Robinho em entrevista ao UOL

Queria escrever sobre algo mais leve e inspirador. Mas tem histórias, causas e personagens que perseguem meus pensamentos até que eu as expulse aqui para vocês, em forma de palavras. Sou jornalista, mulher e minha filha, Antônia, faz 15 anos em seis dias. Nem a pandemia que há oito meses nos mantêm em casa reféns de um vírus ainda misterioso, nem o dinheiro nas cuecas do senador, a privatização do SUS ou a eleição nos Estados Unidos fazem frente ao que me traz aqui hoje: o estupro coletivo de que o jogador Robinho é acusado na Itália.

Se a justiça italiana ainda não condenou Robinho em todas as instâncias, as transcrições que o GE Globo levou à público e a postura do acusado em recente em entrevista ao Portal UOL anteciparam o veredito.

Na entrevista, o jogador, que teve seu contrato com Santos suspenso pela repercussão das revelações, afirmou que seu único arrependimento foi ter traído a esposa. Ah, nosso atleta de Deus e “cristão de carteirinha” ainda complementou cheio de dignidade que tem o tal de “movimento feminista”, para atrapalhar.

Quem pensou que foi mais um caso de farra e oportunismo entre celebridades do mundo do futebol com Marias Chuteiras e afins, enganou-se. Quero a sua atenção. Se você só espiou a notícia por alto, nas redes sociais ou na mídia e não deu muita bola pensando que “jogador de futebol é tudo igual”, peço encarecidamente que me acompanhe. Só um pouco mais.

O crime do qual Robinho e mais cinco amigos são acusados é de estupro coletivo de vulnerável, que teria acontecido em janeiro de 2013 em uma festa particular na Boate Sio Café, em Milão. As gravações transcritas de escutas no carro e interceptações telefônicas realizadas durante as investigações do processo foram as bases das condenações dos seis brasileiros em novembro de 2017. A escuta instalada no carro de Robinho e o grampo no seu celular (medidas autorizadas pela justiça italiana), além de não deixarem dúvidas, são repulsivas.

A albanesa, que comemorava 23 anos naquela noite, foi para a festa a convite de um dos acusados. Segundo a sentença, a vítima foi levada para um camarim da casa noturna depois do show do músico e amigo do jogador, Jairo Chagas. Ninguém “ouviu falar” ou “ficou sabendo”. Foram as próprias palavras em VIVA VOZ do jogador e do seu parceiro de acusação, que derrotaram Robinho de goleada. Todos os seis sabiam que a moça estava inconsciente:

Falco: “Ela se lembra da situação. Ela sabe que todos transaram com ela.”

Robinho: “O Fulano tenho certeza de que gozou dentro dela.”

Falco: “Não acredito, naquele dia ela não conseguia fazer nada, nem mesmo ficar em pé, ela estava realmente fora de si.”

Robinho: “Sim.”

Em outra gravação, em 2014, o jogador afirma ter visto os amigos pegando a vítima com força, e admite que ele próprio tentou fazer sexo com ela, mas não conseguiu. Robinho debochou: “Estou rindo porque não estou nem aí, a mulher estava completamente bêbada e nem sabe o que aconteceu”.

No País do Futebol, onde faltam livros e sobram ídolos e fake news, contar uma história baseada na verdade dos fatos nunca foi tão necessário. Me consola a certeza de que você parou de rir, né Robinho? Talvez você tenha demorado um pouco para perceber que o que fez ao lado dos seus amigos não é engraçado. É trágico.

Acabou com a sua trajetória e carreira brilhantes e vai ajudar a diminuir bastante a sua fortuna também. Sabe por que, Robinho? Porque aqui no Brasil — esse país pobre e imenso que o consagrou um ídolo — só no ano passado, 66.123 mulheres também foram estupradas assim como a aniversariante daquela noite em que você e os seus amigos saíram para se divertir.

Dessas mulheres, 57,9% são crianças de até 13 anos, bem na faixa etária da sua linda filha caçula. Só aqui no nosso país, onde você um dia foi digno de exemplo e referência da molecada — a cada 8 minutos uma de nós é estuprada. Todos os dias. Há décadas, há anos, há séculos. 

Isso pode ser engraçado, Robinho? Você está recorrendo da condenação em liberdade. Mas no próximo dia 10 de dezembro, na primeira audiência da segunda instância, que iniciará uma nova análise do seu processo, na Corte de Apelo de Milão, eu, e MILHARES DE MULHERES no Brasil e mundo inteiro estaremos atentas, torcendo por uma decisão definitiva da justiça italiana que te leve para trás das grades.

Porque não existe mais medo ou preconceito que sejam capazes de nos calar, e apesar do machismo e da hipocrisia que ainda reinam no universo do futebol e em tantos outros, as cabeças, as espinhas dorsais e os corações das empresas mais poderosas do mundo hoje estão repletas de homens dignos e mulheres capazes e fortes como nós. Iguaizinhas a menina que você é acusado de ter ESTUPRADO há sete anos. 

Esse é o novo mundo corporativo e capitalista, e é preciso que as pessoas como você e os seus amigos se adaptem às nossas NOVAS REGRAS. 

Tchau, querido!

Por Mariana Bertolucci

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    1. Gislaine Rial says:

      Você mais do que ninguém sabe, que costumo ler sempre o que você escreve e descreve com tanta simplicidade, dando sempre ênfase aos fatos, sejam eles bons, ótimos e excelentes …. e que costumo muitas vezes comentar ou me atrevo muitas vezes até opinar, mas sempre no reservado , más realmente hoje precisei me manifestar e apoiar toda e qualquer palavra escrita por você. Sempre fui grande admiradora do trabalho dele, mas hoje estou triste, por ter me decepcionado, mais comigo mesmo do que com ele, pois a gente cria expetativas sobre as pessoas que admiramos , quando elas não agem de acordo com os nossos princípios …. nos decepcionamos muito mais com nos próprios do que com esses que aprendemos a admirar ….
      acabou aquele moleque, alegre feliz e sorridente
      INFELIZMENTE

  1. Francis Lummertz Santos says:

    Maravilhosa! O pior é sabermos que essa cultura do estupro é mais comum do que pensamos, em uma sociedade machista e retrógrada. Que vá pra cadeia esse bagaceiro. Bjo, Mari!!

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