segundas-feiras

Recomeçar não é tarefa para fracos, nem para quem não tem humildade. Porque quando existe uma real necessidade de mudança ou recomeço é sinal de que algo não estava andando conforme o planejado. É preciso aceitar, voltar de onde paramos e retomar a rota. Um “waze” da vida. Como se tudo pudesse ser resolvido na praticidade de um botão e do 4G. E assim, que graça teria?

Dar a volta por cima de uma situação de saúde difícil ou da perda de alguém é o mais árduo dos desafios. Vencê-los garante uma dose extra de coragem para encarar a vida. Muito útil, viu? O que não nos mata nos fortalece, já diz o ditado. 

Vamos ao cotidiano: retomar a rotina de exercícios, de hábitos, relacionamentos e alimentação saudáveis e até algum bom humor é muito complicado. Reinventar-se na profissão também não é moleza, principalmente para quem gosta do seu ofício exatamente do jeito que ele “era”. 

Recomeçar tudo junto ao mesmo tempo e todos os dias. Ufa! É a vida. Seu sucesso vai depender exclusivamente do quanto de força você está disposto a despender aí dentro de você, para mais uma vez colocar o dedo na própria ferida e na consciência (porque na do vizinho é fácil) e decidir, de fato, recomeçar. 

Assim é todos os dias com todas as pessoas. Ações diárias, intermitentes, eternas, cansativas, por vezes tediosas ou dolorosas. Mas não são impossíveis. São necessárias e não podemos pedir para a mãe ou o pai. Aposto que eles adorariam poder nos ajudar, mas quase tudo só depende mesmo do nosso real desejo de recomeçar. Como tomar banho, ir ao banheiro ou ao psiquiatra. Ninguém pode fazer por você!

Há poucos dias eu vi alguém na internet dizendo algo tão simples, mas tão simples que, na hora, pensei (acho que até em voz alta): mas como é que eu nunca pensei nisso antes? A pessoa dizia que ela amava muito e sempre as segundas-feiras, pois era tomada por uma sensação boa, revigorante e preciosa de recomeçar. 

Ainda que me considere uma típica otimista, que nunca esqueceu da gratidão e da resignação da Pollyana quando esta ganhou de Natal da madrasta pequenas muletas (ao olhar as duas muletas, sentiu-se feliz por não precisar delas, enquanto muitas crianças não podiam andar). Mesmo sendo otimista acima da média, quase nunca enxerguei as segundas-feiras sob esse ponto de vista, tão real e otimista: a cada sete dias deparamo-nos com uma possibilidade de reinício de nossas rotinas e projetos. Pelo contrário, uma certa melancolia, muitas vezes, já começava no domingo. Cada um enxerga o copo pela metade do jeito que quer, é bem verdade. 

Aqui de volta, depois de nove meses, o tempo de uma gestação (que é outro recomeço e tanto na vida), concluo lembrando que há seis anos só iniciei esse projeto editorial porque desejei recomeçar. E fiz isso acreditando que jornalismo isento, livre, feito com paixão e responsabilidade é prioridade em qualquer sociedade justa e decente, o que, infelizmente, não é o caso da nossa. Mais motivos temos para resistir, no formato que for possível, pelo seu celular, nas páginas da Bá impressa ou aqui no site. Fortes, frágeis, de verdade e sem preconceito, como tem que ser. Enquanto houver segundas-feiras.

Por Mariana Bertolucci

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