sobre-amor-e-ovos-cronica

Eu queria falar de amor. Daquele amor que sentimos quando desejamos dividir a vida com uma só pessoa e acreditamos (de verdade) que é do lado dela que seremos para sempre felizes. Sabe, né?! Se não sabe, já ouviu falar, porque isso é meio parecido com todo mundo. Não te faz! Esse tipo de amor é assim mesmo: temos a sensação de que quase tudo já foi dito, repetido, cantado, escrito, encenado, filmado, sentido e (res)sentido.

Enquanto eu pensava o que escrever aqui e por qual caminho seguir nesse texto, arrumava em casa a minha mochila para sair da academia direto para o trabalho. Mochila, computador, outra sacola pendurada, a minha bolsa, que é um chumbo, e o tapetinho do yoga (que no final, nem usei e peguei o da academia). Ainda no elevador de casa, senti o peso enorme de toda a parafernália que eu carregava. Me interroguei em um silêncio inconformado: “é preciso carregar cada uma dessas coisas que te pesam diariamente?”.

Saí carregada do elevador e caminhei até o carro. Enquanto uma parte de mim lamentava a dor que sentia no ombro esquerdo, a outra pensava na crônica desta quarta-feira. O peso que o meu corpo carregava e as dores que eu sentia me levaram de volta ao amor. Pensei na maravilha que seria desfazer-se de todas as dores e os pesos que também conjugam o verbo “amar” — exatamente como eu fazia naquele exato momento com as bolsas e mochilas incômodas, colocando-as no banco de trás do carro.

Assim como eu jamais seria capaz de caminhar 15 minutos até meu trabalho com tudo o que carregava nas costas, no coração e na alma, não existem bancos de trás, ou gavetinhas, onde conseguimos depositar temporariamente nossos pesos e incômodos até chegar ao destino. Se o peso é maior do que podemos suportar, não adianta seguir caminhando sem graça, com o amor em ponto morto. Eu não sei exatamente como é o ponto morto, mas não pode ser uma coisa boa, confortável, ou normal no funcionamento de um carro — ou seria ponto vivo… Sei que é meio que andar sem marcha. E se até os carros precisam de marchas e de algum norte, um amor não pode estar em ponto morto para seguir na estrada.

Dirigindo até agência, voltei a pensar que, se tudo parece já ter sido dito sobre o tema, é porque somos repetitivos nessa pauta. Enquanto protagonistas ou espectadores das bonitas e tristes histórias de amor, ele sempre é convidado a entrar na sua vida sutilmente por uma deliciosa e perturbadora paixão. As primeiras visitas são cheias de calafrios, gracejos, encantos, bilhetinhos, descobertas, presentinhos coloridos, promessas bobas, um infinito de maravilhas, surpresas e pequenos gestos que só vivendo para entender.

Cada relação tem suas etapas e problemáticas diversas. Ah, sim… Sempre tem aquele seu vizinho(a) ou colega de trabalho que não tem problema algum no relacionamento. Sei bem. Também tenho alguns. É muita sorte deles, não?! E que a família está sempre bem linda no Instagram é bem verdade. Mas voltemos, porque esse não é o meu caso e nem o seu que está me lendo até aqui.

Os padrões se repetem, mesmo com pares e temperamentos absolutamente distintos, e o amor, ao longo do tempo, todo lindão, colorido, esfuziante, animado, contagiante e gracioso, transforma-se na maior vítima do truculento e autoritário cotidiano. Aí, por conta dessa incansável, porém necessária rotina, ele assume uma faceta que nada tem a ver com o seu significado no dicionário. Torna-se hostil, debochado, impaciente, desatento, provocativo, improdutivo, até esvair-se por completo dentro de nós. Aí vem aquela avalanche de sensações de impotência, fracasso, desespero e decepção com a aquela pessoa do início do texto, que você queria dividir a vida, lembra?! Você não sabe se tem mais preguiça de conversar com ela, para ver se ajeita as coisas, ou de partir do zero e conhecer outra pessoa legal, para começar tudo de novo… não falei que era repetitivo?!

Nada do texto. Fecho o computador, caminho até o carro, dirijo, desembucho de novo tudo do carro direto para as costas. Mais dor no ombro esquerdo e entrei no elevador.

Cansada e faminta, mal larguei a minha tralha de qualquer jeito pela casa, fui ao banheiro lavar as mãos e decidi fazer um ovo no micro (sim, tenho outras virtudes — todas bem distantes do fogão). Quebrei a casca do ovo em cima da xícara de sempre (se a rotina não poupa as xícaras, por que pouparia você?). E eis que o ovo me surpreende: completamente podre, exalando uma cruza de dragão com urubu — um cheiro insuportável que tomava conta de tudo. Pensei: “que nojo desse ovo! Vou desaparecer dessa cozinha e entrar em um banho para me esquecer dissooooooooo!” Não! Tranquei a respiração, persegui todos os resquícios do odor com determinação, esponja e sabão. Fim! Suspirei sozinha e aliviada. O cheiro sumia do ar enquanto eu abria a geladeira e, na mesma xícara lavada, quebrava mais dois ovos. Tirei do micro, coloquei sal e, saboreando a gema mole em pequenas e prazerosas colheradas, abria mais uma vez o meu computador, sem entender direito como nunca tinha pensado na semelhança dos ovos e dos amores. Esses repetitivos.

Por Mariana Bertolucci

  1. Luiz Inacio Medeiros says:

    Parabens. O texto é excelente , exato, sem repetições . Mistura ternura e objetividade com um tema comum a todos no dia-a-dia. Guarda Mariana para daqui uns anos receber um merecido premio.

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