Desde a última segunda-feira, quando caiu o helicóptero em que você estava, não sei mais se é verdade que ninguém é insubstituível. Você, Ricardo Eugênio Boechat, ainda parece ser.

É ruim aceitar que não saberemos mais o que você descobriu antes de todo mundo, ou o que pensaria sobre Brumadinho, os garotos do Flamengo, as prisões da Lava Jato ou as (in)decisões do Supremo, bem como sobre todas as notícias e injustiças que nos afligem, confundem e desanimam todos os dias. 

Quando não sabíamos mais o que pensar ou em quem acreditar, era a sua voz lúcida que guiava muitos de nós em uma marcha sem trégua (você era incessante) contra tudo que nos oprime: injustiça, corrupção, negligência, tragédia, esquecimento e impunidade. Como logo você pode também ter sido vítima do mesmo ciclo vicioso que tanto combatia.

A sua opinião sensata tinha o poder quase imediato e a clareza de formar a minha e a de tantos outros colegas nossos. Eu dizia que um dia você seria minha capa da  com estrelinha.  Você era um tipo de pessoa que não deveria ter a permissão de sair do nosso lado agora.

Eu nem sabia o quanto, até a última segunda-feira, mas você, Boechat, era a personificação de tudo o que eu sempre acreditei na vida, desde que fui fisgada pela nossa profissão.

Para você é muito mais gratificante traduzir o Brasil para quanto mais gente fosse possível do que impressionar intelectuais com teses blasés, autores gringos e palavras difíceis. Pauta das rodas de amigos, dos almoços de família, os seus pensamentos sem curvas, suas frases firmes e o seu raciocínio genial e generoso chegavam a nós, todos os dias, do mesmo jeito (que era o seu jeito): livre, isento, sem preconceito, rodeios, ensaio ou rascunho — quase sem equívocos, que quando aconteciam, você exibia lindamente uma virtude que talvez fosse ainda mais poderosa do que o seu talento e capacidade de organizar informações: a sua humildade. 

Você teve bons professores e parceiros de profissão, como Zózimo Barroso do Amaral e Ibrahim Sued, entre outros, e soube tirar proveito disso, aprendendo com eles e, como sempre, trocando com as pessoas. 

Nas primeiras décadas da sua carreira, além de faturar três Prêmios Esso (o mais importante da imprensa brasileira), você foi um dos colunistas mais lidos e influentes do país, revolucionando o colunismo de notas. Atraindo com a verdade e uma incansável responsabilidade todos os olhares da opinião pública para o olho do furacão da política e da economia.

Mas foi nessas últimas duas décadas que você se superou. Entrou com tudo no cotidiano, nos ouvidos, olhos, mentes e corações dos seus telespectadores e ouvintes. Só sendo você mesmo… Tem coisa mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil? Organizou, bagunçou e remexeu os pensamentos da população brasileira com seu eficiente e, muitas vezes, explosivo e indignado equilíbrio diário. Sua espontaneidade e intimidade com TODAS as pessoas nos deixaram próximos a ponto de sentir a sua partida como sentimos a de amigos e parentes queridos. Do Ministro do Supremo à cozinheira, do empresário liberal à feminista empoderada. Você falou tudo o que gostaríamos de ter falado e o que queríamos ouvir e reforçar em nós mesmos: queríamos e continuamos querendo saber o que está acontecendo — fazer perguntas sérias para as autoridades e órgãos públicos, xingar, chorar, berrar na cara de políticos, presidentes, empresários, falar palavrões e colocar o dedo no nariz e na ferida de quem quer que esteja nos sacaneando. 

Você nos representou tanto e causou essa comoção nacional porque pensava e sentia exatamente como nós — porque você sempre foi mais gente do que qualquer outra coisa na sua vida, nunca se colocando em um lugar distante ou acima de ninguém — o que, às vezes, ocorre com as pessoas que têm bastante poder, como você tinha até a última segunda-feira — muito menos do seu público fiel, que sabia o número do seu celular. 

Você, Boechat, chegando atrasado de Twingo, com blocos e papéis na mão e sorriso no rosto, tinha na ponta da língua as palavras certas que faziam a diferença nos nossos dias, explicando sem cansar, que só se atinge o coletivo se cada indivíduo fizer o seu papel. E fazer o seu papel não é só reclamar no Facebook.

Você também encontrava tempo na sua vida para corrigir e elogiar os colegas e isso é tão precioso. 

Consciente da importância que você vinha ganhando nas nossas vidas, você foi encontrando cada vez mais coragem dentro de você para seguir cumprindo, com potência, elegância e bom humor, a sua missão de ser a nossa voz — no plural. Sem temer nada e ninguém. Você enfrentava governador, juiz, presidente da república, empresário, patrão e voava de helicóptero para fazer o seu jornalismo. Rápido, destemido, sem barreiras. Você sempre teve mais vontade do que medo. Você se realizava tocando a vida das pessoas. 

E você tocou, viu, Boechat? Você ajudou a tocar o barco de muita gente também. Quando contou sobre o seu episódio de depressão, mais uma vez mostrou sua grandeza, e que a graça da vida é compartilhar. Então, Boechat, que você siga em paz — que vá feliz como você ia na garupa da moto dos colegas, dando um furo ao vivo, em rede nacional ou gargalhando deliciosamente ao lado do seu eterno companheiro José Simão. 

Aprendemos com você, Boechat! 

Nos unimos de norte a sul, da esquerda para direita, de todos lados e jeitos pela dor da tua ausência. Vamos tocar o barco, nas águas tranquilas e principalmente nas agitadas, e é você, Boechat, quem estará para sempre no nosso horizonte.

Por Mariana Bertolucci

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  1. Jucélia says:

    Deveria colocar pra que pudéssemos compartilhar. Quero guardar!!! Vc conseguiu simplesmente traduzir em palavras p que era o Boechat. Não sei vcs, mas o meu vazio ainda está enorme! 😭

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