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Coringa — baseado em danos reais

Coringa - Mariana Bertolucci

Só entendi a curiosidade e o desconforto que senti ao ler os textos e relatos tensos e perplexos sobre o filme de Todd Phillips, quando sentei no cinema com um balde de pipoca meio salgada, meio doce na mão. Se você também já assistiu Coringa compreenderá melhor o que quero dizer. 

A minha amiga Gláucia Gonçalves me ligou (algo que nem se usa mais) e disse: “Oi, vamos ver Coringa?” Na hora: “Vamos!”. O filme acabou depois de  2h02min, levantamos mudas e seguimos assim mais uns minutos caminhando. 

Olhei para a Fabiana Fagundes, nossa outra amiga e parceira de pipoca e disse: “Vou ter que escrever sobre isso.” Ela respondeu: “Ah, mas pode te preparar que tu vais precisar de uns bons dias para digerir o Coringa.” 

Levei mais de dez dias para colocar para fora com alguma coerência toda a confusão que a existência desconcertante do personagem de Joaquin Phoenix têm causado no longa-metragem lançado no início de outubro. Recorde de bilheteria alcançando a soma de US$ 1,17 milhões, com projeção de somar quase US$ 2 bilhões.  

O filme dá no meio de cada Coringa que existe em nós. E são tantos. Só não enxergou muito do mundo de hoje e dos seres humanos que nele habitam, na atordoada trama, quem ainda não assistiu. Ou quem não tem espelho em casa, no carro, no trabalho, na alma. 

É verdade, andamos muito distraídos. Por isso mesmo é que, devidas proporções (ou não seria arte, e sim realidade) estamos TODOS entranhados nas cenas, nuances, ações e reações de cada um dos personagens do pequeno núcleo da história. 

Adoecidos emocionalmente, amedrontados, culpados, perdidos, inadequados, cruéis, incompreendidos, machucados, egoístas, abusados, gananciosos, frágeis, traumatizados, oprimidos, remediados, abandonados, chantageados. Somos coletivamente covardes atrás das nossas crenças pessoais, familiares, culturais e sociais.  

Tudo se passa numa neurótica e atormentada Gotham City, perdida na década de 70, que não lembra em nada dias felizes de férias e passeios por NY. Arthur Fleck trabalha como palhaço em uma agência, e, toda semana, comparece a uma consulta com a assistente social, para pegar medicação e tentar atenuar os conhecidos problemas mentais. 

Demitido depois de um ato irresponsável e maldoso (de um colega de trabalho) e involuntário (dele próprio), na volta para casa de metrô, ele reage mal à humilhação e agressão de três homens bêbados e (simplesmente) os mata. Os assassinatos dão origem a um movimento popular contra a elite de Gotham City. 

Sim, o filme também não escapa do clichê maniqueísta de que o “rico malvado” maltrata o “pobre injustiçado”. Onde vale o que temos ou parecemos ter, e não o que somos ou sentimos. Manda quem tem, obedece quem precisa. Sabemos disso porque estamos aqui vivendo juntos o mesmo tempo e a regra, queira você ou não, é mais ou menos assim. 

O que nada tem a ver com esquerda, direita, centro, meio, para o alto, para cima ou para baixo! Muito menos com a classe social ou poder econômico. 

É urgente que antes de sermos seres políticos, posicionados, justiceiros, odiosos, ricos ou pobres, entendamos que tudo o que necessitamos de verdade, é sermos mais humanos. Acima de tudo. Para que não nos tornemos pungentes: rígidos e aguçados. Capazes de ferir, perfuradores, pontiagudos, que provocam dores vivas, penetrantes e cáusticas. Como é história do filme que arrebatou o Leão de Ouro, prêmio máximo do 76º Festival Internacional de Veneza e tem tudo para continuar sendo premiado até o Oscar de 2020. Chocante, duro. Ficção de cara com a realidade.

A força e a verdade da interpretação do grande ator e protagonista embala, empurra e provoca ainda mais a identificação e o medo que temos da loucura (em massa, então!) que também é tão humana. 

Mas o pior encontro mesmo é com nosso Coringa cotidiano. Como eu fiz há três dias ao voltar (veja bem…) da minha aula mara de Yoga na Ineex. Eu moro à direita da 24 de Outubro, uma rua movimentada, que dependendo do horário, se eu não dirigir pelo lado da direita quadras antes do meu prédio, não consigo entrar em casa. 

Abri a janela, dei o sinal de luz e acenei com a mão para uma motorista que estava ao meu lado no trânsito. Ela arrancou brava tomando a frente e me deixando um dedo médio (sim, esse mesmo) janela afora, seguido de um grito que não entendi. Na mesma hora eu retribuí com o gesto do dedo. Raivosa, sozinha e sem gritos. Assim ficamos as duas, Coringas de dedo em riste, até que eu entrasse na garagem e ela seguisse seu trajeto. 

Então, lembro do que disse a minha amiga e cineasta Lívia Ruas ao falar do seu belo e necessário filme Levítico 20:13 — A Cura, exibido há pouco na CCMQ: “Tudo na vida é baseado em danos reais”.

“Há muitas maneiras de matar uma pessoa. Cravando um punhal, tirando o pão, não tratando sua doença, condenando à miséria, fazendo trabalhar até arrebentar, impelindo ao suicídio, enviando para a guerra etc. Só a primeira é proibida por nosso Estado.” — Bertolt Brecht

Por Mariana Bertolucci

  1. Jeanine Motta says:

    Teu texto irretocável repete o q tenho ouvido de tantas pessoas q assistiram… Decidi não assistir por um único motivo: auto-cuidado!!! Sim, pq estou vulnerável e, no momento, preocupando- me exclusivamente em não me chocar, ou não questionar nada… mas qdo puder vou assistir. A vida não é o Insta, e eu sei bem, mas tem momentos que temos q pegar leve … Parabéns e um beijão. Bom domingo.

  2. Virgínia Rhoden Martins Costa says:

    Adorei teu texto! Não vi o filme. Vou correndo assisti-lo. O que mais me tocou foi tua análise tão lúcida e tuas palavras tão exatas sobre o nosso cotidiano que se revela na história do Coringa. Parabéns Mariana!

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