Esperando eu não estava, mas não cheguei a ficar surpresa quando a perimenopausa bateu à minha porta e eu aaabriii!!! Mas nada de pulinhos de corda e de “senhoras e senhores, põe a mão no chão; senhoras e senhores, dá uma rodadinha…”. E sim um “senhora, você já fez isso, quando criança, depois cresceu, teve filhas, bateu corda para elas, agora vai para o olho da rua”. Vai ser livre, leve e solta. E viver coisas novas. Tudo o que ainda há para viver. Mas, antes, certifique-se de deixar a casa organizadinha, para poder seguir sua rota mais tranquila. Olha com carinho o que precisou ser acumulado embaixo do tapete ao longo dos anos, porque antes, quando era bagunça o tempo todo, não dava para dar conta desse tipo de tranqueira. Era um carrega as filhas pra escola, faz lanchinho, leva para passear, lê livrinho, dá um cheirinho e, ufa, boa noite. Ah, e gentileza não esquecer da elegância ao encaixar suas necessidades pessoais e profissionais nesse corre.
Essa imagem me veio depois de ler o pósfácio de Fazendo as pazes com a menopausa, que a autora Sheila de Liz sabiamente intitula de Enfim livre (título que também roubartilhei para esta crônica de estreia na Revista Bá). Livre da busca incessante do homem certo, dos desconfortos menstruais, de colocar a necessidade do trabalho, ou da família, na frente da nossa. Livre para cuidar mais de nós mesmas. De mim mesma. Porque, se não foi assim durante tanto tempo, tem de ser mais do que nunca agora, que um ciclo está anunciando, sem pressa, no seu tempo, que logo mais, não tarda tanto assim, ele vai terminar. Então é bom dar ao ciclo o que é do ciclo, para que ele não venha depois meter o bedelho onde não for chamado e nos importunar, me importunar, quando as portas da aeronave já tiverem sido fechadas.
Nesse período relativamente longo que antecede a menopausa, é bastante natural que questões não resolvidas finalmente venham à tona, nos dando uma oportunidade incrível de nos livrar de muita bagagem emocional antes da nossa nova etapa de vida. Nossa menstruação, aliás, é uma oportunidade de purificação profunda que nós, mulheres, ganhamos todo mês de eliminar não apenas as toxinas físicas como todo lixo tóxico que acumulamos ao longo do mês. Mas menstruar é chato e desconfortável. E nem todo mundo gosta. Eu também não era grande fã, até começar a praticar Ashtanga Yoga regularmente, há mais de 10 anos. Segundo a tradição, não se pratica nos dois ou três primeiros dias da menstruação, de forma que monitorar os dias de sangramento passou a estar sempre no radar. No começo, até resistia a respeitar os dias de descanso, o chamado ladies holiday, mas logo percebi que me relacionar com meu ciclo poderia ser uma experiência com muito a me ensinar, se eu estivesse aberta para isso, claro, e decidi me render por completo à recomendação.
Eu superentendo, e muitas vezes ainda sinto desse jeito, que a menstruação possa vir acompanhada de muitos desconfortos e inconvenientes, e que hoje em dia menstruar é uma escolha pessoal. Mas quando ela é acolhida integralmente, como um processo orgânico e natural, pode também trazer muita sabedoria e aprendizagem. Foi o que aconteceu comigo, ao longo dos anos, quando não só passei a respeitar o descanso como também a observar e a fluir mais em sintonia com a energia introspectiva daqueles dias. Acompanhar meu ciclo, por exemplo, me ensinou que tudo acontece no seu devido tempo, e não exatamente no tempo que a gente quer, e que não adianta forçar. Perceber isso na prática, mês a mês, me tornou muito mais preparada para seguir dançando a minha música, mesmo que de vez em quando eu me antecipe, me enrole, e erre o passo.
Nosso ciclo natural também pode se tornar nosso grande mestre sobre um aspecto fundamental e indispensável para uma vida mais leve, a compreensão da impermanência, ao nos lembrar que tudo é constante movimento. Por isso, uma hora a perimenopausa bateria, e bateu, sim, à minha porta, e eu abri! Talvez não a estivesse esperando, mas ela tinha seu próprio tempo. E chegou daquele jeitinho, me deixando bem aérea e atrapalhada dentro da névoa mental, fazendo com que os lapsos corriqueiros – “o que eu ia mesmo dizer”, “onde mesmo eu coloquei a chave”, “o que diabos vim fazer na cozinha” – se tornassem interrogações gigantes, às vezes até apavorantes, para as quais todas as respostas pareciam muito minúsculas e indefesas.
Trouxe outras cositas más, mas isso já não vem ao caso. Porque o causo completo já está armado e não é muito difícil de entendê-lo: mais uma vez, a natureza do meu corpo, este corpo que é natureza, vem lembrar que a vida é movimento, impermanência, e que, no seu devido momento, chegará o fim de mais um ciclo, um bem importante. Mas, se eu for sábia e ficar atenta aos sinais que meu corpo, minha psique, e todo meu ser forem me dando, olha que eu vou mesmo para o olho da rua: ser livre, leve e solta. E viver tudo o que há para viver.
Lia Luz, jornalista, escritora e professora de yoga
