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De 1921, o castelo em frente ao Rio da Prata e é um símbolo da belle époque uruguaia

Conta-se que o proprietário dessas terras era um tal Salvador Carrasco, espanhol nascido nas Ilhas Canárias, que depois daria nome a essa região de dunas e bosque. Terras que Alfredo Arocena, um empreendedor visionário de Montevidéu, comprou no início do século passado com a clara intenção de transformar essas praias em “uma Saint-Tropez da América do Sul”. Decidido e abastado, encomendou a construção de um hotel aos arquitetos franco-suíços Jacques Dunant e Gastón Mallet, que em 1912 projetaram o edifício; no ano seguinte colocaram a pedra fundamental e, em 1921, concluíram a obra. “O bairro, com casas elegantes e muito bonitas, foi construído ao redor do hotel e projetado pelo paisagista Carlos Thays”, observa Mariano Otero enquanto tomamos um café no bar do hotel, em uma mesa próxima à ocupada pelo ex-jogador de futebol Diego Forlán, outro símbolo de Carrasco.

Logo o Hotel Carrasco, com seu cassino, tornou-se aquilo que Arocena, seu proprietário, havia sonhado. A aristocracia europeia, os bon vivants da época e grandes personalidades chegavam de navio até essas margens do Rio da Prata para aproveitar o verão no hemisfério sul e fugir do inverno. As escadarias de mármore de Carrara, os vitrais multicoloridos, os pisos de carvalho da Eslavônia e os bules de prata testemunharam grandes banquetes, casamentos e negócios que posicionaram Carrasco como o lugar onde era preciso estar. Era também sede do Grande Prêmio Ramírez, já que o terraço era o melhor ponto para assistir às corridas de cavalos pela praia. Inclusive o próprio Albert Einstein deu uma conferência no hotel em 1925. Assim como em Buenos Aires, Montevidéu também teve sua belle époque.

No entanto, o esplendor não durou para sempre. Começou a declinar em meados do século passado e encontrou seu ocaso definitivo quando Punta del Este ganhou protagonismo e dominou a cena. De repente, celebridades, reis e empresários passaram a escolher as praias do leste. O negócio hoteleiro desse gigante montevideano — difícil de manter devido à salinização, entre outros fatores — tornou-se insustentável. Seus tradicionais proprietários, a família Arocena, declararam falência e, em 1997, o Hotel Carrasco fechou suas portas. “A prefeitura de Montevidéu assumiu o edifício, que desde 1975 era Patrimônio Histórico Nacional, e o manteve fechado. O problema é que, aos poucos, ele se deteriorou. Foi ocupado por pessoas em situação de rua, vandalizado e houve quem levasse louças e peças de bronze. O cassino, no entanto, continuou funcionando, com entrada por meio de andaimes”, comenta Otero sobre o hotel que anos antes havia hospedado Federico García Lorca, mais recentemente os Rolling Stones e depois também Bono, entre outros.

Passaram-se dez anos desde o fechamento até que a prefeitura de Montevidéu abrisse uma nova licitação para o cassino e, um ano depois, para o hotel. “Entrou em cena a Accor e implantou a bandeira Sofitel, marca francesa que mais combinava com o estilo do hotel. Foi assim que, em 2008, começou o desafio de reabrir esse ícone”, explica Otero, acrescentando que muitos dos restauradores que trabalharam na recuperação do Teatro Colón, em Buenos Aires, participaram das obras no antigo Hotel Carrasco. “Estava muito deteriorado. As paredes do lobby estavam cheias de grafites, muitos vitrais quebrados… Eles foram refeitos por Rubén Freire, descendente do artista uruguaio que criou os originais. A cúpula do salão oval foi restaurada pela mesma empresa francesa responsável pela obra original. Descobriram molduras com lâminas de ouro de 18 quilates, que foram recompostas com pó de ouro e enxertos de prata para manter tudo original. O piso de carvalho da Eslavônia estava destruído, mas o que pôde ser recuperado foi usado na mesa de centro do lobby e nos balcões da recepção. As portas são originais, totalmente restauradas — mas mantê-las é um trabalho constante, pois qualquer parafuso precisa ser exatamente o correto. A arquiteta responsável pela preservação diária tem uma grande tarefa”, detalha Otero sobre a megaobra concluída em 2013.

Ele conta que, originalmente, o cassino ficava onde hoje está o restaurante; que a entrada do hotel era lateral, onde hoje funciona o cassino — em um subsolo —; e que a fachada atual era uma esplanada voltada para o rio, já que não havia ainda a rambla. O hotel de 1921 tinha três andares, mas hoje conta com quatro, além de um mezanino e dois subsolos com estacionamento. A obra de engenharia foi de tal magnitude que foi necessário construir um muro de contenção para a praia. “As áreas públicas permaneceram originais, como o salão oval, que tem um grande balcão e acústica perfeita. Já os quartos foram demolidos e reconstruídos do zero, todos novos e com design moderno. Também foram construídos o spa, os depósitos e ampliado o cassino”, explica Otero enquanto guia a visita por esse gigante que combina, com sutileza, a sobriedade moderna dos quartos com a imponência da fachada e do hall de entrada.

Acolhedor, mas sofisticado, com um restaurante de alto nível comandado por Maximiliano Matsumoto — que, com o nome 1921, homenageia as origens desse símbolo —, o Sofitel Montevidéu é, desde 2013, um gigante em beleza, proposta e história.

Texto: Ana van Gelderen, LA NACION (04/07/22)

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