cronica-felicidade-macacos

Acordei sem vontade de levantar da cama na última segunda-feira. Não era para ser aquele dia superanimado em que o ano ia de verdade começar? Pois o meu não foi. Tinha até sol, o que nem sempre garante absolutamente nada.

Ignorei o despertador do celular e só reagi quando a minha filha disse: “Mãe!!!! Eu não posso me atrasar para o colégio!” Como um zumbi, sem força ou qualquer pensamento na mente (nem bom, nem ruim, apenas um atordoante oco interno), fui até a cozinha e iniciei minha rotina. Organizei o café dela (sim, ela já tem idade para organizar sozinha… mas…) e providenciei água morna com limão e uma pequena xícara de café preto para iniciar aquele dia que não prometia. Enquanto ela se ajeitava e me apressava, já ciente da minha lentidão matinal (bem petulante como são as pessoas de 13 anos), eu pensava de que forma me livraria, o mais rápido possível, daquela sensação que impregnara em mim naquela manhã. Deixar de levá-la ao colégio eu não podia, mas dirigir de pijama até lá e voltar direto para a cama era uma decisão somente minha.

Na dúvida, não deixei o desânimo (disfarçado de preguiça) me invadir por total e coloquei a roupa da academia. Vá que… eu me anime. De pijama no trânsito eu acabaria com qualquer chance de voltar a ser feliz nas próximas horas — para que tanta pressa de ser feliz logo de manhã cedo, né?! Um nervosismo já invade a gente e parece que não podemos esperar a felicidade até às 14h. Não me animei muito, não, mas insisti. Na aula de yoga, a vigorosa prática de Ashtanga do Leo logo devolveu parte da minha frágil energia — a uma altura da vida sabemos o que nos dá e o que nos tira energia, e são tantas coisas para ambos os lados que é uma árdua delícia equilibrar essas forças.

Pensava, então, que a minha angústia por ter acordado vazia e a expectativa constante que temos em ser desesperadamente felizes e completos também atrapalha nosso desenvolvimento. Uma colega hinduísta, sabendo do meu recente interesse sobre as práticas de meditação, convidou-me para conhecer o centro que ela frequenta. Há algumas semanas, a Dê me contou que, para captar e entrar no estado de meditação, não podemos ficar fixos no vazio do pensamento, bloqueando qualquer sensação ou sentimento da mente e do corpo. Venham comigo: se eu disser que tens que ver um macaco ali, tens que ver um macaco ali. “Tens que ver um macaco ali”… não é só por isso que tu vais enxergar um macaco que não está ali — aliás, desse jeito, tenso, esse macaco vai ficar cada vez mais distante da tua imaginação.

Sem autocobrança, com calma, respiração e alguma serenidade; se você começar sem pressa, respeitando seu tempo e jeito, desejando enxergar o vulto de um macaco, pode ter certeza que você será capaz de vislumbrar e visualizar a macacada inteira, alegre e arteira, brincando e pulando no seu imaginário. Essa obsessão perturbadora que nos cobra que exalemos por todos os poros a sensação de felicidade e uma leveza de espírito permanente não ajuda a construir e fortalecer em nós os mecanismos que nos levam, com mais facilidade, à cobiçada e, por vezes, inalcançável felicidade.              

Para não se tornar o cachorro que corre atrás do rabo, afoito, urgente, nervoso, sem saber bem o que quer e como vai encontrar, a felicidade exige calma, paciência e algum planejamento. Calma para saber discernir o que nos alimenta a alma e nos alegra, e o que apenas floreia e enfeita nossa vida. Também é bom e delicioso conhecer novos lugares, pessoas e sabores, e por que não vestir roupas novas e graciosas?! Mas aí não reside a garantia de nada. Exige paciência no caminho, porque o buraco da felicidade é muito mais fundo do que parece — profundo, denso e abstrato.

Ser feliz é quase uma obra de arte! E não encontramos obras de arte em qualquer esquina, mas temos também tantas e tão lindas por aí, né!? Cada um a encontra e a vê de um jeito. A felicidade não é óbvia, não é simples, não é diária, não é automática, não tem sobrenome, nem olho azul, horário marcado ou cabelo encaracolado. Felicidade não tem cor, nem grife, nem sotaque e, tampouco, cabe somente nas palavras. Ela tem que surgir suave e vibrante. Deve ser uma luta incessante, porém natural, com coragem suficiente para ser ausente, sentir dor, abandono, desencaixe, saudades eternas.

E, quando ela some do nosso palco de atuação e se esconde em nossas camadas mais misteriosas, precisamos planejar com cautela e força esse resgate da danada, que pode ressurgir triunfante e ainda mais potente se soubermos ser calmos, pacientes e atentos a nós e a todos que estão a nossa volta. Esse plano de resgate exige abraços mais longos, olhares mais generosos, respirações mais profundas, desejos mais simples, noites mais dormidas, toques mais demorados, conversas mais verdadeiras, sorrisos mais acolhedores e um tanto de esperança na humanidade. Eu sei que é fácil falar, que escrever cura, mas também que não podemos desistir.

Por Mariana Bertolucci

  1. Ana Piccoli says:

    Gostei. Achei verdadeiro. Temos q parar c esta necessidade de sempre sermos felizes. Demonstrar felicidade . E , infelizmente, quanto mais nos damos conta da realidade da vida , mais dificuldade encontramos para esta dita felicidade . Existem momentos!! Bjs , sucesso!!

  2. Fernanda says:

    Perfeitas tuas palavras Mariana!!!Coincidentemente caiu como uma luva,um conforto p dia de hj ,obrigada e parabéns,bela escritora! Bjs Fernanda koch

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