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Musa Eterna: Bruna Lombardi fala sobre inspiração e a paixão pelo cinema

O nome é uma homenagem aos avós, mas bem que poderia ser de alguma rainha de outro século. Não bastassem os olhos azuis fulminantes, a delicadeza nas palavras e nos gestos, Bruna Patricia Romilda Maria Tereza Lombardi ainda nasceu com esse nome. 

E a história não poderia ser mais de cinema. O pai, diretor de fotografia e cineasta italiano, Ugo Lombardi, conheceu a mãe, a atriz Yvonne Sandner Lombardi, em um set de filmagens em Roma. Ele trabalhou muito com Federico Fellini, inclusive veio para o Brasil por causa da sétima arte. O casal trocou Roma pelo Brasil quando Bruna nasceu, em 1º de agosto de 1952. “Quando abriram a Vera Cruz aqui, os investidores contrataram profissionais para vir ao Brasil ensinar cinema. O meu pai era uma dessas pessoas. Não eram muitos — acho que uns quatro vindos da Itália e da Inglaterra”. Ela e o irmão mais velho cresceram entre latas de filmes e artistas de cinema.

  “Minha casa era sempre frequentada por gente de cinema, de teatro, artistas plásticos, escritores. Minha vida sempre foi muito próxima do mundo artístico. Minha mãe me trouxe a emoção e a magia, e meu pai, a razão, a lógica e a curiosidade cultural. Vim com a paixão pelo cinema no DNA.”

Muitas vezes, quando o pai estava no set e a equipe precisava de uma garotinha em cena, Bruna era lembrada: “Eu ia só de farra, mas fiz muitas participações tanto no cinema quanto na televisão ainda menina”. Não pensava em ser atriz até que, aos 14 anos, foi convidada para fazer algumas fotos. Começava uma bem-sucedida carreira de modelo, posando para diversas capas de revistas do país. Em pouco tempo, ela era uma das protagonistas de Sem Lenço, Sem Documento (1977), novela de Mário Prata, na Globo, em que interpretou a manequim e escritora Carla. Ficou famosa em todo o Brasil. A essa altura, já tinha publicado seu primeiro livro de poesias.

Em 1978 foi contratada pela TV Tupi para ser protagonista da novela Aritana, quando, durante um voo para o Xingu, conheceu o ator e diretor Carlos Alberto Riccelli, seu marido há 40 anos e pai de seu filho Kim.

A volta para a Rede Globo foi para atuar na minissérie Avenida Paulista, de 1982. No ano seguinte, deu vida à Patrícia, de Louco Amor, escrita por Gilberto Braga. Em 1984, Bruna publica O Perigo do Dragão, livro de poesias que dá fim à trilogia que iniciou em 1976, com sua poderosa estreia na literatura, No Ritmo Dessa Festa, com prefácio assinado por Chico Buarque e lançado na Feira do Livro de Porto Alegre, seguida por Gaia (1980). Em 1985, deu vida a Reinaldo Diadorim na minissérie Grande Sertão: Veredas e, em 1986, protagonizou o sucesso Memórias de um Gigolô e a novela Roda de Fogo, todos na Globo. Os anos seguintes foram mais dedicados ao filho e à literatura. Além da trilogia poética, Bruna escreveu mais sete obras. Entre elas estão:  Diário do Grande Sertão (1986), um registro poético das filmagens, o infantil Apenas Bons Amigos (1987), os romances Filmes Proibidos (1990) e Meu Ódio Será tua Herança (2004), o roteiro do filme O Signo da Cidade (2008), o de autoajuda Jogo da Felicidade (2015) e o de poemas Clímax (2017).

Como entrevistadora, a bela também foi muito bem-sucedida. Em agosto de 1991, mesmo ano em que foi capa ícone da Playboy, a loira estreou seu programa Gente de Expressão, na Rede Manchete, que era uma das atrações mais esperadas no final das noites de domingo. Em 1996, o programa foi reformulado e passou a ser exibido na Bandeirantes. Foram entrevistadas pela musa muitas personalidades do quilate de Mariah Carey, Dustin Hoffman, Jean-Claude Van Damme, Mel Brooks, Tom Hanks, Harrison Ford, Tom Jobim, Keith Richards, Hebe Camargo, Rita Lee, José Wilker, Paulo Coelho e Jon Bon Jovi — cantor com quem Bruna passou por uma descompostura depois de levar uma cantada deselegante e machista no ar. 

Em 2002, ela volta para fazer Branca Camargo na série “global” O Quinto dos Infernos. A partir de 2005, ao lado do marido, a quem chama carinhosamente de Ri, e do filho Kim, atuou como roteirista, produtora e atriz nos filmes Stress, Orgasms and Salvation (2005), Sob o Signo da Cidade (filme de 2017, que levou o prêmio de melhor filme pelo júri popular no Festival de Brasília), Onde Está a Felicidade? (2011) e o mais recente Amor em Sampa, lançado em 2016 com orçamento de R$ 8,5 milhões, no qual ela não apenas foi uma das protagonistas como também escreveu o roteiro, bateu na porta das empresas para levantar o financiamento, ajudou a coordenar a produção e a cuidar do lançamento. O projeto mais recente dos Lombardi Ricceli é a série de dez episódios da HBO A Vida Secreta dos Casais.

Multitalentosa, a ex-aluna do Colégio Dante Alighieri, formada em Comunicação na FAAP, jornalista, poeta, atriz, produtora, escritora, roteirista e palestrante, sempre foi curiosa com as questões mais essenciais e simples da vida. Um canal dessa troca intensa com o público é a Rede Felicidade, em que há um ano Bruna trata de assuntos e temáticas que seus livros e também os filmes abordam: “São muitos comentários e perguntas, e ali consigo interagir melhor com a ajuda das redes sociais e, hoje, dividir tudo em que sempre acreditei, que é buscar a felicidade e a harmonia”. 

Por conta dessas crenças que ela procura colocar em prática na carreira e na vida familiar, já recebeu convites para palestrar em Portugal, em Harvard e por todo o Brasil também, como foi em Santa Maria, agora em setembro. Sobre trabalhar em família (o filho único do casal formou-se em cinema em Los Angeles, nos Estados Unidos, onde a família passou uma longa temporada), ela explica que, embora todos tenham temperamento forte, muito humor e amor regem a relação familiar no set: “Fomos crescendo juntos, com a proposta de irmos nos melhorando de deixar a vida mais simples. A hora é sempre aqui e agora”. 

Sobre o assalto que sofreram em São Paulo, em maio último, Bruna gravou um depoimento ao lado do marido e do filho agradecendo o carinho e a preocupação dos fãs: “O exemplo dessas pessoas vem de cima. Quando você vive num país em que os governantes e a elite roubam sistematicamente grandes fortunas sem sequer arriscar a própria vida, não se pode reclamar da violência. Não se pode reclamar dos que vão invadir nossa casa. Porque eles têm um exemplo dos poderosos fazendo isso todos os dias impunemente”. Encerramos, assim, sem dúvidas, sobre os motivos pelos quais ela será nossa eterna musa!

Kim, Carlos Alberto Riccelli e Bruna Lombardi

 

Revista Bá Como começaram as manifestações na escrita e na arte?

Bruna Lombardi A escrita está presente na minha vida há muito tempo, desde muito cedo. Aliás, a minha primeira manifestação pessoal foi escrever. Comecei a encher grandes cadernos. Comecei a ter uma repercussão no meu colégio comecei a me destacar representava o Dante Alighieri, uma escola tradicional em São Paulo, de 5 mil alunos. Ganhava os concursos de redação na escola representava a escola no concurso interescolar e invariavelmente eu ganhava. Então fui ficando respeitada desde menina na escola por causa da escrita. E isso significava: “vou ganhar um guaraná”, “vou ganhar um chocolate, um lanche, um sorvete”. Era o que eu cobrava quando as minhas amigas pediam para eu fazer uma prova para elas, um ensaio ou uma redação. Eu fazia, e elas me davam um chocolate, um sorvete.

A pergunta sobre os ônus e bônus da beleza você já não deve mais aguentar responder…

A pessoa é o pacote dela. Então você vem com o seu pacote e é difícil julgar como seria se você não viesse com uma das características que te fizeram andar na vida. Eu sou muito grata pelas coisas que sou e fiz, porque eu acho que fui abrindo meu caminho, mas eu não sinto a beleza como algo que tenha me atrapalhado. É difícil e é fácil em vários aspectos para todos nós. Nós todos temos momentos muito bons, momentos mais duros e aqueles mais difíceis — e assim foi minha vida também. Então, acho que todo mundo supera coisas e tem fortes desafios — enfrenta batalhas, mas vai conquistando o seu lugar; a sua missão, o seu propósito, vai te guiando.

Você não acha que as mulheres se cobram demais por contas dessa prisão estética e ainda do machismo? 

A posição da mulher para mim é fundamental. Eu acho que temos que nos defender, nos ajudar. Nós temos que ser solidárias entre nós — não temos que entrar na cilada da competição. Temos que ir para a boa energia que a união traz. A força está justamente no conjunto — está em somar experiências, desejos, aspirações e dar força uma para a outra. Até porque eu acho que é isso que nos empodera. É saber que a gente não está sozinha. Nenhuma de nós está sozinha! E eu fiz desse trabalho uma missão mesmo. Eu abri a Rede Felicidade, que é um portal que as pessoas estão adorando, que é uma extensão das minhas redes sociais Bruna Lombardi Oficial e do meu canal no You Tube. Tenho feito muitas palestras, inclusive em Porto Alegre, fizemos uma Jornada de Conhecimento pela Rede Felicidade com o Leandro Karnal no Teatro do Bourboun Country.

Foi espetacular — lotou! É um contato muito forte e direto. Tem as palestras e as jornadas de conhecimento, a Rede Felicidade, as redes sociais e os livros, que são um contato muito forte com o público e uma troca constante e imensa em que trato de todos os assuntos que considero importantes e libertadores para os seres humanos — para ajudar os animais, para dar acessibilidade às pessoas que precisam. Enfim, temos diversas campanhas, e eu continuo fazendo esse trabalho e defendendo todas, porque acho que é isso que vai fazer a diferença. E também fazemos isso nos nossos filmes, em todos os filmes que eu fiz, assim como na série da HBO. Em cada um dos filmes você vai ter mensagens. Com um ponto de vista, um conceito, os personagens defendem algum tipo de ética comportamental. Obviamente, tem os debates e os desafios dos próprios personagens, a dramaturgia, mas eu estou sempre focando um pouco do que estou passando nos filmes, porque acho que são canais muito importantes para você ajudar a explicar o que é a ética em um país que está perdendo esse valor. 

Sobre o seu encontro com Ricceli, em 1978, do voo para o Xingu até hoje já são 40 anos de amor e cumplicidade. 

Surpreendentemente! A vida tem essas surpresas. Acho que tem um respeito ao crescimento e à individualidade de cada um — aos erros e acertos, porque ninguém nasce com uma relação pronta. As pessoas caem, derrubam, fazem coisas erradas, fazem coisas certas, vão tateando. E essa é a construção da vida, né? Aí é que você vai solidificando você vai criando belas raízes para um crescimento bacana, um crescimento frondoso, como uma grande árvore que vai dar seus frutos e suas flores.

Como é ser a mãe de Kim?

Ah, isso é o maior presente do universo para mim! Porque o Kim é um cara supertalentoso, generosíssimo, muito amoroso e com uma visão de um mundo melhor pelo qual ele trabalha com seriedade. Eu fico muito contente de ver que não só ele, mas um monte de pessoas dessa geração está trabalhando por um mundo melhor e acreditando em valores legais.

Um personagem ou projeto que marcou muito e mexeu com você?

Acho que sempre é o próximo, né o coração está sempre ligado no próximo! Mas eu olho para tudo que fiz com um amor muito grande. Meus filmes e meus livros são todos frutos de muito amor.

Como é fazer cinema em família?

Além de eles dirigirem, eu faço roteiro, somos produtores, atuamos e trabalhamos em várias áreas. Vestimos vários chapéus. Eu sabia que íamos acabar fazendo cinema, porque eu adoro cinema. Apesar de gostar muito também de vários veículos, também gosto de televisão, e agora temos a série da HBO, A Vida Secreta dos Casais. Na verdade, é como se fossem dez filmes.  

Você escreveu um livro inteiro sobre a felicidade. Fale um pouco sobre como foi esse processo.

Na verdade todas essas buscas que hoje eu desenvolvo ficaram todas mais públicas com as redes sociais, mas isso vem comigo desde sempre. Eu sempre tive essa procura por compreender valores, responder perguntas básicas que a gente se faz, como, por exemplo, “quem somos?” “O que fazemos?” “Para onde vamos?” E achar um propósito na vida, achar uma missão para a gente conseguir preencher esse vazio e todos os vazios. A arte é uma grande resposta, mas o movimento de atuação na sociedade é uma coisa que realmente faz muito sentido para uma vida. Então eu faço isso defendendo o valor da felicidade, embora a palavra felicidade seja uma palavra muito desgastada, porque foi extrausada em todos os lugares, na publicidade, enfim, demais, assim como a palavra amor, e olhamos para elas com desgaste. No entanto, continuamos nos apaixonando, continuamos amando (e cada vez mais, se Deus quiser) e continuamos buscando a felicidade como escopo da vida. Acho que estamos em um momento de crise de valores, quando as grandes transformações do mundo só vão acontecer através das mudanças de valores, e as mudanças de valores só vão acontecer por meio de uma consciência maior e de autoconhecimento. Então, todo meu trabalho é um trabalho voltado para as pessoas se autoconhecerem — para as pessoas compreenderem melhor quem elas são, se encontrarem, se aceitarem, aceitarem os outros, buscarem paz de espírito, porque isso vai refletir no seu ambiente de vida e no mundo.

Processo de inspiração para escrever?

Como eu escrevo coisas muito diferentes, a maneira de escrever poesias é diferente de dramaturgia. Cada um é um processo diferente. Escrever um romance é um processo diferente de poesia e escrever dramaturgia, como cinema, roteiro e as séries. São processos completamente diferentes, então vou me adaptando a todos. E escrever é muito parte da minha vida, então eu não consigo nem separar uma coisa da outra. Todo horário é horário!

Conte um pouco sobre sua amizade com o nosso querido poeta Mario Quintana. Como foi a sintonia de vocês?

Eu sinto sempre uma coisa boa em relação ao Rio Grande do Sul. Tenho uma paixão antiga pelo Sul, me considero uma gaúcha de adoção, sou apaixonada pelo Mario Quintana desde menina. A gente teve um primeiro encontro que durou para a minha vida inteira — uma relação da vida inteira — de uma promessa que iríamos nos encontrar todos os anos e nós cumprimos, como ele fala e brinca: “Ela só não cumpriu quando ficou grávida”. Ele é um cara espetacular — um dos grandes seres humanos dessa vida, né?! E ele me ensinou a amar muito o Sul. E não é que, quando lancei No Ritmo dessa Festa na Feira do Livro de Porto Alegre, foram todos os grandes escritores gaúchos e brasileiros, Clarice Lispector, Ligia Fagundes Telles, o Rubens Fonseca e todos os gaúchos maravilhosos? Foi uma estreia abençoada!

Acho que o Sul tem essa força de caráter mesmo. Que quando você cria amizade, você cria uma amizade para a vida inteira. Ela não é pontual — ela pode não ser constante, você pode até ficar anos anos sem ver a pessoa ou sem falar, mas, quando você vê, parece que você viu há pouco tempo. Eu tenho amigos que eu gosto muito no Sul, pessoas que eu posso ligar e falar, que elas serão muito generosas e gentis sempre. E eu penso nelas com um carinho enorme. Acho que o Sul tem essa resistência aos bons valores. É um reduto de resistência de bons valores. É um território onde eu vejo uma dignidade que meio que se dilui no mundo, então, olhando para isso, eu olho com muito agradecimento — eu fico muito grata que isso permaneça aí, que seja passado para os filhos e que continue dessa forma, porque eu acho isso exemplar para outros lugares. E tenho essa troca com as coisas e as pessoas daí — é uma troca constante. Ela nunca parou! Muita gente que eu conheci nessa primeira feira, por incrível que pareça, mas também gente que eu conheci depois. Sempre gente mais ligada à literatura.

E você tem alguma lembrança ou história sobre o Festival de Cinema de Gramado, que chega neste ano à sua 46ª edição?

Já fui muito ao festival. Já fui júri. Sem dúvida, é uma grande referência de resistência para o nosso cinema nacional.

Um defeito e uma qualidade?

Eu tenho uma curiosidade muito grande na vida, que talvez até seja também a minha maior qualidade, porque é o que me leva a desbravar territórios, e que talvez seja também um defeito em muitas circunstâncias.  

Você tem algum ídolo?

Eu tenho muitos, e o Mario Quintana está entre eles. Eu tive a graça da vida de ter a oportunidade de conhecer alguns dos meus ídolos pessoalmente, tanto por circunstâncias da vida como no meu programa, o Gente de Expressão, que eu fiz durante anos e que agora está no meu canal do Youtube. Se você entrar lá, vai ver muitas entrevistas — não todas, mas muitas. Eram pessoas que eu admirava muito — diretores de cinema e artistas.

E este momento na tua vida?

Muito bom, fazendo um trabalho bem legal na Rede Felicidade, que está completando um ano. Estamos supercontentes e já preparando outros projetos.

O que é muito gostoso da maturidade e o que dá saudade da juventude?

Eu nem faço muita diferença entre uma e outra.

Por Mariana Bertolucci

 

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