Trabalhar com crianças para mim é tão fascinante como o encantamento delas em aprender. Na minha escola, no ano passado, um dos projetos que trabalhamos com as crianças foi sobre o sistema solar, os planetas e os mistérios do buraco negro. Foi um projeto que desenvolvemos durante todo o ano, tamanho o interesse das crianças pela temática.
O nome do projeto é “Caracósmico”, nome dado pela minha filha, que hoje é psicóloga, trabalha na escola e, quando criança, foi aluna.
Como atividade desencadeadora do Projeto Caracósmico, recebemos na escola um planetário móvel com projeção em 3D e, ao longo do ano, visitamos o planetário da nossa cidade, contamos histórias, confeccionamos jogos e planetas. As crianças aprenderam muito sobre o sistema solar e levaram o que aprendiam para suas casas também.
Os pais, encantados com o que seus filhos aprendiam, contribuíram com materiais, livros, artigos. Foi um projeto construído por muitas pessoas que tinham o mesmo propósito: que as crianças brincassem, se divertissem e despertassem a curiosidade em aprender.
No início deste ano, o time de professoras se reuniu e trouxe a ideia de trabalharmos com as crianças a temática dos oceanos. A partir dessa conversa, estruturamos o Projeto Fundo do Mar. Escrevo essa coluna no início do ano, o projeto está recém-iniciado. Nas primeiras semanas, fiz uma roda de conversa com algumas turmas sobre o Projeto Fundo do Mar e vou compartilhar com vocês a minha experiência com uma das turmas.
Como a escola se chama Caracol, muitas coisas relacionadas a esse pequeno molusco chegam até mim. Semana passada, por exemplo, ganhei de uma mãe de aluna um colar e brincos de caracóis, uma lindeza!
Também na semana passada, um amigo me mandou um verbete da Wikipédia sobre a Aplysia californica e é essa história que vou contar para vocês. A Lebre-do-Mar e o Segredo do Cérebro
Em roda, iniciei uma história:
“Vocês sabiam que existe um animal que mora no mar e parece um caracol… mas não é bem um caracol?”
O nome dele é Aplysia californica. Mas as pessoas chamam de lebre-do-mar.
Por que será que chamam de lebre?
Porque tem duas “orelhinhas” que parecem as de um coelho.
Aplysia mora no mar, em águas rasinhas, perto das pedras e da claridade. Não gosta do fundo escuro. Prefere ficar mais na superfície comendo sua comida preferida, que são as algas.
E quando leva um susto… sabem o que faz? Solta uma tinta roxa na água.
Um cientista chamado Eric Kandel queria descobrir uma coisa muito importante:
Como o cérebro aprende?
Ele pesquisou muito sobre a Aplysia e descobriu que… Quando tocava nela, bem de leve, ela puxava uma parte do corpo para dentro. Se tocasse muitas vezes, ela começava a puxar menos. Isso quer dizer que ela estava aprendendo.
E o cientista, ao estudar, percebeu que quando a gente aprende, o nosso cérebro muda por dentro. Por causa dessa descoberta, ele ganhou um prêmio muito importante chamado Prêmio Nobel de Medicina.
O Prêmio Nobel é como uma medalha gigante que o mundo dá para pessoas que descobrem coisas que ajudam a melhorar a vida das pessoas.
É como ganhar a medalha de ouro da ciência.
Quando terminei de contar essa história para eles, mostrei a imagem da Aplysia, percebi através dos olhos das crianças o encantamento. Daí, veio a melhor parte, as perguntas:
“Vavá, por que ela solta tinta roxa e não amarela?”
“Vavá, todo mundo tem cérebro?”
“Vavá, se a gente quebra uma parte do corpo a gente conserta com gesso. Dá para botar gesso dentro da cabeça?”
Dessas perguntas, vieram outras que eu provoquei:
“Pessoal, quem passa para nós a sensação de estarmos sentindo frio ou calor, ou de estarmos alegres ou tristes, de sentirmos que estamos ficando doentes, com fome, com sono?”
Então a Olívia falou: “quem me passa a sensação se tô triste é o meu coração.”
“Vavá, mostra um coração prá nós?”
Eu perguntei se eles queriam ver uma imagem de um coração de criança ou de adulto, me responderam que queriam ver os dois. Mostradas as imagens, veio a pergunta: “Onde fica o coração?” Então convidei a turma para colocar as mãos do lado esquerdo do peito e tentar ouvir as batidas do coração.
Alguns identificaram, ficaram surpresos, outros não. Foi então que lembrei da música do Milton Nascimento, que é considerada um hino à amizade e fala que amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito. Escutamos juntos, foi um momento sublime para todos, saí da sala emocionada, a profe da turma também. Conversamos sobre isso um tempo, foi quando o João Pedro se deu conta de que seria melhor usar capacete quando for andar de bicicleta, a fim de proteger o seu cérebro.
Talvez uma das coisas mais importantes que devemos preservar na infância é isso, a curiosidade, a liberdade, esse espírito criativo e investigativo que é nato para as crianças. As crianças merecem medalha de ouro – simplesmente por existirem.
Valesca Karsten
Educadora, fundadora e diretora da Escola de Educação Infantil Caracol, em Porto Alegre. Curadora de arte para a infância e realizadora do podcast PodeMãe. @valesca.karsten
