Hoje às 19h30min tem uma mesa imperdível sobre o escritor gaúcho Sergio Faraco no 11º Festival de Inverno. Os craques Luiz Gonzaga Lopes, Léa Masina, Pedro Gonzaga e Altair Martins debatem a obra do escritor na Sala Álvaro Moreyra. Confere a programação compelta do Festival de Inverno no http://www.festivaldeinvernopoa.com .
Contista de notáveis virtudes formais Sergio Faraco trouxe para a história curta um extraordinário rigor formal, expresso na reescritura contínua de seus textos, na verdadeira obsessão por “le mot juste”, e na depuração exaustiva de tudo aquilo que represente suntuosidade retórica, digressão ou incorporação de elementos acessórios à tessitura narrativa.
Neste sentido, Faraco descende de Tchekhov, de Hemingway e de todos os autores da modernidade que optaram pela economia verbal e pela omissão de dados para criar atmosferas equívocas, sugestões de incerteza e vastas aberturas de significado.
Os cenários de suas ficções
Os seus primeiros relatos traduzem o violento universo fronteiriço rio-grandense, já em estado de decomposição histórica, mas onde ainda prevalecem certas virtudes pampianas como a honra, a coragem e a disposição viril, justapostas a uma ética sutilmente impregnada de sentimentalismo e disposição humanista.
Por sua vez, nos contos citadinos Faraco capta – como talvez nenhum outro autor gaúcho – o caráter aluvional da experiência urbana, a natureza precária das relações afetivas neste mundo áspero e quase sempre gélido, em que imperam a alienação e a solidão.
Para enfrentar essas tormentas, seus personagens valem-se de pequenos gestos, palavras de alguma ternura, fugazes encontros eróticos, lembranças de amores perdidos, que explodem dramática ou liricamente. Esses breves instantes encapsulam momentos decisivos na vida dos protagonistas e arrebatam o leitor com o poder luminoso da grande literatura.
Registre-se igualmente que – seja no campo, seja em Porto Alegre – o olhar solidário do escritor detém-se muitas vezes em crianças e jovens que estão vivenciando uma circunstância decisiva em sua formação existencial. São circunstâncias que se incorporarão para sempre na memória infantil ou juvenil sob a forma de uma dura (e, às vezes, poética) aprendizagem da vida.
Outras obras
Além de crônicas, traduções, antologias e trabalhos de pesquisa histórica, Faraco publicou em 2002 um dos textos confessionais mais importantes já escritos no país: Lágrimas na chuva (uma aventura na URSS). Em 1963, jovem comunista, ele recebe uma bolsa para estudar em Moscou. Durante pouco mais de um ano – por desobedecer ordens das autoridades do partido – conhecerá as entranhas repressivas do sistema soviético, sendo interno em uma espécie de hospital para dissidentes (algo como o Gulag relativamente atenuado).
É um relato impressionante, de ritmo cinematográfico, que desmonta as ilusões do escritor com a URSS, confirmando a célebre observação de Milan Kundera: “O totalitarismo não é apenas o inferno, mas também o sonho do paraíso.”
Mais recentemente, Faraco escreveu uma continuação de Lágrimas na chuva, que corresponde a sua chegada no Brasil, em 1965, após várias peripécias para escapar da URSS. Nosso país vivia então um clima brutalmente repressivo como resultado do golpe militar de 1964. E Faraco foi preso exatamente por sua estada na URSS. No cárcere, foi submetido a múltiplas humilhações e violências.
60 anos depois do episódio, ele recupera a ferocidade dos carcereiros e horror que é viver em regimes de exceção no qual todos os procedimentos legais desaparecem, substituído pelo arbítrio e pelo desrespeito aos direitos humanos.
Para começar a ler Sergio Faraco
Dançar tango em Porto Alegre (Antologia de 18 contos selecionados pelo próprio autor)
Lágrimas na chuva (Relato de sua prisão em Moscou em um sanatório para dissidentes)
Por Sergius Gonzaga
Sobre Sergio Faraco
Alegretense nascido em 25 de julho de 1940, antes de estrear na literatura, Sergio Faraco viveu na União Soviética (1963-1965), quando estudou no Instituto Internacional de Ciências Sociais, em Moscou. De volta ao Brasil, graduou-se em Direito e foi servidor público federal. Seus contos regionalistas se passam em regiões fronteiriças são povoados de personagens humildes, de futuro incerto, tratados com ternura, lirismo, solidariedade e respeito pelo humano. Já nas tramas da cidade, os personagens tratam de solidão e fragilidade. O escritor recebeu o Prêmio Galeão Coutinho (1988), da União Brasileira de Escritores por A Dama do Bar Nevada e três vezes o Prêmio Açorianos de Literatura (1995, 19996, 2001). Em 1999, foi agraciado com o Prêmio Nacional de Ficção da Academia Brasileira de Letras. Em 2003, pelo livro Lágrimas na Chuva recebeu o Prêmio Erico Verissimo, da Câmara Municipal de Porto Alegre, e o Prêmio Livro do Ano (Não-ficção) da Associação Gaúcha de Escritores. Em 2008 ganhou a Medalha Cidade de Porto Alegre e foi escolhido patrono da 70ª Feira do Livro de Porto Alegre em 2024. Faraco mora na capital gaúcha, é casado e tem três filhos.
Foto Eduardo Fernandes, CRL
