Desespero Foto: Heloisa Medeiros

Foto: Heloisa Medeiros

Quais as cores e as formas do desespero? Onde ele mora? Do que ele se alimenta e quais os riscos para a saúde? Qualquer semelhança com as enigmáticas chamadas do Globo Repórter não é mera coincidência.

Difuso e discreto, percorre os trajetos mais obscuros e densos dentro de nós. De uma hora para outra, surge, abrupto, veloz, destemido ou fatal. Nos filmes e na literatura, o fundo do poço sempre pareceu escuro, gelado e sombrio — um lugar enredado, lamacento, difícil de se movimentar e de sair.

Se a estética do fundo do poço pode ser bem simbólica no nosso imaginário, “ser/estar” em desespero (em um constante fundo do poço particular), mesmo que apenas por alguns momentos na vida, é quase indescritível. Vou tentar: para mim, o desespero tem a forma de um espiral que a mente humana cria no próprio inconsciente para, em seguida, aprisionar-se em um giro de pensamento obsessivo e sem saída — um círculo vicioso de angústias, que geram frustrações, provocam angústias ainda maiores e, por sua vez, causam frustrações cada vez mais potentes e espaçosas.

Acho que todas as pessoas sentem em algum momento da vida, mas, se somado a essas circunstâncias houver um distúrbio mental, vício ou compulsão comportamental, fica ainda mais difícil (jamais impossível) sair da “roda-viva” de ideias confusas e tendências depressivas. Temos visto muita gente desistindo radicalmente de lidar com essa ferida emocional, e que só conseguem pular fora do esquizofrênico espiral tirando a própria vida (de fato), ou lentamente, em uma existência vazia e miserável.

O desespero é democrático, não tem idade, não liga para beleza, inteligência ou ideologia e, tampouco, escolhe contas bancárias mais recheadas. Sem pedir permissão, ele encarna e cresce em quem está vulnerável.

Uma perda, um novo desafio, uma mudança que não estava planejada, uma doença grave, uma dor física, uma impossibilidade ou uma dificuldade qualquer dessas tantas que a vida nos enfia goela abaixo a todo o tempo… Pronto! É o que basta para que o desespero invada as pessoas com sua energia estranha e voraz. Um tsunami furioso de desesperança, que nasce valente nos cantinhos mais confusos da nossa (ir)racionalidade, passa silencioso e covarde pela nossa laringe e, ao invés de (dali trocar uma ideia com o cérebro) sair de nós gigante em um pranto aliviado, um abraço apertado ou num grito de socorro, ele segue a percorrer impiedoso nossas entranhas em forma de “nó na garganta”, paralisa a respiração e, em completo pânico, invade largo o nosso centro (onde mora o conhecido “aperto no peito”), ignorando a abundante e pulsante vizinhança do coração. Não antes de sufocá-lo com a sua fúria desenfreada, distribui feito um polvo frenético um desânimo avassalador para todas as partes do nosso corpo. O único desejo que faz sentido é acabar com as cenas repetitivas que têm sido os dias e as noites com o brutal e insistente hóspede.

É nessa hora que o desgraçado se agiganta (a minha mãe me diz, desde pequena, para fugir dessa palavra “desgraça” e de todos os seus desdobramentos, mas ela cabe aqui como uma luva. Desculpa, mãe), invadindo a corrente sanguínea. Se não nascemos doentes, tornamo-nos. O sorriso perde o jeito, o olho perde o brilho, as palavras não se combinam, o viço já foi embora. O espiral está sólido e agressivo, como metástase na totalidade do espírito dos desesperados. Nem a razão e nem os afetos valem alguma coisa quando o câncer é na alma.

Desesperar-se é ter o dial da alma permanentemente desintonizado — uma rádio de grunhidos perturbadores e ruídos repetidos — sem música ou informação; só agonia, medo e desinteresse.

Para que comer se os cheiros não importam mais? Ou comer tudo o que enxerga para preencher um vazio sem fim? Um toque não passa de um toque, porque a carne já não lembra o que é o prazer. Beleza nenhuma significa mais, então para que olhar atento para lugar algum se você já não é capaz de escutar nada e nem ninguém, estando em uma enlouquecedora ausência de sentidos.

O Projeto Cine Sentidos, produzido pela Lora e o Instituto Ling, no último sábado, aborda isso. O filme, exibido depois da experiência de sutilização corporal da artista Carina Sehn, é um soco certeiro no âmago. Corpo e Alma (2017), do húngaro Ildikó Enyedi, conduz-nos a uma questão tão necessária para enfrentarmos o desespero; quanto vale um sentir? Não tem Globo Repórter que responda.

Uma semana repleta de sentidos para nós todos!

P.S.¹: a depressão atinge mais de 300 milhões de pessoas de todas as idades no mundo segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, a estimativa é que 5,8% da população seja afetada pela doença.

P.S.²: mais informações sobre o Cine Sentidos pelo www.institutoling.org.br.

Por Mariana Bertolucci

  1. Graca Bins says:

    Wowwwwww …
    Me encherguei um pouco nessa ..
    Mas se por um acaso vale um elogiou;
    VC ESCREVE MALHAVILHOSAMENTE BEM MINHA AMIGA !!
    Bjo grande

  2. Regina Motta says:

    Muito muito interessante. Forte. Verdadeiros. Profundo. Sem maiores elucidações. Sem duvida o desespero é o câncer da alma. Para pensar muito e evitar se possível.

  3. Lelê says:

    Sensibilidade: o que mais transborda nas tuas palavras… certeira e delicada ao descrever a “desgraça” que atinge a todos os seres humanos em alguma fase da vida…

  4. Maria da Graça Alves Coelho says:

    Mari! Impressionante a precisão de tuas palavras, cheguei a sentir um aperto no peito. Teu texto sempre maravilhoso! Parabéns !

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