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Crônica sobre um Rio Branco. E um fim.

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Enquanto organizo caixas e pensamentos, me deparo com memórias e histórias inusitadas que vivi no apartamento onde há um ano resido no bairro Rio Branco, em Porto Alegre. Nunca levei muito jeito para crônica. Há-se de ter um certo dom para narrar o cotidiano de uma forma envolvente e empolgante, mas eu, honestamente, não faço parte desse time.

Reconhecendo essa falha, porém, compartilho neste memorial situações perdidas. Não que eu tenha assim grandes histórias, mas acho graça de algumas delas. Como o fato, por exemplo, de que eu moro ao lado de uma locadora privê. O ano é 2019 e existem locadoras privê — uma delas do ladinho de casa. O mais inusitado, porém, é o volume de gente — homens — que eu vejo saindo ou entrando lá. Não vou entrar nos pormenores de toda a questão da pornografia aqui, isso é assunto para outra tour, mas me espanta que tanta gente busque abrigo em um lugar como esse — na era da informação ao alcance da mão. Pois é.

Menos polêmico e mais relevante para mim do que para qualquer outra pessoa na cidade, descobri há não muito tempo que sou vizinha de Roger Lerina, jornalista de cinema famoso no circuito gaúcho. Tal fato me foi apresentado em um sábado pela manhã, quando eu, maltrapilha, me dirigia à mercearia mais próxima em busca de insumos para um café da manhã. Eu, a andar despreocupada pela rua, até que PAM: Roger Lerina está a poucos metros de mim esperando pelo seu Uber (pelo menos foi isso que eu tracei na minha cabeça). Para quem não o conhece, Roger foi por muitos anos foi colunista diário na Contracapa do Segundo Caderno da ZH e também era figurinha carimbada em um programa de TV chamado Café TVCom, exibido aos sábados, que muito entretinha minhas tardes juvenis. Era um programa que me inspirava à carreira que nunca consegui traçar — o Jornalismo.

Não que mudasse qualquer coisa na minha vida ser vizinha do Roger Lerina (se é que ele realmente mora a alguns prédios de distância). Mas esse segredo, que eu só compartilhei com o Felipe, meu esposo, e agora com vocês, me era muito caro. Inclusive, dia desses, enquanto esperava pelo meu Uber para ir ao trabalho, Roger Lerina se dirigia ao seu carro. Mais um momento que não importa para mais ninguém além de mim. Mas me rememoro dele enquanto posso e enquanto ainda sou vizinha de Roger. (Se estiver lendo isso, não pense que sou uma stalker. E “oi, vizinho!”).

E por falar em vizinhos, vizinhos são realmente uma experiência social. Para o bem e para o mal. Desde as crianças da escola de arte ao lado que nos espiam e ficam comentando umas com as outras sobre a “mulher na janela” e que dão “oi” toda vez que tu passas ou, então, fazendo comentários sobre as lendas e aparições da raposa de nove caudas na mitologia japonesa e cultura pop, de Naruto a Pokémon, que entretêm meu esposo otaku — digo, forte apreciador da cultura japonesa. As crianças, nesse caso, contam para o lado do bem.

Já os adultos não têm muito a acrescentar para esse time. Pelo contrário. Adultos são seres um tanto complicados, ainda mais quando ignoram o fato de que existem outras pessoas convivendo a uma parede ou andar de distância. Tu já viveste uma daquelas situações na qual o vizinho faz tanto barulho que parece que ele está a fazer o que quer que ele esteja a fazer dentro do teu próprio apartamento? É uma situação complicada, que não desejo para ninguém. 

Pior ainda é quando o teu vizinho de baixo decide por engajar em um sexo selvagem às duas da manhã de uma madrugada de verão na qual se dorme com as janelas abertas para conseguir lidar com a estação em uma cidade como Porto Alegre. O problema não é o sexo, para deixar claro; cada um vive como quer. O problema, meus caros, é o barulho. Às duas da manhã. Que parece que vem de dentro do teu quarto. Às duas da manhã. Nunca estive presente em um show de sexo ao vivo, mas acredito que se eu estivesse em um, não teria sido tão exposta aos sons absurdos de tal ato a dois. Com sorte, eu acabei a adormecer mesmo com a transmissão ao vivo no meu quarto. Porém, Felipe, que teve o desprazer de acompanhar acordado até o fim, me contou, no dia seguinte, que o grande espetáculo foi encerrado de um jeito triunfal: com um alto e longo “uhul” para arrematar os trabalhos. Como eu disse: não desejo para ninguém.

Dessa grande experiência de morar por um ano verdadeiramente fora da casa dos meus pais, posso dizer que aprendi e pude vivenciar muita coisa. Dos momentos bons e não tão bons que aqui vivi, restam as memórias. Que carregarei no meu “coração de bagagem”, como diz minha grande amiga Isadora. Assim como essa crônica que tentei construir.

Que no próximo lar eu também colecione memórias assim.
Levo comigo uma certeza: tu vais deixar saudade, 13.

Por Jennifer Baptista

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