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A França e os Caminhos de Flávia

Há três décadas radicada na França, Flávia Araújo Santos de Mello dividiu conosco em 2017, na edição especial da Revista Bá França, um pouco dos encantos da Normandia, a região onde vivia, na França.

Terceira na escadinha de quatro irmãos em quatro anos, Flávia Araújo Santos é agitada, ativa e alegre desde sempre. Participativa e comunicativa em casa e no colégio João XXIII, onde estudou, ainda na sede perto da Redenção. Dessa época, ela recorda já gostar de ter gente à sua volta.

Flávia lembra também de quando tinha 10 anos e se mudou com a família da casa do Partenon para a bela morada na Bela Vista, decorada sob o olhar de artista da mãe, Zélia França de Araújo Santos, que pintava, fazia esculturas e tapeçarias. Ali, na Carlos Trein Filho, número 900, o quarteto de Fúlvio e Zélia foi feliz até 1976 quando, aos 16 anos, Flávia, os irmãos e o pai perderam Zélia precocemente em um acidente de carro: “Foi muito complicado. Ficamos completamente perdidos e a família desmontou. Tentamos encontrar rumos no estudo e no trabalho”, recorda, saudosa.

Apesar da ausência física, as lembranças e a presença da mãe sempre estiveram entre eles. Tanto que os quatro se envolveram na edição de um projeto que fará um registro biográfico da matriarca e artista plástica. Flávia começou cedo no turismo ajudando a tia Ana Maria A. S. Zimermann no setor de viagens da JH Santos, empresa da família, da qual o pai era um dos três irmãos fundadores: “Sempre gostei de turismo e de viajar”. Passou ainda pelas agências Turinter e Steiner Turismo, até abrir as portas da Flaviatur, que durou mais de 10 anos: “Viajava muito e tinha uma clientela bárbara. As relações do meu pai me abriram portas e eu era muito dedicada aos clientes”.

Até que, em 1991, de férias em Portugal, Flávia conheceu o restaurateur português José de Mello, com quem se casou dias depois. Sim, dias depois! Nos anos seguintes, o casal trabalhou na revitalização de hotéis de um grupo francês pela Europa. Chegaram à Normandia em 1996, para assumir e transformar o decadente Hotel Campanile da cidade de Cherbourg em um case de sucesso. E de lá não mais saíram, e foi em abençoado solo francês que Raphael, o único filho, nasceu.

Há mais de três décadas fora de Porto Alegre, ao lado do marido, ela comandou um paraíso na costa noroeste da França, na comuna de Barneville-Carteret: uma mansão antiga transformada em hotel-boutique, o Hôtel des Isles, que tinha 31 suítes cheias de charme e aconchego, com décor inspirado nas casas de praia dos anos 1930 da região e com os toques de bom gosto da proprietária, que herdou o senso estético da mãe. Em tons de mar e com uma vista divina para a praia de Barneville, as ambientações do des Isles agradavam tanto que a exigente clientela internacional também podia adquirir as peças. Aliás, há anos o talento para decoração de Flávia já alcançou fama francesa e ela assinou projetos de decoração de muitos clientes, inclusive de fora da Normandia.

Mas a primeira coisa que os hóspedes elogiavam era o jeito de receber do casal anfitrião e sua equipe. “Nos destacamos. O bem-receber na França não é comum”, explica Flávia.

A posição privilegiada em frente ao mar ajudava na excelência da cozinha do restaurante do hotel, que tinha mais de cem lugares e estava sempre lotado.

Dona de gestos espontâneos, voz rouca, temperamento risonho e personalidade forte, ela gostava do movimento constante do hotel e de mimar seus hóspedes e amigos: “Tenho uma natureza exagerada no sentido de querer agradar. Me dedico mais aos outros do que a mim, mas é assim que me sinto feliz”.

Por lá, a felicidade encontra história, cultura, gastronomia e, de brinde, a montanha beija o mar e o sol se derrama em espetáculo nas ilhas anglo-normandas aos olhos do casal e seus hóspedes. Tranquilidade à beira-mar, elegância, boa conversa, gastronomia impecável e energia das pessoas. É cercada disso tudo que a empresária, decoradora e agora curadora de passeios pela França e pela Europa se imaginava vivendo os próximos anos: “Não tenho vontade de sair da França. Há anos recebemos os mesmos clientes e suas famílias, é uma conexão de amigos”.

Nos últimos anos, Flávia não estava mais à frente da charmosa estalagem na Normandia, mas não deixou de receber e fazer novos amigos e visitantes. A brasileira recebe na Europa amigos, visitantes e apaixonados pela gastronomia, arte, arquitetura, decoração, paisagens e costumes locais, atividades que são suas e de seu marido José, e que a tornaram uma identidade e marca.

Se você vai para a Europa, os Caminhos de Flávia são uma pedida e tanto! Com experiência em hospitalidade na Normandia, gestão de apartamentos em Paris e Lisboa, projetos de decoração na França, Portugal e Bélgica. Hoje, vive entre Paris e a Bélgica. Flávia é habitante e cidadã europeia e, com todos, partilha sua vivência, conhecimento e sua alma acolhedora.

Recebe com flores, mimos, comidas originais e tradicionais dos destinos para onde conduz e hospeda grupos, casais e viajantes solo. Sempre com elegância e conforto.

É ela quem sabe onde comer o melhor leitão, saborear moules frescas, degustar cervejas centenárias servidas por frades, encontrar vinhos modernos no Velho Mundo. É ela, também, quem identifica as tendências a serem vistas da arte e da decoração, quem roteiriza as visitas a museus relevantes e conhece detalhes e personagens de cada história.

Flávia caminha pela Europa transportando toda essa bagagem com graça e leveza. Sua enorme expertise e bom humor são um convite para viajar com ela e descobrir as surpresas que cada jornada oferece. “Me vejo aqui, na Provence, em Biarritz ou Saint-Jean-de-Luz, com meu marido cozinhando, meu filho e recebendo pessoas especiais.” Sorte delas!

História, cultura e religião

O desembarque dos aliados na Normandia está entre os acontecimentos históricos mais importantes da II Guerra. A região sempre foi muito religiosa, uma parte do país é prioritariamente católica, evangelizada no século V, e Saint Germain, importante figura da cristandade, cruzou a região. Não sou praticante, mas a religião acalma a alma. Me sinto abençoada aqui. A beleza dos museus e monumentos encanta nas cidades medievais. Os castelos do século XIII são pequenos, de pedra. É tudo menos grandioso e mais aconchegante.

Leite e maçã franceses

É uma das maiores regiões produtoras de leite da França. Os queijos, a manteiga e o iogurte são excepcionais. E a única região onde quase não se produz vinho. A agricultura é da maçã. Toda a produção de álcool é ligada à fruta — a cidra e os calvados são muito bons e conhecidos.

Mar e terra

São vários parques de ostras com as melhores ostras do mundo. Além dos portos pesqueiros, o porto de Carteret, a minha cidade, é o melhor porto de pesca de homard, a lagosta. Tem homard bleu, que tem a casca azul antes de cozida, caranguejos, Saint-Jacques, crustáceos fantásticos. Tem uma produção de legumes orgânicos enorme. Créances é a capital da cenoura na França e são quilômetros de plantações no Val de Saire, do outro lado do Cotentin.

Imperdível na Normandia

Visitar Barneville-Carteret e o Mont-Saint-Michel. Depois, subindo a costa, conhecer a famosa Granville, com seu lindo porto, a cidade onde viveu Christian Dior. Hoje, na casa onde viveu, está instalado um belíssimo museu com a história do mestre da alta-costura. A rota dos queijos pelas principais cidades produtoras. As praias do desembarque: Omaha Beach e Utah Beach. Na costa leste, no Val de Saire, está o porto de Barfleur (um dos cem villages mais bonitos da França). Ir ao parque de ostras de Saint-Vaast-la-Hougue. Cherbourg também é uma belíssima cidade, com um antigo porto e uma base naval, marcada por muitas batalhas, e tem a maior baía artificial do mundo.

Lição francesa

O que eu mais aprendi aqui é que não importa o que aparentamos ser, e sim nossa integridade e o que somos de verdade. O maior prazer de viver aqui é a liberdade de ser autêntico — sem a pressão constante de provar nada para ninguém. Com o tempo, aprendi a valorizar esse jeito mais discreto e mais direto, e o respeito pelo espaço do outro. Cada vez que volto ao Brasil, percebo como, muitas vezes, damos importância demais a coisas pequenas e passageiras. No fim, o essencial é estarmos bem conosco, seguirmos em frente e buscarmos a nossa própria felicidade.

Esnobe parisiense

Não é o francês, é o parisiense. Eles têm um certo esnobismo, como se fossem reis do mundo. Fui aprendendo a conviver com isso e hoje não ligo. Há cada vez menos parisienses na cidade, o que tem ajudado Paris a ficar mais alegre.

Altos e baixos

O defeito é o descuido com a higiene pessoal: em transporte público, na rua, ou às vezes entramos em um comércio, no banco, e tem alguém com um cheiro muito forte. Isso é um problema — e, para mim, um defeito. Não deveria ser assim na terra do perfume. Um ponto alto é a educação gastronômica, a admiração que eles têm e a importância da gastronomia na vida de todos. O ritual da baguete, do croissant… a cultura gastronômica francesa é muito bacana.

Saudade do Brasil

São mais de 30 anos fora do Brasil e sinto cada vez menos falta. Quase só das pessoas. A cada visita, quando perguntam o que eu quero do Brasil, sinto falta do café e do pão de queijo, e peço revistas. Gostava de receber a Bá e a Estilo Zaffari. As de atualidade e política eu abandonei.

Cinco cantos franceses

A Normandia, claro. Na Provence, fazer o circuito das lavandas e dos villages. A Côte Basque, Biarritz. Gosto da Bretanha, mas conheço pouco. E um roteiro que fiz é o Grands Crus, que são 12 dias de Bordeaux à Borgonha.

Por Mariana Bertolucci

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