Fechado desde março último para uma reforma que deve durar um ano e meio, o Theatro São Pedro, está passando por uma readequação do Plano de Prevenção Contra Incêndio (PPCI) e acessibilidade. A ideia é garantir mais segurança e inclusão aos visitantes da instituição que é um dos maiores patrimônios culturais do Estado.
A programação de encerramento antes da reforma foi no dia 23 de março, um recital de Simone Leitão, comemorou os 75 anos da primeira apresentação da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa) no TSP, que ocorreu nesse mesmo dia, no ano de 1950.
A atualização do PPCI é essencial para atender às normas vigentes e reforçar a segurança de artistas, funcionários e público em geral no teatro que completa 167 anos. Estão sendo instaladas rampas, elevadores e adaptações para cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.
Até pouco antes de falecer, em 7 de fevereiro de 2018, a grande dama e operária do Theatro São Pedro, D. Eva Sopher, dedicava-se 12 horas, em média, ao trabalho no teatro desde 1982, ano em que deixou a Pro Arte e passou a dedicar-se unicamente ao TSP.
A própria história de Eva Sopher é também parte significativa da do Theatro São Pedro. No entanto, a de um dos teatros mais bonitos e admirados do país começou antes.
Por iniciativa de uma sociedade acionária de 12 cidadãos, o teatro se chamaria São Pedro de Alcântara e auxiliaria a Santa Casa de Misericórdia. O então presidente da província Manoel Antônio Galvão, doou em 1833 o terreno da Praça da Matriz, no centro da cidade. Iniciadas no ano seguinte, as obras foram interrompidas pela Revolução Farroupilha por dez anos, ainda na fase dos alicerces (1835-1845). Depois da guerra, em 1850, os trabalhos foram retomados com verbas de um programa de loterias estaduais, e o edifício em estilo neoclássico foi inaugurado em 27 de junho de 1858 com capacidade para 700 espectadores e decoração em veludo e ouro, numa Porto Alegre com pouco mais de 20 mil habitantes. Mas a sociedade constituída para sua conservação não conseguiria mais arcar com as despesas, e o imóvel foi desapropriado pelo poder público em 2 de abril de 1861. Foi palco dos mais importantes espetáculos como do maestro Heitor Villa-Lobos, de gigantes como Walmor Chagas, Paulo Autran, Fernanda Montenegro e Paulo Gracindo.
Por suas galerias, camarotes e coxias passaram Cacilda Becker, Marcel Marceau, Olavo Bilac e políticos como Borges de Medeiros e Getúlio Vargas. Apesar disso, em abril de 1973, o Theatro São Pedro foi interditado por falta de condições técnicas. As obras de restauração começaram em 1975, sob comando do arquiteto Carlos Antônio Mancuso (1930-2010).
A direção administrativa dos trabalhos foi designada a Eva Sopher, que dirigia o Instituto Pro Arte. A reinauguração foi em agosto de 1984, com o espetáculo de teatro de bonecos O Julgamento do Cupim, do Grupo Cem Modos, o musical Piaf, com Bibi Ferreira e uma apresentação da Orquestra Sinfônica Brasileira regida por Isaac Karabtchevsky.
Desde então, foi a alemã nascida em Frankfurt, no dia 18 de junho de 1923, que esteve incansável no comando da Fundação Theatro São Pedro, criada em 1982 e, enquanto ela viveu, foi dirigida por ela. Ligada de forma autônoma à Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul, Eva, filha do banqueiro Max e da dona de casa Marie Plaut, irmã de Lieselotte, a Lolo, completou 94 anos na capital gaúcha, cidade onde viveu por 58 anos. Todos eles numa cruzada destemida pela preservação dos patrimônios culturais. Dedicada, idealista, obsessiva, imparcial, séria, a menina que aos 13 anos trocou a Alemanha nazista de Adolf Hitler pelo Brasil cuidou de todos os detalhes e desafios da instituição desde 1975, quando convidada para o cargo pelo então governador Synval Guazzelli, por sugestão do jornalista Paulo Amorim. Reativou a Pro Arte – onde, trabalhara desde os 16 em São Paulo – em Porto Alegre, em 1960, poucos meses depois de chegar à cidade com o marido, também judeu-alemão, Wolf Klaus Sopher, e das filhas, Renata e Ruth, nascidas no Rio. Foi seu grande e único amor, Wolf, com quem se casou em março de 1946, no Rio de Janeiro, três meses depois de conhecê-lo, e que a convenceu a assumir a restauração do teatro fechado havia 10 anos, a convite de Synval Guazzelli.
Foi ele também, seu grande apoiador na busca de recursos para as obras, que, como repetia Dona Eva, foram não só de restauro, mas de reconstrução. Com o marido, falecido após 41 anos de relação, em 1987, formou uma família de duas – filhas, quatro netos e seis bisnetos, para os quais ela ama cozinhar aos domingos. Depois de árduo trabalho, o teatro foi devolvido se à comunidade no dia 28 de junho 1984.
Por Mariana Bertolucci
Foto: Dulce Helfer
