A vida começa cedo para quem trabalha na orla da zona sul do Rio de Janeiro. Escolhi passar alguns dias das minhas férias na cidade maravilhosa. Como sou mais diurna do que noturna, minha rotina começa cedo, no Rio não foi diferente.
Antes das 7h da manhã eu já estava caminhando, entre o posto 12 e o posto 5, isto é, do Leblon ao Arpoador.
Caminhar para mim é também organizar meus pensamentos e contemplar, ou melhor observar. Em férias, sinto mais, meus 5 sentidos ficam mais aguçados. Impossível não fazer isso com o espetáculo da natureza que é essa cidade.
Nesses dias que estive no Rio, fui contemplada com correntes marítimas suaves, quase não há ondas, o mar está transparente, morno. Eu adorando, imagino que os surfistas, não.
Outro dia, minha filha Roberta, que veio comigo, foi nadar no mar de Copacabana. Se preparou, treinou e, acompanhada de um professor, foi vivenciar a experiência de nadar em mar aberto.
Fiquei esperando por ela, em terra firme. Quando ela voltou, com um sorriso no rosto, me contou que nadou com cardumes de peixes, arraias e tartarugas. A felicidade dela me entusiasmou de fazer aulas de natação, me preparar e um dia voltar ao Rio e vivenciar a experiência também. Quem sabe?
Caminhando, voltei a pensar nos 5 sentidos.
Durante a minha caminhada de ida, choveu um pouco, mas nada que impedisse que eu continuasse. Perto do Arpoador, cruzou por mim uma mãe passeando com o seu bebê, que estava protegido da chuva fina por uma capa transparente. O bebê está voltado para a mãe, espiei e vi o bebê vidrado na sua mamãe, que cantava para ele e para quem passava por ela essa música: “como pode um peixe vivo viver fora da água fria. Como poderei viver, como poderei viver, sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia.
Passada a chuvinha, veio o sol- de novo. Olho para o mar e vejo um arco íris. Sorri e segui. Sentada em um banco, vejo uma mulher e um jovem, diminuo a marcha e escuto um pouco da conversa: -Meu filho, não é assim que se trata uma mulher, ela precisa ser ouvida, receber carinho, atenção. Se você não fizer isso, ela vai embora. Ele, de cabeça baixa, escutava.
Chegando no canto onde fica a pedra do Arpoador, vi uma aula de Yoga iniciando. A professora, com vários incensos acesos, acolhia os alunos e lentamente iniciava a prática. A cada postura, dizia para os alunos respirarem, com calma, saudando mais um dia que iniciava. A cada movimento da turma, ela dizia: “Muito bom, gente, assim mesmo, continuem.”
Voltando, ouvi o rapaz que, de bicicleta, faz a entrega dos sacos de gelo para as barracas. Disse ele para o seu primeiro cliente: – Hey, brother, tá ligado que esse é o meu ar-condicionado ambulante? Sabe por quê? Porque a bicicleta anda, os gelos começam a derreter e eu me refresco.
Mas não pense que o espetáculo terminou. Houve também o espetáculo dos conteúdos variados produzidos para as redes sociais: com direito a vídeos, fotos das paisagens e selfies.
Teve também a motorista do trator que espalha a areia acumulada na beira da praia. Estava dirigindo e chamando fortemente a atenção de um colega. Pelo que entendi, ela viu que ele disse uma coisa desagradável para uma mulher que estava caminhando na praia e o repreendeu.
Perto do Posto 9, há uma academia à beira-mar, com DJ e tudo. Curiosa, aproximei-me e puxei conversa. Entre uma música e outra, o DJ contou que o cocar que usava era uma homenagem a um amor que o apresentou ao universo da música eletrônica.
Disse-me que, quando a relação terminou, desabou, se isolou e precisou, aos poucos, reencontrar a si mesmo. O cocar acabou se tornando um símbolo desse recomeço, uma forma de chamar o mundo de volta para perto.
Hoje, mistura música, histórias e encontros. Resgatou amizades, fez novas e segue ali, reinventando a própria vida ao som de suas criações e do mar.
Valesca Karsten
Educadora, fundadora e diretora da Escola de Educação Infantil Caracol, em Porto Alegre. Curadora de arte para a infância e realizadora do podcast PodeMãe. @valesca.karstenValesca Karsten @valesca.karsten
