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Será que é possível aprender a sustentar o vazio do desamparo?

Tenho praticado yoga há quatro anos. Antes do método que pratico hoje, experimentei outros, mas foi nesse que me adaptei – ou melhor, primeiro me desadaptei e, aos poucos, estou melhorando a minha reeducação postural, por dentro e por fora.

Sou educadora e diretora, estou perto das crianças no dia a dia: brinco, conto histórias, escuto, conheço cada uma e suas particularidades. Crianças são seres curiosos, criativos, fascinantes e desencaixados, no sentido corporal. O sonho de quem pratica yoga, talvez, seja esse: reencontrar a liberdade corporal dos bebês, das crianças.

Flexibilidade interna e externa, talvez sejam as habilidades mais importantes para a vida de um ser humano. Vocês concordam comigo? Ou não?

Outro dia, durante uma prática, a professora anunciou que a aula estimularia a escuta – a escuta ativa. Um dos exercícios era juntar as solas dos pés, trazer os calcanhares para perto do quadril, fechar os olhos e apenas sentir.

Na sequência, ela pediu que acrescentássemos um elemento: colocar saquinhos de areia sobre os joelhos. E foi nesse momento que algo me chamou a atenção, e me inspirou a escrever essa coluna.

Uma das alunas, uma colega, estava sem um dos saquinhos. Se desorganizou. Ficou, literalmente, sem saco. Levantou a mão, fechou a cara, e fez de tudo para que a professora a atendesse imediatamente. Mas a professora, que não veio a passeio para este mundo, voltou ao foco da aula: a escuta. Com serenidade, manteve as orientações verbais, convidando a aluna para se autorregular, esperar que o segundo saquinho de areia chegasse até ela.

A professora sustentou a voz e o tom. Foram segundos tensos, intensos. Fiquei pensando em quanto do que sentimos por dentro se revela por fora, mesmo num espaço de autorregulação. Não é fácil. Nem sempre conseguimos. Quem nunca?

Lembrei então do meu trabalho na Escola. Certa vez, durante uma atividade de pintura com uma turma de três a quatro anos, distribuí folhas brancas, uma para cada criança. Aconteceu de uma aluna receber duas folhas grudadas e, por isso, uma criança ficou sem folha por um momento. Ficou brava, gritou, disse que não queria mais pintar e fechou a cara.

Fui até ela, expliquei que eu não tinha esquecido dela. Apenas duas folhas ficaram coladas. Aos poucos, se acalmou. Na sequência, pegou o pincel e escolheu a tinta vermelha. A mesma cor do saquinho de areia da minha colega de yoga.

Crescemos, nos tornamos adultos, envelhecemos. Mas isso não nos blinda dos abandonos. Esse território é inóspito, e mesmo assim, é parte das nossas histórias. Confesso que tomei as dores da professora, que admiro e gosto muito. Mas depois consegui voltar para o meu lugar de adulta, acolher o desamparo da colega, o da minha aluna e o meu também.

Valesca Karsten @valesca.karsten

Educadora, fundadora e diretora da Escola de Educação Infantil Caracol, em Porto Alegre. Curadora de arte para a infância e realizadora do podcast PodeMãe.

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