Com 28 anos de carreira, o ator carioca de alma gaúcha fala sobre a maturidade na carreira, a paixão pela família e o Sul do país (Foto Thiago Olivar )

Quando parou com a natação, esporte que dos 3 aos 18 anos lhe rendeu mais de uma centena de medalhas, Thiago Lacerda queria ser gerente de banco. Para ter mais jeito com as pessoas e vencer a timidez, foi atrás de um curso de teatro. Desde então, esse carioca gauchíssimo entendeu a importância de seguir sua iluminada intuição: “Se quisessem apostar que eu viraria ator, eu fechava na mesma hora. Era ceeerto que não. Tudo até hoje na minha vida e carreira foi tão natural, que não tenho muita dúvida do que sou capaz de fazer, porque eu não pedi nem barganhei para estar aqui. A vida me conduziu. Nasci para fazer isso”. É com essa mesma gratidão resignada e entrega que ele encara cada novo desafio. Um dos maiores que já teve foi interpretar o Capitão Rodrigo no cinema, que o aproximou ainda mais de uma de suas paixões, a cultura tradicionalista do Rio Grande do Sul. Esses laços estreitos de cumplicidade do flamenguista roxo com as raízes do pampa chamaram atenção durante as filmagens do longa O Tempo e o Vento, em Bagé. “Cheguei no filme na maciota, né? As pessoas lá pensando: ‘Agora vem esse carioca grandão barbear nos nossos cavalos’.” Faltavam uns cinco dias para o início das filmagens e saiu ele a cavalo pelo campo; sem perceber, muito natural e intuitivamente, como tudo na sua vida, começou a paletear uma vaca. De cima do cavalo, ouvia o zunzunzum da gauchada que andava pela volta: “E não é que o guri anda a cavalo?”. Do jeito gaudério que acabou incorporando do gosto pelas coisas daqui e dos personagens, ele se orgulha demais: “Adoro. Nos momentos de descanso do filme, ia para o lombo do cavalo, campeava, mateava, ouvia histórias, mas não vou correr o Freio de Ouro ainda (risos)”. A motivação para tanto interesse, segundo ele, nasceu do temperamento curioso e da intuição certeira: “Leio tudo, me informo, procuro. Acabo entendendo o que vai me atrair e mergulho. Fiquei quatro anos lendo, relendo, lendo de novo Erico. Tentei ver a minissérie e vi que ia me ferrar, porque o trabalho do Tarcísio era maravilhoso. Então desisti, depois vi algo do Francisco de Franco que tem na internet, mas também não aprofundei. Entendi que queria o Tarcísio de um lado, o Francisco do outro, e dar no meio”. Dar apaixonadamente “no meio” é a especialidade desse aquariano nascido em 19 de janeiro de 1978 que se entrega com simplicidade, amor e bom humor contagiantes a tudo que se propõe a fazer na vida, seja em família, nos palcos, na TV, sendo generoso com os amigos e com os colegas de elenco. Desde Malhação, como o professor de natação Lula, em 1997, foram muitas dezenas de papéis na TV, épicos no teatro e vários filmes. Com Hilda Furacão, foi ator-revelação aos 20 anos. Passados quase três décadas dessa bonita trajetória, com a naturalidade de sempre, Thiago ganha a cena a cada sorriso largo que dá. Grande ator, marido da atriz Vanessa Lóes, pai de Gael, Cora e Pilar, esse talentoso gigante segue grato e intenso. Nos próximos anos, um dos muitos desejos é seguir viajando mais pelo mundo. Literalmente. De mala e cuia.

Revista Bá – Comecemos do começo…

Thiago Lacerda – Nunca tive perspectiva artística nenhuma na vida, minha família é de pragmáticos, economistas, dentistas, professores. Gente simples e que seguia outra linha. Sou o primeiro dos dois lados. Tudo aconteceu muito por acaso. Não era um sonho meu. Nunca foi uma possibilidade, tampouco uma vontade. Não bati na porta certa, foi a porta certa que bateu à minha testa. Sou muito privilegiado nesse ponto. A vida se apresenta para mim e me dá oportunidades para as quais eu me preparo sem saber. Meu trabalho nesses 35 anos tem sido me preparar para quando esses momentos acontecerem eu estar ali de verdade e merecê-los. Nunca precisei fazer muito esforço para conquistar lugares em que eu gostaria de estar. Talvez por isso, nunca tenha feito muita expectativa de nada. A verdade é que a vida e a minha profissão são muito generosas comigo.

Bá – Foi com Matteo, em Terra Nostra, que entendeu o seu dom?

Thiago – Naquele momento tive certeza de que o caminho não tinha volta. Estava trabalhando com televisão há dois anos e meio sem ter certeza do rumo que as coisas iam tomar. E o Matteo realmente me disse “ok, agora acabou o ciclo de incertezas”. Realmente a coisa ficou séria e eu meti a cara. Fui fazer teatro.

Bá – É uma impressão ou o teatro ganhou seu coração de ator?

Thiago – É impressão. Não tem divisão para mim. Necessito do ponto de vista técnico. Faço teatro não só porque eu gosto de fazer, eu gosto também, mas primeiro porque eu preciso fazer teatro. Não fiz formação de ator. Fiz dois anos de um curso não profissionalizante. Ninguém nunca me ensinou técnica mesmo. Aprendi meu ofício fazendo. Quando decidi em Terra Nostra que não tinha como voltar atrás, fui fazer teatro, porque eu pensei: “Cara, preciso aprender a fazer essa porra. E não vai ser na televisão. Eu precisava fazer teatro para aprender o meu trabalho, que eu ainda não sabia. De novo, tudo muito intuitivamente. Fui colocado nesse lugar aqui e confio nessa intuição, que vem me conduzindo, como me conduziu até o Capitão Rodrigo. Hoje, percebo recursos que antes não percebia. Busco em lugares que talvez o teatro tenha me dado, por exemplo, ou em outros personagens. É muito de ver os colegas. O Capitão Rodrigo, por exemplo, tem um tom de voz bem mais grave do que o meu normalmente. O que é um recurso que eu já venho trabalhando no teatro há muito tempo, mas que Fernanda (Montenegro) me falou: “O registro do Capitão Rodrigo está no culhão, a voz e energia dele estão no culhão. Não é falar aqui (apontando para a garganta), não é por aí. É daqui que ele fala (gesticulando como se tivesse o órgão sexual masculino). Traz esse cara para o culhão, para o pau dele”. Não foi o Jayme nem o Tarcísio que me disseram isso, foi ela. Daí você percebe a voz que ela faz no filme. Ela usa o recurso que ela tem. Então tá, eu também tenho, como é que eu vou usar, como é que eu acho em mim? Aí é que eu acho em mim? Você começa a fazer essa experimentação. Algo que acontece observando ou trocando com o seu colega. Não tenho mecanismo, recurso técnico, que uma figura como Luis Mello ou Celso Frateschi têm. Figuras acadêmicas, atores antigos ou atores de rádio que fazem o que querem com a voz. Até posso ter, só que eu preciso descobrir, e a maneira é fazendo. A minha maneira é assim.

Bá – Há algum outro ator, experiente ou não, que também tenha ensinado muito a você?

Thiago – Como meu processo é intuitivo, só funciona para mim. Os recursos que uso ou descubro para contar as minhas histórias eu invento. Mas basicamente aprendi a fazer o meu trabalho observando as pessoas. Trabalhei com a Fernanda, com o Paulo Autran, Mario Lago, Luis Mello, Tony Ramos, Fagundes, Raul Cortez, Gloria Pires. Com atores incríveis como Eduardo Moscovis, Rodrigo Santoro, Danton, Calloni – atores maravilhosos. Em Hilda Furacão, com Mario Lago e Paulo Autran, eu olhava no roteiro de gravações e ia nos dias das cenas deles. O Paulo, eu ficava na portaria vendo chegar. Observava se chegava de motorista, se cumprimentava as pessoas. Eu o seguia e nem sei se ele percebia. Não era meu dia de gravação, mas ficava no camarim, fingindo que trocava de roupa e só olhando: ele trocar de roupa, ele ensaiar, ele passar o texto, ele aquecer, ele se alongar… O que quer que ele fizesse, eu olhava. Não cito nomes, mas se um cara fazia alguma coisa que eu não achava legal, eu filtrava só o que eu achava legal. Fui aprendendo a fazer, fazendo. É meio assim até hoje.

Bá – Como começou a sua cumplicidade com a cultura gaúcha?

Thiago – Há muitos anos, com essas minhas vindas despretensiosas para cá. Fui realmente fazendo amigos. Tomo chimarrão há quase 30 anos. O chimarrão é só um aspecto. A gente não ouve milonga no Rio de Janeiro, nem sabe quem é Jayme Caetano Braun. Na medida em que comecei a vir muito para cá, por ser muito curioso, comecei a estabelecer as relações. Talvez essa seja a maior ou única qualidade que eu tenho como ator. Eu sou um curioso mesmo. Adoro histórias, me informar sobre qualquer assunto. Quando eu encontro figuras como as que existem aqui, que sentam em volta da fogueira para carnear uma ovelha, cevar um mate e começar a contar história, eu me enlouqueço. Figuras como Eron Vaz Mattos, Minga Blanco. Gente lá da fronteira, essas figuras que cultivam a tradição. Conheço muito poucos lugares no mundo com essa coisa ativa de cultivar a tradição, quase num procedimento oral, grego, de passar verbalmente as histórias. Já o porto-alegrense tem uma pegada mais cosmopolita. Acho que eu sou um tradicionalista. Não sou gaúcho, sou carioca, mas gosto e me interesso por essa tradição. Eu sento ao lado de uma figura dessas e fico dias. Escuto as histórias, adoro e me alimento disso. Sou intuitivo e seletivo com o que me interessa, com o que vai funcionar para mim. Muito desse pouco que eu tenho de cada coisa é fruto da curiosidade e do prazer que eu tenho de ir atrás das histórias. Sou ator, né? Não sou o Capitão Rodrigo, mas finjo que é uma beleza.

Bá – Você se preocupou em se diferenciar o Capitão Rodrigo do Garibaldi, de A Casa da Sete Mulheres?

Thiago – Não. A referência do Garibaldi nunca me preocupou. O que me preocupava era o Tarcísio. Eu queria muito homenageá-lo. Tenho muito respeito pelo que o Tarcísio significa. Admiração pelo ator e o colega que ele foi. Nossa semelhança física aconteceu. Em alguns momentos no filme, as pessoas fazem muita analogia. Queria que minha interpretação fosse uma homenagem, não uma cópia. Sabia que a comparação de alguma forma ia acontecer. Ele foi o primeiro a saber. Éramos pai e filho numa novela do Jayme e um dia não me aguentei. Ele estava lendo, sentei ao seu lado no camarim, e disse: “Tarcísio, eu fui chamado para fazer o Capitão Rodrigo”. Ele fechou o livro, parou, me olhou e disse: “Você vai fazer muito bem”. Falei: “Que bom, você acha?”. Ele me olhou de novo e disse: “Eu jamais poderia ter feito aquilo”. Eu disse: “Você tá louco, Tarcísio, aquilo é antológico”. E ele: “Não podia, não, o Capitão Rodrigo tinha 35 anos e eu 55”. Mas olha a beleza e a energia daquele papel… Tem outra coisa, ele completou: “O personagem tocava violão, e eu nunca toquei violão”. Essa foi a minha maior frustração do filme. Como ele, também não aprendi a tocar. Fiz aula, mas me fez falta a disciplina que o violão exige. Em algum momento, precisei da ajuda do Jayme, e ele não me ajudou muito, porque não me mandava as músicas. Lá pelas tantas, virou viola, e o que eu estava aprendendo, parei. Fui atrás da viola e não achava a viola nem alguém para me ensinar. Foi minha única frustração no filme, porque eu queria muito homenagear o Tarcísio tocando violão. Só nós saberíamos. Mas foi como tinha de ser.

Bá – Na sua intuição para o trabalho, você já fez alguma escolha errada?

Thiago – Em algum momento, claro que preciso fazer escolhas, e às vezes você se pergunta: “Pô, e se eu tivesse feito tal coisa, ou seguido aquele caminho ou outro?”. Mas não chego a me arrepender, minhas escolhas são conscientes, e tudo continua caminhando de um jeito que eu jamais esperei. Sou muito grato à vida, porque sou muito feliz fazendo o que faço. Outro dia alguém me falou “Mas o Rodrigo Santoro está em Hollywood, o Wagner não sei o quê, e você?”. Eu disse: “Eu o quê? Eu não quero, meu”. Já tive essa chance; caminhando em Los Angeles, um cara me abordou dizendo que era diretor da maior agência de talentos dos Estados Unidos, e por ser casado com uma brasileira, me reconheceu e queria me apresentar à dona da empresa. E era mesmo da maior agência de atores americanos. Ele me apresentou no dia seguinte, e eu amarelei. Conheci Los Angeles, não quero viver lá, eu não quero aquele lugar, nem aquela gente. Aquela cultura do “minta pra todos e se dê bem na vida”, “f… o amiguinho e seja feliz”. Eu não quero isso para minha vida e optei por não ir. Não sei o que seria. Não fui por dois motivos: Sou muito feliz no Brasil, contando as histórias que eu conto aqui. Tem muita história que eu quero fazer no Brasil. Segundo que eu tinha 23 anos, já tinha conhecido a Vanessa e estava apaixonado. Foi consciente, não me arrependo. Ao contrário.

Bá – Como despertou o seu interesse pelos textos do Shakespeare?

Thiago – Quis trazer mais as peças de Shakespeare para o Brasil. Levar as pessoas para assistirem Shakespeare e entenderem a peça, os personagens, e ao mesmo tempo respeitarem a obra. O Ron Daniels é um craque em Shakespeare. Foi um processo lindo de muito desafio. Hamlet teve uma temporada muito especial. Foi sequência de textos especiais. O Evangelho, Calígula, Hamlet, Macbeth, Medida por Medida. Espetáculos que se retroalimentam. O Evangelho me trouxe público para o Calígula, que me trouxe público para o Hamlet. A ideia surgiu do Ron, que chegou à conclusão de que deveríamos cumprir esse papel de apresentar mais Shakespeare ao público brasileiro, sem volteios intelectuais, e sugeriu fazermos duas montagens. Daí, eu emendei: “Isso! Ao mesmo tempo!”. E ele: “Cê tá louco?”. Algo que desafie e intrigue a nós e ao público. Isso é um plano de carreira? Isso acontece. Fiz em 2012 o Capitão Rodrigo e o Hamlet. Para onde ir? Daí aparece uma novelinha das seis com um personagem político, que me interessou. Me interessam as pessoas que estão em volta também, aqueles atores, a direção… Se me perguntam qual meu plano de carreira, eu não tenho, rola. O ator tem de experimentar. O ator tem necessidade de experimentar os vários lugares. Tem que fazer teatro, cinema, dublar, fazer TV. Não tem esse negócio que ator só é ator fazendo teatro. Ou só é ator de cinema. Isso é chato, é pouco. O ator é melhor quando experimenta mais coisas. Cada personagem faz da gente um ator mais interessante. Hoje sou um ator muito mais interessante do que antes do Capitão Rodrigo, do que antes do Hamlet, por exemplo.

Bá – Algum dos personagens o marcou mais?

Thiago – Tenho muito orgulho da minha carreira. Do Matteo, do Garibaldi, do Evangelho Segundo Jesus Cristo, do Calígula, do Hamlet, do Capitão Rodrigo. Falei cinco, seis personagens. É difícil escolher um, eu sou muito feliz. Se a minha carreira parasse hoje, estaria muito feliz. O Macbeth é um baita projeto. É meio clichê, mas não nego que o Hamlet é insuperável, que o Capitão Rodrigo está na mesma diapasão que o Hamlet, como é que você nega isso?

Bá – Esse depoimento vai mexer com os brios gaúchos…

Thiago – Até parece que eu preciso ajudar a autoestima do gaúcho. Se tem algo realmente admirável é a autoestima desse povo. Para um carioca, é muito engraçado. Eu dou muita risada, e ao mesmo tempo admiro muito. Eu gostaria que o carioca tivesse um pouco mais de apego com as coisas da gente. É bonito de ver o orgulho e o cultivo das coisas daqui. O carioca tem orgulho, mas é um orgulho safado. Tem essa safadeza. Quando que o Planeta Atlântida ia acontecer em Manaus? Nunca. O Rock in Rio é em Lisboa, em Madrid. É o nosso jeito. A história do povo do Rio de Janeiro é diferente da história daqui.

Bá – Você herda os hábitos dos personagens?

Thiago – Isso é a coisa mais legal do meu trabalho. Posso ser vários. Já fui cirurgião, assisti a uma cirurgia de cérebro aberto a dez centímetros de distância. Mas não saí dali e fui operar alguém. Já a fotografia é um prazer possível. Sempre gostei e fui estudar minimamente na época em que fiz um fotógrafo, vi que poderia ser um baita hobby, e é. Estamos o tempo inteiro em contato com coisas que não fazem parte da nossa vida. Isso traz experiências maravilhosas. No campo, por exemplo, a maravilha que é encilhar o cavalo às 6h da manhã e sair pelo pampa e só parar para matear e comer uma carne no chão? E voltar a encilhar, e tocar o gado e banhar o animal depois, matear de novo, trocar conversa no balcão. É maravilhoso. Quando um engenheiro vai experimentar isso? Minha profissão é divina também por isso. Aprendi a encilhar um cavalo. Não que eu tenha que encilhar, mas é muito legal. Eu posso dizer “os caras fazem assim”, eu vi, eu experimentei. Posso dizer que conheço a língua italiana, conheço a história da Itália, porque uma vez eu contei a história da imigração do Sul do país. Por que o Sul tem essa história e o Rio de Janeiro não tem? Eu sei. Porque eu estudei esse período.

Bá – Quais os seus prazeres?

Thiago – Gosto de ficar na natureza. Cada vez mais. Temos uma casa em Petrópolis e vamos para lá não fazer nada. Ficar mateando, ouvindo música. O chimarrão é meu dia a dia. Gosto de ficar no mato. Adoro praia, esporte e ver qualquer esporte na TV. Eventualmente um filme na TV, cinema, teatro. São hábitos simples. As pessoas tendem a acreditar que temos hábitos fantásticos, champanhes, helicópteros, mansões, viagens, porra nenhuma… Levo as crianças à escola, tenho folga entre deixá-las e a hora do almoço, depois os projetos ou o Projac. Nesse tempo, jogo um voleizinho na praia, pedalo ou corro e dou um mergulho. Quando eu não vou à praia, passo e-mail, pago conta no computador e fico na varanda. Quando chego mais cedo, fico sozinho na varanda de casa, adoro. É um momento incrível da minha vida. É fazer nada em casa, que é raríssimo. É um prazer maravilhoso. Viajar também. Quero viajar mais.

Bá – O que mais o encantou na paternidade?

Thiago – Foi o prazer absoluto disso tudo. Você olhar aquelas figuras e falar: “Nossa”. Não tenho muitas palavras para definir o que é ser pai e mãe. O que mais me impressionou é essa coisa do cotidiano. De como melhora, muda e aumenta a cada dia o amor. Ouvia os amigos falarem que pegar o filho nos braços pela primeira vez era revelador. Quase um passe de mágicas. Nada disso. Peguei meu filho nos braços, eu olhava para a cara dele e pensava: “C…, e agora?”. E a cada dia, percebia algo diferente em mim mesmo. Uma coisa que vai melhorando, vai aumentando, com a preocupação e o medo, que também aumentam. Medo de não conseguir estar mais aqui. O cagaço de não conseguir formar um ser humano maravilhoso. Porque a gente quer que eles sejam maravilhosos. Depende muito do exemplo que damos, do que conseguimos dizer, das experiências que proporcionamos, das mudanças que fazemos em nós. Assumir a incompetência de não conseguir mudar alguns aspectos. Dizer “Olha, desculpa, mas o papai é assim, o papai tem defeito, e é importante você saber disso”. E isso ser também uma forma de educar.

Bá – Qual o seu segredo e da Vanessa para manter os 12 anos de rotina e relação bacana de vocês?

Thiago – Não tem segredo, nem fórmula. Não é essa maravilha, essa rotina bacana. É igual a de todo mundo. Saímos na porrada. Queremos nos separar o tempo inteiro. E aí nos reentendemos de novo, achamos que devemos caminhar juntos, perseverar, mudar, fazer concessões, desculpar, repensar. Isso é o tempo inteiro. Não é bolinho estar casado. Doze anos é muito tempo. O tempo é muito corrosivo e muito cruel. E ao mesmo tempo é muito legal você sentir que perseverou, que insistiu e foi legal. A única coisa que eu realmente quero é amar a minha mulher para sempre, a mãe dos meus filhos. O que quer que aconteça, eu faço questão de amá-la para sempre. Relação é sempre uma incerteza. Tem que ser bom. É tão difícil estar casado, que se for ruim não vale a pena. Eu não acho que seja legal manter uma relação por convenção. O legal é ser feliz pra caralho, mas é muito duro. Muito duro mesmo. Quem é sozinho e pode dizer que é feliz sempre? Então é assim. Relação é sempre uma incerteza. Tem que ser bom. É tão difícil estar casado, que se for ruim não vale a pena.”

Bá – Existe algum plano de migrar ou experimentar outros ares dentro da atividade artística, como dirigir ou produzir?

Thiago – Faço qualquer coisa. Sirvo cafezinho, varro o chão, figurino, maquiagem. A única coisa que não faço é produção. Primeiro que eu não tenho talento, mas o que me assombra é que, se der certo, somos maravilhosos, parabéns para todos. Se der errado, a culpa é sempre da produção. Não tenho talento para a parte técnica, fazer conta. Direção, sim. Quero muito contar uma história minha. Somos muito instrumento. Propomos muito, mas o resultado final de um personagem é o que o autor pensou, mais o que o ator propôs e o que o diretor interferiu. Um produto de três momentos. O ator não é dono do resultado final. Talvez no teatro seja um pouco mais possível, mas ainda assim o ator é um instrumento. Eu encaro assim o meu trabalho. O ator precisa estar a serviço da história e do personagem. Gostaria de um dia contar a minha história. Colocar a câmera onde eu quiser, usar a luz que eu quiser. O Tempo e o Vento é um filme maravilhoso, mas é um filme do Jayme. A pessoa vê e pensa: “Esse é o Jayme Monjardim”. Não quero virar diretor, mas queria um dia, como exercício de ator, contar a minha história. Para vivenciar essa experiência, porque isso faria de mim um ator mais interessante também.

Bá – Com o tempo, o rótulo de galã vai sumindo? O que você acha disso?

Thiago – Mari, ligo zero para isso. Acho inevitável. Nunca me preocupei com isso. O Calígula não era um galã, nem Hamlet ou Capitão Rodrigo. São personagens maravilhosos. Acabam sendo porque as pessoas precisam dar rótulos e dão o nome que querem. É o herói romântico. Nunca me pautei por galã ou não galã. Tampouco pensei “Agora vou fazer um personagem para mostrar para as pessoas que eu não sou só galã”. Que puta coisa chata, fazer um vilão é tão maravilhoso quanto fazer qualquer outro personagem.

Por Mariana Bertolucci

CategoriasSem categoria

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.