Por Ivan Mattos
Aos 71 anos, reinvenção parece ser a palavra mais utilizada pelo múltiplo ator Zé Adão Barbosa, um verdadeiro demiurgo. Na filosofia, demiurgo é o nome pelo qual os platônicos designavam o deus criador.
Criador de alguma obra extraordinária. Assim é Zé Adão. Aquele que criou para si uma vida extraordinária. Difícil imaginá-lo em uma profissão diferente da que abraçou. Se bem que até como office boy ele já trabalhou. Mas nada seria capaz de reter seu dinamismo, sua capacidade de criação. Seu ímpeto. E não foram poucos os percalços em sua trajetória de mais de 45 anos no mundo do teatro, cinema e televisão.
Nada que o abalasse. Se fosse demitido de um espetáculo, levantava, sacudia a poeira e dava a volta por cima. Foi assim quando Luciano Alabarse o demitiu do papel-título do espetáculo musical Doce Vampiro, uma criação coletiva do Grupo Descascando o Abacaxi, escrita por Carlos Carvalho. Saiu dali para reaparecer em pouco tempo no papel de um professor psicopata em A Lição, de Eugène lonesco, com o qual arrebatou a crítica e o público em uma criação impecável ao lado da atriz Ciça Reckziegel. Em seguida, uma avalanche de convites e trabalhos garantiu um prestígio que nunca mais foi abalado. Quando Humberto Vieira lhe confiou o papel de Charles Bukowski, em Memory Motel, abocanhou seu primeiro Troféu Açorianos de melhor ator, em 1988. Inquieto, diversificou suas atividades artísticas em direções memoráveis de espetáculos como A Gata Borralheira, O Despertar da Primavera, Romeu e Julieta, Love huts, Escola de Sereias. Sua paixão pela música o fez se aventurar pela montagem de A Arca de Noé, baseado em músicas de Vinicius de Moraes, e ainda na direção do show Nenhum de Nós Acústico. Louco por Elis Regina, pertencia ao grupo que inundou a cidade nos anos 1980 com as pichações Elis Vive! O cinema não demorou a fazer parte de seu currículo. Desde que participou do célebre curta O Dia em que Dorival Encarou a Guarda, de Jorge Furtado, tornou-se um ator fetiche do premiado diretor.
Atuou em Passageiros, O Pulso, Felicidade é…, Noite de São João e, em O Tempo e o Vento, onde viveu o Padre Lara em uma de suas criações mais aplaudidas, ao lado de Thiago Lacerda. Em sua meteórica passagem pela televisão, na novela Laços de Família, de Manoel Carlos, na Rede Globo, protagonizou uma das histórias mais hilárias e inacreditáveis de sua carreira. Que outro ator, convidado pessoalmente pelo autor Manoel Carlos, literalmente fugiria das gravações da novela sem avisar ninguém e só seria descoberto quando estava dentro de um táxi rumo ao aeroporto de volta a Porto Alegre? Morrendo de rir, confessa que aquele não era seu mundo. Talvez por sentir falta da poeira do tablado do teatro e das aulas de sua escola de formação de atores, Zé Adão tenha abandonado no meio o trabalho e retornado a Porto Alegre para nunca mais voltar. A Casa de Teatro, na Rua Garibaldi, e o seu apartamento (vizinho ao teatro), onde reside com os cães Lupe e Quincas Borba, os gatos Paulinho Barbosa, Willy Coelho e Mokey, e o parceiro Daniel, são os espaços mais frequentados pelo ator, diretor, professor, cantor, locutor, figurinista e cenógrafo da maioria de seus espetáculos. Em um de seus trabalhos, o solo Coração Rendezvous, ele remexeu em seus baús de memórias incentivado pela diretora Patricia Fagundes, no qual fez um profundo mergulho em sua própria vida lançando mão de textos de Fernando Pessoa, um de seus autores recorrentes. Reconciliados, o diretor Luciano Alabarse se refere assim ao amigo: “Zé é um dínamo, uma alegria efervescente, um motor contínuo sempre em ação. Tenho um orgulho enorme de ser seu amigo, de conhecê-lo desde o início, amigos da vida inteira, parceiros de teatro em inúmeros trabalhos compartidos, sempre com respeito e confiança. Talentoso, divertido, responsável, adoro o gênio do meu amigo querido, que oscila da ternura mais evidente à fúria mais incontida, como devem ser os artistas sensíveis e generosos. E ele é tudo isso, e muito mais”, dispara.
O final de 2025 foi maravilhoso para Zé: “Dirigi um espetáculo lindo com a OSPA: “A História do Soldado, do Stravinsky com a regência do maestro Wagner Polistchuk. Filmei um longa sobre a Coligay com a Casa de Cinema dirigido por Paulo Makline onde eu fazia o pai do grande Irandhir Santos. Esse ano promete com a escola a mil, um espetáculo com a divina Sandra Dani chamado O Silêncio. Dirigido por Carlota Albuquerque, um monólogo da minha amiga Vera Karam chamado Maldito Coração, me alegra que tu sofras com Elaine Segura e um musical infantil com músicas do grupo Rumo, tudo isso entre aulas e eventos. Enfim, ficar na janela como Carolina não é comigo.”
Zé encerra sempre inspirador: “Minha carreira foi linda, não posso me queixar, fiz grandes peças, filmes maravilhosos, novela e formei dezenas de atores hoje célebres. Aos 80 farei meu Rei Lear.”
