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Das Arábias: desbravando Doha, a capital do Qatar

Ruas de Doha

Quando me surgiu a oportunidade de trabalhar por uma semana em Doha, Qatar, ocorreu-me um misto de felicidade (porque viajar sempre me alegra) e apreensão — deixar minha família por uma semana para cruzar o planeta e viver (também!) as mil e uma noites nas Arábias pareceu-me uma loucura, mas a vida, sempre me presenteando, deu-me essa chance, e eu não podia perder.

Doze horas diárias de trabalho intenso e, em uma semana, tudo o que tive para curtir e explorar aquele lugar mágico foram quatro horas. Quatro horas! Nada más! O Qatar fica no Oeste da Ásia, na península Arábica, fronteira com Arábia Saudita. O país inteiro é, mais ou menos, do tamanho do estado de Alagoas em área e um dos mais ricos do planeta. Foi protetorado britânico até a independência, em 1971. É um país jovem, moderno, com uma das arquiteturas mais arrojadas e incríveis que já vi, berço dos sheiks e sede da Copa do Mundo de 2022. O país do futuro!

Conhecendo Leila Martinez

Através de uma colega, conheci Leila Martinez, alto-astral, ligada em tudo e de uma energia contagiante. Ao encontrá-la pela primeira vez no lobby do hotel, já sabia que iria adorá-la. Gaúcha, e de Porto Alegre, como eu! Não perdeu quase nada do sotaque, embora tenha deixado o Brasil há muitos anos. Quais são as chances de encontrar uma gaúcha em Doha? Hoje em dia, só se tem uma, e não se pode perder. Leila é fisioterapeuta de formação, mas já teve uma escola de artes por 15 anos. Também foi empresária no ramo de eventos — criou com uma sócia a Só pra Dançar, empresa especializada em festas para o público com mais de 30 anos.

Depois da falência da Varig (o marido é piloto), mudou-se com a família, de mala e cuia, para a China, e por lá viveram cinco anos. Como não trabalhava, o foco era a adaptação dos filhos à nova realidade. Só com o inglês não dava para viver, então decidiu estudar mandarim. Até aqui, Leila já é minha mais nova musa.

O Qatar veio como consequência, novamente em função do reposicionamento do marido no mercado da aviação, e lá se foram todos viver em Doha. Aprofundou-se no estudo do islamismo e da cultura local, extremamente diferente da nossa, e, por meio de uma amiga, recebeu seus primeiros turistas.

“Já havia pensado no Qatar, mas jamais imaginei que a chance de visitar esse país fosse chegar tão cedo”, conta Leila, que é uma enciclopédia ambulante. Sabe tudo e muito sobre o lugar, o que é um grande presente para nós, turistas e curiosos. Sei mais sobre o islamismo e sobre a história daquele país após o crash course da Leila do que saberia em uma vida.

Um mergulho na cultura de Doha

Foram quatro horas de pura cultura, e ela desempenha seu trabalho, que antes era um hobby, com maestria. Dedicada aos mínimos detalhes, um passeio guiado por ela é uma explosão de cores, sabores e histórias para ficar pra sempre na memória. Faz parte até do idioma. Laila significa “boa noite ou feliz noite” em árabe, e quem estiver em Doha com ela pode estar certo que não terá uma boa, mas sim uma ótima companhia!

Além de guia, é também colunista do Qatar News 2022, assinando a coluna “Mala e Cuia no Qatar”, que não poderia representar melhor essa gaúcha descendente de libaneses. Fiquei fascinada por ela, pela sua história e energia — principalmente pelo lugar em que vive. Para quem um dia pensa em ir a Doha, já aviso: a viagem não será a mesma sem Leila.

Não gosto da palavra turista, porque sempre imagino o pior: gringos de sandálias e meias brancas, grupos de japoneses com guarda-chuvas em punho, gente que se estapeia para tirar uma selfie com a Monalisa, no Louvre, mas que nunca ouviu falar de Leonardo da Vinci; gente aglomerada sob um frio desumano na Times Square para ver uma bola cair na virada do ano (depois de 15 anos aqui ainda não entendi o significado daquela bola e preciso de uma Leila que me esclareça essa incerteza cruel), mas a riqueza de detalhes, fatos e fotos incríveis daquele lugar me fazem sempre voltar e reviver cada segundo. Leila, claro, tem grande responsabilidade por isso — a começar pelo seu perfil no Instagram, @turistandoemdoha, com seus mais de 34K seguidores.

Doha: dicas da Leila

Leila Martinez em Doha

Lugar predileto

Souq Waqif — melhor lugar para apreciar a cultura árabe. Leila está lá também para desmitificar as barbaridades e preconceitos com a cultura islâmica.

Curiosidades

Para confundir turista de primeira viagem, a sexta-feira lá é o nosso sábado. Semana útil vai de segunda a quinta. Sexta e sábado equivalem ao fim de semana.

Melhor época

Outubro a maio. Os outros meses do ano são para esquecer! O sol, mesmo no inverno, é intenso. As temperaturas atingem 60 graus Celsius no verão, e ainda tem tempestades de areia. À noite, as temperaturas caem, especialmente no deserto.

Para comer

Parisa, um restaurante iraniano dentro do Souq Waqif. Segundo Leila, “você se sente dentro de um caleidoscópio”, e a decoração é espetacular. IDAM, do Chef Alain Ducasse, dentro do Museu de Arte Islâmica, três estrelas Michelin e decorado por Phillipe Starck.

Sobre a cultura

Guia Marhaba, em inglês somente, ou siga @turistandoemdoha. Bebidas alcoólicas não são permitidas fora dos hotéis. Para residentes, o alcohol permit é a única salvação. Para biquínis brasileiros e sua cervejinha, Leila sugere fazer uma reserva num hotel com praia privativa. Passeio imperdível: safári no deserto.

Dicas para os turistas

Para fotografar um qatari, pergunte antes. As mulheres não podem ser fotografadas (só se autorizarem). Seja simpático! “A hospitalidade é um dom que todo o árabe preserva no coração”, diz Leila, “sempre vai ter alguém pra oferecer um chá, um café ou… tâmaras”. Olha que chic essa dica da Leila! As tâmaras estão pela hora da morte aí em Porto Alegre!

O que vestir em Doha

O que se veste normalmente no Brasil, mas seja discreto e use o bom senso. Ombros não são para estar à mostra. Minissaia, shorts e tops não são bem vistos no Qatar. Leve sempre uma echarpe. Respeite o dress code.

Leila Por Leila

Um híbrido cultural. Uma mulher totalmente transformada pelas culturas que experimentou, mas em casa nunca faltaram o chimarrão, a bandeira brasileira, a churrasqueira, fotos e música boa. Menos preconceituosa, mais aberta, mais corajosa.

De Nova Iorque, Cristiane Cavalcanti Buntin

CategoriasBá, que Viagem

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