Não costumo dar presentes. Nem para mim e nem para ninguém. Também não ligo muito para datas. Não é algo do qual me orgulhe. Só uma constatação. Talvez um hábito. Escrevo os cartões com maior prazer, mas adoro quando organizam a vaquinha para os aniversários. Lá na minha casa é todo mundo meio assim, com exceção da minha irmã Isadora que gosta e nos presenteia bastante. Trocamos mimos e favores o tempo inteiro, sem muito planejamento. Então tudo certo, Natal na casa dos meus pais todo mundo chega e sai com a mão abanando com exceção da Isa (que presenteia) e das crianças (que são presenteadas pelo menos pelos avós). Meus carinhos são mais abstratos do que concretos. Não raro, sou eu em carne, osso, palavras, atitudes, palpites e pensamentos sem fim.
No dia 24 de dezembro desse ano decidi me presentear com um sadhana, que é uma prática espiritual diária e disciplinada no yoga, focada no autodesenvolvimento e na conexão interior e que inclui os asanas (posturas físicas), a respiração (que salva vidas) e a meditação (o calo de todos os meus sapatos…). O fato é que o meu autopresente desse Natal foi e segue sendo a minha tábua de salvação. Desde então, dos 64 dias até aqui, eu não pratiquei apenas em 11. Meu sadhana foi quase sempre solitário, no entanto para melhorar a qualidade da minha alimentação, contei com a ajuda das delícias congeladas e do acompanhamento nutricional da Delight. Nem tudo depende apenas da gente… e se tenho algumas aptidões, as tarefas caseiras e o preparo dos alimentos não estão entre elas. Estou sempre atrás de recursos, atalhos e profissionais que me lembram que somos o que colocamos para dentro do corpo, da mente e do coração…
Nos primeiros 30 dias não houve pausa no meu sadhana. O ombro direito chiou e passei a descansar um dia por semana e adaptar algumas posturas. Com o tempo, meditar muuuuito menos e a respiração também foi saindo da rotina diária. Sigo tentando todos os dias. O que eu quero deixar escrito com tudo isso? Quase tudo é uma questão de se presentear com o que de verdade precisamos e de não desistir do que nos nutre. É fazer o que deve ser feito sem questionar a Dona Preguiça. Essa baita chata que também tem cadeira cativa dentro de nós. Acostumamos nosso corpo e mente a quase tudo. Ah, mas não é fácil!!! Não é mesmo, mas é possível, rápido (1h) e barato. Ah, mas tu fez ballet a vida toda!!! Mais um motivo pra quem não fez, começar a se mexer… Ah, mas… é o que não falta na vida da gente né? Com a mesma potência e capacidade que temos de nos levar para lugares e sensações melhores dentro e fora de nós, também sabemos (eu sei pelo menos) de cor e salteado como mergulhar no inferno mais profundo que nos habita. Um lugarzinho miúdo e podre que julga, acusa, perde a paciência, compete e culpa sempre o vizinho, aquele mesmo da grama mais verde e florida que a nossa… É do âmago desse cantinho vergonhoso e egoísta que saem os comentários miseráveis sobre a vida, a aparência e os hábitos alheios. Nós mulheres então, somos um alvo e tanto, inclusive de nós mesmas: “muito gorda, que relaxada”, “esquelética, tá doente”, “que desleixo, não se arruma”, “quanto botox, uma múmia”, “tá velha, pensa que é guriazinha”, “saliente e espalhafatosa, tem opinião pra tudo”, “só quer saber de dinheiro”, “vai ficar solteirona”, “essa dá pra todo mundo”, “mulher é tudo louca”. Quanto mais rotuladas somos, mas surgem alvos reais para dirigirmos nossa ira santa. Todo mundo teve um rolo com o Vorcaro e tirou fotinho com o Epstein! Crianças, adolescentes e adultos vociferam cada vez mais cruéis e insanos nas redes sociais, nas escolas, no trânsito… Em todo canto, prostrados na vida, viciados digitais, é laudo em cima de laudo. O que não encontramos na web, tem na farmácia. Onde tem petróleo, tem míssil milionário. Enquanto seres vivos morrem de fome, a natureza segue furiosa e avassaladora com tanto desrespeito. Os pedófilos são poderosos, influentes, professores de direito e até juízes, pasmem! Os estupros e os feminicídios diários em todos os cantos do nosso país aumentam o nosso medo, mas não eliminam nossa coragem ou calam nossa voz. Não surpreende que estejamos coletivamente reféns de todo tipo de ansiedade, desespero e compulsão para dar conta do caos e da miséria emocional que estamos normalizando ao longo dos anos. Que volta foi essa que eu dei nesse texto que começou falando de yoga e nutrição? Sou assim, múltipla, um pouco confusa e a rainha da mistura. E essa foto, hein? Divina! Do meu amigo talentoso Mauricio Capellari… eu me exibindo no meio do mato. O que tem a ver com o que você está lendo agora? É, posso imaginar o que boa parte de vocês está pensando… é a força do hábito.
Desejo os melhores para nós,
Paz & amor,
Mariana Bertolucci
Foto Mauricio Capellari

Mari realmente cozinhar é as tarefas da casa não são o seu forte , mas incentivar as pessoas , vibrar nas vitórias e escrever bem e com emoção são as sua grandes qualidades . Siga em frente , com amor
Te amo Ju! SAUDADE
Belo espacato! Bela foto! Ótimo texto. Sim o mundo tá difícil, precisamos (nos) presentear mais com palavras, gestos, ações e mimos… pra suavizar a vida.
Que delícia de leitura, real e viva. Bálsamo para o que temos encontrado na net. Tu te deste um presente e obrigada por compartilha-lo conosco.
Ah, que texto maravilhoso 😍
Amei.
E a sadhana continua.
Sadhana agora é saber encontrar a medida certa entre a disciplina e a entrega. Encontrar e cultivar uma sadhana que seja orgânica e sustentável, para a gente seguir caminhando toda a vida.
Amei! Tu é sempre d+! Nos “espaçamos pelo mundo”, no q tu escreve, na vida! Je t’aime “Maria” Bertolucci!
Uhuuuuu! Muito bom esse teu texto, narrativa, confissão de tudo e todos! Quanta coisa acontecendo e se entrelaçando e tu a iluminar cada cantinho, fresta e aresta das nossas mentes ! Melhor a cada vez, agradeço a partilha!!!!