Neste mês em que homenageamos professoras e professores, penso em todos aqueles que escolheram essa profissão. E, inevitavelmente, penso também nas professoras e nos professores que passaram pela minha vida e na trajetória da minha escola.
Ser professora, ser professor é exercer uma das profissões mais desafiadoras e, ao mesmo tempo, uma das mais bonitas que existem.
Na educação da primeira infância, que é o meu trabalho, temos o privilégio de acompanhar diariamente o desabrochar de crianças que chegam até nós ainda tão pequenas, indefesas e dependentes.
E nós, com o dia a dia e a intimidade com as crianças, vamos aprendendo a decifrá-las, somos muitas vezes tradutoras do que ainda não foi colocado em palavras.
A prática e a observação atenta nos ensinam a perceber sinais que, muitas vezes, são quase invisíveis. Sabemos quando uma criança está com sono, com fome, com frio ou calor. Percebemos quando aquele choro é diferente, quando está ficando doente ou quando alguma coisa parece não estar bem.
Talvez uma parte enorme do trabalho de uma professora da pequena infância aconteça justamente aí, nessas pequenas coisas que quase ninguém vê, mas as crianças sentem.
Somos também uma importante rede de apoio para as famílias e também umas para as outras.
Coletivamente, ajudamos as crianças a construir suas primeiras noções de pertencimento e de convivência. Fazemos combinações e as retomamos uma, duas, dez, centenas de vezes, até que, aos poucos, possam ser compreendidas e elaboradas.
Quem trabalha com crianças pequenas sabe que um dos principais ingredientes da infância é a paciência.
Além de ensinar, somos artistas, contadoras de histórias, cantoras, fadas, bruxas, bailarinas, cozinheiras, enfermeiras, ouvintes, conselheiras e tantas outras coisas que povoam o universo da infância.
E somos futuristas.
Em um tempo em que falamos tanto sobre inteligência artificial e o futuro das profissões, nós, professoras e professores, nos ocupamos em trabalhar com algo ainda mais imprevisível: o ser humano que está se formando.
Não sabemos quem será aquela criança que hoje seguramos pela mão. Não sabemos que profissão escolherá, quais desafios encontrará ou que mundo terá diante de si. Eu, quando ajudo a lavar as mãozinhas de uma criança, a troco ou a alimento, me pergunto se um dia ela vai lembrar disso.
Acredito que sim, penso que o registro ficará em suas memórias afetivas. Através do cuidado, do afeto, do brincar, oportunizamos para as crianças a construção de um repertório que levarão com elas, como: estar com os outros, ter contato com arte, literatura, música, natureza, alimentação.
Talvez seja por isso que se diga que uma professora ou um professor pode mudar a vida de uma criança.
Quando penso nisso, penso também na minha própria história.
Antes de ser professora, sou filha de uma professora. Minha mãe já exercia esse ofício quando eu ainda nem imaginava que um dia ele também seria o meu. A escola que hoje dirijo começou com ela e comigo, há mais de 3 décadas. Hoje, depois de tantos anos vivendo diariamente entre crianças e educadoras, tenho mais orgulho de dizer que sou professora.
Somos futuristas porque trabalhamos com o presente e ajudamos a construir o futuro, ajudamos a preparar a base dessa grande obra feita de gente, de gente pequena.
Parabéns Professores, com muito carinho e admiração.

Valesca Karsten

Educadora, cofundadora e diretora da escola de educação infantil Caracol, de Porto Alegre, curadora de arte para a infância, realizadora e host do podcast PodeMãe

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