Lendo alguns estudos, apareceram algumas hipóteses, como a de que as crianças podem perceber a temperatura de maneira diferente dos adultos, pois existem diferenças metabólicas e de percepção térmica entre crianças e adultos, além de uma preferência, em muitos casos, por ambientes mais frescos.
Em outro estudo, foi relatado, após pesquisas, que as crianças diziam mais frequentemente sentir calor e demonstravam maior conforto usando menos camadas de roupa. Outro ponto importante é que muitas camadas podem diminuir a sensação de liberdade corporal, mobilidade e autonomia, especialmente durante a brincadeira.
Entender que elas podem sentir a temperatura de forma diferente não significa dizer que sempre sabem avaliar quando precisam se proteger do frio.
Esclarecido isso, e como vivo numa cidade do Sul onde faz muito frio no inverno e há anos acompanho crianças no meu cotidiano, além dos meus filhos, eu sigo com a pergunta diante das minhas observações:
Por que algumas crianças andam menos agasalhadas do que deveriam? Por que os pais às vezes acabam cedendo a essa resistência dos filhos?
Trago, para pensarmos juntos, um autor que é referência na infância – o pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott: ele escreveu que uma das tarefas fundamentais dos pais é sobreviver aos filhos – às suas raivas, frustrações, confrontos e tentativas de nos testar e cabe a nós permanecer ali, inteiros e disponíveis. Não é tarefa fácil, né?
Pois então, quem criou ou cria filhos sabe o desafio que é: um trabalho interminável, diário, repetitivo. Por isso, é recomendável “escolher as nossas batalhas”.
Quando as famílias recorrem a mim para trocar uma ideia, ter uma orientação sobre as questões de estabelecer limites, procuro ser clara nas orientações. Afinal, ninguém nasce sabendo como criar filhos, nem eles nascem com um manual de instruções.
Quando não negociar e ser firme no não? Sempre quando uma criança se colocar em risco ou colocar outra criança em risco. Sempre que ela puder se machucar ou machucar outra pessoa. Sempre que ela estiver em uma situação que possa comprometer seu conforto, sua proteção ou seu bem-estar.
Dia desses, Maria Clara chegou na escola vestida de princesa e sem camiseta por baixo do vestido. Nesse dia, estava muito frio. Percebi pelo semblante do pai, que a trouxe naquele dia, que ele estava exausto de tentar colocar mais roupa nela.
Minutos depois dela chegar na escola, eu mesma a convenci de que precisava colocar mais roupa e a agasalhei com as roupas que a mãe havia colocado na mochila.
Num outro dia desses bem gelados, Pedro se queixava de sentir calor. Passei por ele e percebi o incômodo, e ele desabafou: “Vavá, eu não consigo me mexer direito, minha mãe me colocou muita roupa, conta quantas blusas eu tou usando.”
Sentei na frente dele e juntos contamos. Ao final da contagem, ele largou essa: “Como as mães agasalham a gente, né?”
No mais, cada família vai se organizando dentro de cada realidade. Não tem fórmula, é muito da percepção, do sentimento dos adultos responsáveis que estão cuidando dessa criança. Talvez, entre o casaco que a criança não quer vestir e aquele que o adulto insiste em colocar, se encontre uma das tantas medidas que vamos aprendendo a encontrar ao criar uma criança.
Bom senso, limites, amor, carinho e canja de galinha não fazem mal a ninguém.
Valesca Karsten
Educadora cofundadora e diretora da escola de educação infantil Caracol de Porto Alegre, curadora de arte para a infância, realizadora e host do podcast PodeMãe.
