo artista e a forma como o espectador redesenha a obra com seu mundo interno. A referência a Gombrich deu ainda mais elegância, você escreve com alma e lucidez. Parabéns!
Ola Antonieta,
Obrigada pelo comentário sensivel, gentil e atento. Bjs!
Chère cousine! Quanta sensibilidade ao descrever as obras de arte. Quase consegui senti-las… A arte nos conecta com o au-delà de la vie, l’intérieur à l’extérieur… Et ça c’est très beau et très important…
Nos momentos difíceis que a vida nos trás, a arte em todas as suas traduções, nos enleva, como as tuas lindas palavras que nos levam a uma viagem onírica, que só escritores com alma e sensibilidade conseguem. Merci beaucoup !
Quanta sensibilidade, tirocínio e capacidade de reflexão!!!!!! E a gentileza das tuas palavras me tocam o coração. Merci! Merci! 🥰🇨🇵
Je t’en prie! A nossa bisavó Maria José Fróes Mabilde era uma poetisa, além de mãe, professora, mulher apaixonada que mudou sua vida ao casar com seu professor de alemão e com ele fundar o estaleiro Mabilde. Com certeza herdaste sua veia de poetisa!
Texto magnífico! Uma composição de sentimentos descritos, transcende nossa imaginação. É impossível ficar indiferente diante de tanta sensibilidades! Parabéns aproveite das riquezas inata de seu dom!
Obrigada Fátima. Seu comentário me faz muito bem!!!! 🩵🩵🩵🩵
Vontade de pegar um avião e fazer uma imersão na experiência contada pela cronista Maria Alice Ripoll! Obrigada por nos entreter e nos informar com elegância, algo próprio da sua escrita!
Merci ma chère amie!!! 🩵
Mais uma crônica linda da minha.talentosa amiga Maria Alice! E as dicas de Paris… nem se fala: preciosíssimas!
Com um olhar perspicaz e paixão pela vida cultural de Paris, tu descreves com entusiasmo e riqueza de detalhes, eventos muito bem selecionados e compartilhas com teus leitores um pouco do prazer de tuas descobertas e visitas. Parabéns!
Querida amiga Fernanda. Comme d’hab, teus comentários agregam ao texto. Inteligência, sensibilidade e empatia. Merci!!!!
Querida amiga,
Não foi à toa que publicaram a tua crônica do artista Peticov, garanto que se estes artistas por você citados, farão o mesmo se lerem teu texto. Incrível a tua sensibilidade e conhecimento ao descrever suas obras. Me deu vontade de estar aí, mas claro com você ao lado.
Parabéns
Merci ma chère amie!!! Quem sabe programamos para o ano que vem, uma exposição em Paris ou Miami. Bjs
Mais um texto que tão bem reflete o brilhantismo de sua autora! Proporcionou uma imersão nas obras dos três artistas! E suscitou a curiosidade em visualizá-las pessoalmente!
Obrigada querida amiga Graça!!!! Seus comentários sempre me deixam extremamente plena. Bjs!
Querida, como sempre tuas palavras conseguem nos transporta para teu pensamento e com clareza das palavras nos sentimos inseridos. Teu olhar é especial para transporta para a escrita, os temas que nos presenteias.
Aqui mais um texto que nós proporciona uma atualização das diversas exposições e com o teu comentário que só enriquece a nossa percepção. Obrigada querida!
Alicia querida, tuas impressões agregam ao texto. Obrigada!!!! Bjs!!!
Minha Amigona : Muito Além de Paris
Que lindo ! Conseguiste colocar em palavras as tantas sensações artísticas desse cidade maravilhosa
👏👏👏👏👏👏
Obrigada amiga querida e companhia de passeios maravilhosos!!!! 🩵🩵🩵🩵
Obrigada por nos proporcionar essa viagem metafísica 🙂 Belíssima!
Obrigada pelo registro de tuas impressões sempre precisas! 🥰
Minha querida dra. Maria Alice, adorei esse passeio por uma Paris que ferve por fora e por dentro. A imagem da caverna de JR e o convite de Erlich a desconfiar do que os olhos veem ficaram comigo — uma crônica que nos faz viajar e, ao mesmo tempo, olhar de novo para a realidade.