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Nos subterrâneos de Barcelona: o lixo debaixo da terra

Lixeira a vácuo em Barcelona

Flanar por uma cidade europeia, seja Paris, Barcelona, Berlim, sempre traz para nós, brasileiros, aquela indescritível sensação de que poderíamos viver muito melhor em nosso próprio país. São exemplos que a gente está “careca de saber”: aqui falta segurança, lá sobram prédios históricos bem cuidados; aqui tem gente que ainda não conhece água encanada, enquanto lá sobram civilidade e respeito

E quanto ao lixo, então? Quem passeia um pouco pelo mundo em que a educação anda de mãos dadas com a tecnologia já sabe que o esforço de alguns governos tem sido decisivo para melhorar o aspecto das cidades no quesito dos resíduos sólidos urbanos, sejam recicláveis ou matéria orgânica.

Tenho aproveitado este espaço para compartilhar algumas experiências colhidas em terras estrangeiras no que tange aos cuidados com o lixo. Já comentei como são as coisas na Alemanha, relatei recentes vivências num passeio a Nova York e preparo para breve um relato sobre a queima de lixo nos incineradores de Paris.

Mas, desta vez, foi um passeio às 10h da manhã por uma cinzenta Barcelona que abriu um sol no meu coração! Acompanhei a chegada de uma senhora de 80 anos, carregada de sacolas, a uma fileira de cilindros de metal. Muito esperta e decidida, ia despejando, um a um, seus saquinhos naquelas espécies de escotilhas. Chegando mais perto, notei que cada janelinha se destinava a uma coleta em particular.

Nas tradicionais cores que identificam resíduos no mundo inteiro, papel, vidro, metais e orgânicos sumiam da face da terra para se esconderem nos subterrâneos! Sim, a coleta de lixo de Barcelona é uma das mais avançadas do mundo e funciona por baixo da terra. A operação consiste no seguinte: a população deposita sacos de resíduos em coletores instalados nas vias e/ ou edifícios. Quando esses coletores, conectados a uma tubulação subterrânea, estão cheios, um sensor aciona o disparo dos resíduos, que seguem em vácuo, por sucção, até as centrais de coleta, onde os materiais são separados e compactados em contêineres estanques para sua destinação final.

Barcelona investe na coleta pneumática de resíduos sólidos urbanos (com a sigla RPRSU na Espanha) desde 1992. Dez anos depois, a cidade já tinha quase 150 quilômetros de rede de tubulação subterrânea e 15 centrais de coleta com capacidade para absorver 30 mil toneladas/ano. Os mais de dois mil pontos de entrada (coletores) espalhados pela cidade já separavam os resíduos nas quatro frações: orgânico, papel, vidro e metais. Tudo começou por ocasião dos Jogos Olímpicos, com esse sistema que atende grande parte da capital catalã, habitada hoje por 1,6 milhões de pessoas (um pouco maior que Porto Alegre).

Algumas considerações importantes: móveis velhos são deixados na rua, geralmente na frente das casas, em dias específicos da semana. A prefeitura os recolhe à noite; O óleo de cozinha usado é guardado em garrafas ou galões dados pela prefeitura e levado até pequenos pontos de reciclagem; Computadores, eletrodomésticos, baterias, CDs e outros lixos tecnológicos também são levados aos pontos de reciclagem apropriados.

Nas centrais, há dois tipos de tratamento: para material reciclável ou orgânico. Um braço hidráulico automatizado conecta a tubulação ora para um tipo de tratamento, ora para outro, de acordo com a remessa. Uma última turbina, na parte superior de um contêiner, suga o ar por um sistema de filtragem que o deixa puro e inodoro antes de liberá-lo na atmosfera. Tudo muito lindo, custando alguns milhões de euros, e todo mundo por ali feliz — consciente do seu papel. Cuidar do lixo é o maior exemplo de educação básica que se pode ter na vida! Olé!

Por Regina Lunkes Diehl

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