Sou dona de escola, que é sediada numa casa grande, bem grande. Então você pode imaginar quantas vezes eu fui e vou em ferragens.
Ferragens são aqueles locais que vendem tudo, ou quase tudo: materiais de construção, hidráulica, elétrica, reparos, limpeza, enfim, manutenção.
Confesso que raramente é rápido ir às ferragens. Tenho observado, nas minhas idas, o porquê da demora e tenho algumas hipóteses:
Nada é muito simples. Por exemplo: você chega e pede por pregos. O atendente, geralmente homem, pergunta: “Pregos de aço? Galvanizado? Com ou sem cabeça?” E tem mais uma: “Cabeça de prego dupla ou simples?” E não pensem que esgota por aí – tem mais perguntas, é só cavoucar.
Algumas vezes, os profissionais, os “fazem tudo”, que vão às ferragens buscar algo, aproveitam para bater um papo com os vendedores, tomar um café. Quando é dia de jogo de futebol ou o dia depois de um jogo qualquer, também demora, porque falam bastante sobre isso. Imaginem em dia de campeonato! Ou quando o seu time perde? Ou ganha?
Tem também a situação, como a minha, de ir com uma listinha das coisas que estão faltando. Sou objetiva, mas, chegando lá, sempre vêm perguntas muito complexas e que eu não sei responder. Resultado: sempre compro mais do que preciso e depois preciso voltar para trocar.
Nessa semana fui numa ferragem perto do meu trabalho. Nessa, a maioria dos atendentes me conhecem. Cheguei e os funcionários que estavam no balcão estavam ocupados. O do caixa estava mais liberado e eu, com pressa.
Vi que iria demorar, então resolvi falar com o funcionário do caixa.
— Bom dia, será que você poderia, por favor, pegar 4 sacos de brita para mim?
Na sequência, me perguntou: “Qual o tipo de brita? Quantos sacos mesmo? É para entregar ou você vai levar? Não consta no sistema 4, só 3.” Daí ele chama, de onde está, o rapaz do estoque, que responde que tem sim 4 sacos de brita rosa miudinha. UFA, comemorei.
Enfim, vou ao caixa, pago e o rapaz me pergunta qual é o meu carro, para o colega levar os sacos de brita do estoque para o carro. Digo que estarei do lado de fora, que indicarei qual é o carro, abrirei o porta-malas, baixarei o banco para colocarmos os sacos de brita – que pesam 20 kg cada um.
Quando ele chega, de óculos escuros e empurrando o carrinho, me olha e diz:
-Nesse carro, não vai caber.
Ah, mas vai, pensei. Mal sabe ele que carrego, muitas vezes, a comida da escola, que vem da nossa cozinha – que fica em outro endereço – mais muitas compras de supermercado e tudo mais que envolve o carro de uma mulher.
Foi a partir disso que pensei: como eu adoraria ser atendida em ferragens também por mulheres.
Valesca Karsten
Educadora, fundadora e diretora da Escola de Educação Infantil Caracol, em Porto Alegre.
Curadora de arte para a infância e realizadora do podcast PodeMãe.
@valesca.karsten
