Caxiense nascida em 18 de setembro de 1957, Eleonora Rizzo é a caçula temporona de cinco irmãos, do tempo em que era raro engravidar aos 41 anos: “Era meio vergonhoso até. Minha mãe ficou constrangida… mas vim mesmo assim”.  Recorda bem-humorada a talentosa articuladora cultural, jornalista e chef sobre a mãe, Carolina de Oliveira Rizzo.

Do pai, Nestor Rizzo, herdou muitas paixões: rádio, jornal, televisão, música, arte, tecnologia. Ele fundou a primeira emissora comunitária do Brasil totalmente local, a TV Caxias: “Walter Clarke almoçou na nossa casa. A Globo era um bebê e precisava se firmar, queria ser rede nacional e veio oferecer parceria no RS para a TV Caxias. O meu pai recusou. Em seguida, o amigo Maurício veio pedir para a TV Caxias se juntar a TV Gaúcha para dar o primeiro passo da rede estadual. Meu pai aceitou e a TV Caxias se tornou a primeira afiliada da RBS: “Cresci cercada de microfones, máquinas de escrever e câmaras de TV… E aí? Quis ser jornalista desde sempre. Daquele tipo final dos anos 70, que muda o mundo.”

Nonoia, como é chamada pelos mais íntimos, se formou na PUCRS, na turma de 79 e o primeiro emprego foi como repórter da Rádio Continental em 1977, no programa Opinião Jovem, do Clovis Duarte e do Fogaça: “A Continental era a rádio mais legal da época. Boa música, ousada, com jornalismo bem-humorado e sarcástico: “Clóvis foi um chefe muito importante na minha vida, me ensinou muito.” Época em que em entrevistou todos os artistas que vinham a capital gaúcha. De Elis Regina à Nathalia Timberg: “Minha primeira entrevista foi o Guilherme Socias Villela, o então prefeito”.

Passou pela Difusora, Correio do Povo, Jornal do Comércio, TV Guaíba, TV Gaúcha, e Zero Hora. Para entrar na Zero, a entrevista foi com Marco Aurélio e Felberg. “Meu pai me queria em Caxias. Ameaçou ligar para o Maurício para pedir para não me contratarem. Pistolão ao contrário. Eu estava em Caxias para o Natal e toca o telefone. Adivinha? Carlos Felberg!!! Simmmm”. Eleonora começou a trabalhar na Zero Hora em dezembro de 1979 e só voltou para Caxias para ver a família: “Virei uma porto-alegrense apaixonada”.

Foram 10 anos de Zero Hora. Apelidada de “chamadinha” por Flávio Dutra, (assim como eu, que alguns anos depois entrei na redação nesta mesma vaga) sua tarefa era ir atrás das melhores manchetes para divulgar a jornal na rádio e na TV. O chargista Marco Aurélio era o chefe do departamento de divulgação e a jovem ligeira e curiosa aprendeu um pouco de tudo sobre jornal, rádio e TV e fez amigos para a vida toda: “Comecei a entrevistar personalidades da cultura e assumi como editora do ZH Cultura. Durante os meus 10 anos de Zero Hora, continuei trabalhando com o meu amigo e irmão até hoje, Marco Aurélio. Um cara genial. O jornal era vibrante, um corpo vivo, pulsando. Era ótimo fazer parte desta turma, uma família muito louca. Tínhamos um sentimento ingênuo de propriedade. A Zero Hora era nossa. Aí vieram os restaurantes….”

O ano era 1988 e a irmã de Eleonora, Ana, tinha uma agência de turismo, a Turinter. Pedro Hofmann tinha uma agência de Turismo em Caxias e os dois eram associados: “Minha irmã foi casada com o pai do Pedro, que já tinha falecido. Pedro se associou em Caxias com um italiano num restaurante com receitas do norte da Itália. Veio a Porto Alegre e convidou minha irmã para colocarem um restaurante simular aqui. Entrei no projeto. Permaneceríamos nos nossos trabalhos e contrataríamos uma gerente para tocar o restaurante numa casa alugada na rua Mata Bacelar esquina com a Mariland.”

Uma cantina com 11 mesas e uma vitrine onde víamos a massa ser produzida. Nascia o Al Dente, o primeiro filho da aventura gastronômica de Eleonora. Foi uma loucura, o restaurante no terceiro ou quarto mês já bombava. Não foi possível conciliar as atividades de jornalista e restauranteur. Em março de 1989, deixou a redação de ZH com o coração partido. No entanto, a turma da redação a acompanhou por toda a vida e estava sempre por lá: “O restaurante tinha alguma semelhança com o jornal. Todo o dia começa tudo de novo. Não tem trabalho finalizado. Tem que ser bom ou pelo menos na média sempre. O Pedro me ensinou muitas coisas, afinal eu era uma jornalista que caiu dentro de uma panela.”

O Al Dente durou 19 anos, no mesmo endereço, e na mesma Mariland, a meia quadra do restaurante, eles abriram uma delicatessen chamada Magazino. Foi uma ideia ousada para a época e não durou muito, transformando-se no bar Red Point com música ao vivo, que também não durou muito, e em seguida no bar 720, que teve bons seus momentos.  Em 1992, em uma das reuniões da turma no 720 o Marcos Dvoskin chamou Eleonora e depois de contar que o shopping Praia de Belas estava quase pronto, disse: “Vamos fazer um Al Dente para todos. Então eu, a Ana, o Pedro e o Marcos – que chamou o Silvio Sibemberg para se juntar ao projeto, lançamos mais uma aventura gastronômica.”

O espaço tinha 400 metros quadrados, o Ivan Andrade fez um projeto moderno, e colocou alma na proposta. Ficou lindo, contemporâneo, afetivo e confortável (Ah, que saudade que me deu…). O Birra & Pasta nasceu dia 24 de abril de 1993 sob a proteção de São Jorge. Sucesso imediato. Era a segunda casa da nossa turma da redação, da qual eu tive a sorte de fazer parte por agitados e inspiradores 15 anos da minha vida. Todas as tribos frequentavam o Birra. Artistas, políticos, famílias, publicitários, advogados, empresários, casais e muuuuuitossssssss jornalistas. A Célia Ribeiro sugeriu lançar livros e o restaurante virou point literário onde autografaram suas Arnaldo Jabor, Arnaldo Antunes, Alice Ruiz, Mário Vargas Llosa, Peninha, entre tantos outros. Época em que Denize Barella se juntou ao time com Cynthia Requena e Laura Schirmer, que faziam chover, promovendo e criando intervenções teatrais e ações de todo o tipo. Luciano Alabarse lançou o festival de teatro Em Cena e o Birra foi o único patrocinador e parceiro da alimentação por algumas edições: “Estávamos sempre apoiando a cultura. Trouxe de uma viagem aos Estados Unidos ideias criativas como os individuais de papel para a turma desenhar com canetinhas e lápis de cera que ficavam em cima das mesas, fotos da clientela bacana e habituê espalhadas pelo salão. Eram centenas de pedidos diários. No dia do nhoque da sorte vendíamos 400 pratos.”

O Tatata Pimentel aparecia toda noite para sua benção diária e chegava gritando: “Clóvis,  o meu passaporte para o inferno!”. Clóvis era o barman que manejava a – então inédita na cidade, maquineta da Frozen Margarita deliciosa. Outra ideia, essa do amigo Possi Neto, foi a noite beneficente, igual a do Spot de São Paulo, quando personalidades da cidade atendiam o restaurante e a renda era revertida para uma instituição de caridade: “Copiamos e supecolou. Era uma farra. Todos adoravam”.

O Birra durou 16 anos, onze no Shopping Praia de Belas e cinco no Shopping Total: “Fenômenos como Barranco e o Santo Antônio são raros. Normalmente vivemos ciclos.”

Falando em ciclos, um dia Silvio e Marcos chegam com mais novidades: “Vamos comprar o Gattopardo. Meu Deus! Quanta responsabilidade. O melhor da cidade, que reunia a nata da sociedade porto-alegrense. Me deu frio na espinha”.

O time desembarcou no casarão da 24 de Outubro, e aos poucos o Gattopardo foi ganhando nova roupagem, cardápio, chefs. Ideias inovadoras em atendimento e a confeiteira Verinha, que escrevia elogios aos clientes nos pratos com chocolate e desfilava no salão sorrindo e cativando a todos, sob a gerência das craques Cynthia Requena e Alice Cirne Lima. A convite dos proprietários do Swan Tower, o Gatto ganhou uma franquia em Novo Hamburgo, que durou mais ou menos 2 anos. Também a convite dos proprietários do Swan Tower, Eleonora e Ana lançaram um restaurante francês no hotel  em Porto Alegre chamado La Fenêtre, inaugurado em 6 de janeiro de 2000, Dia de Reis. Cardápio magnífico, ambientação divina também assinada por Ivan Andrade e só era atendido por mulheres. Tudo bacana, mas durou apenas dois anos.

Para Eleonora todo o desafio é irresistível. Então quando a pernambucana Liliana Magalhães veio dirigir o Santander Cultural a convocou a assumir o Bar do Santander Cultural, que estava há um ano sem operação de gastronomia: “O desafio era muito bom. Fazer um restaurante no centro e contribuir para melhorar a nossa cidade. Lá fui eu, Maria Alice na gerência, Paulo na cozinha, Adriane, Cida e muitos outros. De novo, conseguimos. O centro para minha surpresa e ignorância, foi uma descoberta. O lugar já era lindo, e mais uma vez com a ajuda o Ivan Andrade, ficou um charme. Foram 15 anos de muita alegria e movimento. Eventos, muitas exposições e parceria.”

Por fim, veio o City Hotel, novamente reinventado. Fazer café da manhã de hotel. Começar a trabalhar as 4h, atender bar, clientes nos quartos e mais: os voos retidos: “Sabes o que é isto? Hotel tranquilo tudo planejado e aí. Voo retido! Chegam 100 hóspedes às 10h da noite para jantar e tomar café da manhã no outro dia! Isto que é emoção forte! Foram dois anos de muito aprendizado. Parceria muito boa. Aí veio a pandemia… infelizmente o City fechou”.

Eleonora parada? Jamais. Nem pensar.

Alice, sua fiel escudeira, amiga/irmã e companheira de trabalho por mais de 20 anos a convidou para fazer comidas personalizada e deliciosas, com DNA de tudo o que aprenderam pelas inúmeras casas que capitanearam juntas. Um projeto caseiro e customizado para atender os clientes que sentem saudades dos pratos do AL Dente, do Birra e dos outros: “Topei direto. Há seis anos estamos amando cozinhar e atender os amigos que querem a experiência de massa artesanal com todo o capricho.” São marmitas gourmets tradicionais e fitness, com linguados, camarões, filés e mil delícias.

A dupla também faz jantares e almoços todo o fim de semana com cardápio muito gostoso e especial, além de coquetéis e eventos. As delícias são divulgadas pelo whatsapp e no perfil no Instagram e atendem por WhatsApp: “Aos 68 anos começo de novo a cada dia. Amando o que faço aprendendo e me dedicando de corpo e alma. Como sempre vivi. Não tem trabalho acabado estou sempre reiniciando e tentado fazer melhor.” Pura mistura de sabor com amor. Nós, teu fã-clube de muitas amigas e amigos só agradecemos porque por aqui, o mundo de muita gente, foi você que mudou.

Ficou com muita saudade do Birra, do Al Dente e do Gattopardo? Chama as gurias no whats: Alice (51) 991570239 e Eleonora (51) 993887138.

Por Mariana Bertolucci

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  1. Regina motta says:

    Maravilha. Ler e lembrar. Tempos idos vividos e saudosos👏👏😍parabéns a jornalista por trazer fatos lindos da culinária da nossa Porto Alegre. Parabéns Eleonora Rizzo trajetória brilhante , sucesso inegável e talento reconhecido 🙌🙋‍♀️👏👏👏

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