Não é a primeira vez que isso acontece, mas hoje é sábado, dia 24 de outubro de 2026 e me sinto esquisita. Um gosto que mistura muito medo e uma incontrolável esperança. Tenho 53 anos e há pelo menos 40, sinto que todos os dias preciso dar conta de uma multidão de pensamentos desordenados, uma feminista vítima do espelho, dos meus julgamentos e da opinião alheia. Agradando ou não, meu sentimento sempre foi meu guia maior. Uma desordem emocional me desgasta tanto quanto me move e nem o tempo e a maturidade, que apaziguam boa parte das angústias humanas e as revoluções internas, são capazes de equalizar a minha turbulência particular. Ansiedade, vontade, sonhos, incertezas e histórias. Tudo misturado e com fermento sou eu. Ainda assim, nem sempre há coerência entre o que sinto, quero, penso ou preciso fazer todos os dias. Então além das pessoas e do yoga, é a escrita que me salva dos meus medos e excessos, e me livra da angústia, da decepção… me atravessa inteira… Desesperada, urgente, sem regras e transbordante de amor, voz e escuta.

É brutal perceber depois de muitas décadas vividas, lágrimas derramadas, engolidas, a grande maioria das mulheres da minha geração e das que vieram antes foram abusadas, estupradas e apagadas pelo machismo e o patriarcado. Ocupamos lugares menores, somos traficadas, objetificadas e eliminadas da história, dos cargos e da face da terra. Transamos sem vontade, tentamos acalmá-los, as crianças vão sofrer, não é fácil dar conta de tudo sozinha, o que as amigas vão dizer? Será que vão me convidar ainda para os eventos de casais? Deusmelivre casar de novo! O que mesmo que prometi naquela igreja!!! Gordas ou magras, jovens e nem tanto assim. Estamos sempre pensando em todas as maneiras de perder pelo menos dois quilos e ter a pele um pouco menos enrugada… Se é uma injeção que vai resolver essa merda toda… Tomemos na testa, na bunda, na barriga… Culpa da bosta do patriarcado que nos incute todos os dias, que seria tudo perfeito nessa vida se fôssemos mais lisas, mais delicadas, mais silenciosas, mais dengosas, mais ativas, mais amorosas, mais leves, mais organizadas, mais calmas, mais sensuais, mais trabalhadoras, mais valentes, mais firmes, mais prendadas, mais caprichosas, mais elegantes, mais estudiosas, muuuuuuuito mais disciplinadas para comer, malhar, escolher alimentos e parceiros mais nutritivos e menos artificiais… Estamos sempre querendo ser mais dinâmicas, mais compreensivas e menos “loucas”. Isso para restringir aos doces probleminhas da nossa bolha cor-de-rosa-choque que não sabe o que é deixar filhos empilhados um em cima do outro em casa para sair ainda de madrugada para fazer faxina pelo pão de cada dia. Tomando mãos sórdidas e olhares atravessados no transporte público. Que não sabe o que é ter que baixar a cabeça para ameaças e assédios de todos os lados, e que para não perder o emprego, perde a dignidade. Bolha que não sabe o que é não ter acesso a escola, a cultura e que também nunca sentiu vergonha por andar maltrapilha ou subnutrida.

Quem me conhece um pouco mais costuma dizer que eu conheço todo mundo… No meu ‘todo mundo” cabe muita gente mesmo. Me interesso pelas pessoas, gosto de fazer amizade, perguntas e de saber sobre as vidas de “todo mundo”. No meu “todo mundo” cabem todos os meus afetos, independente de quem eles vão votar hoje. No meu “todo mundo” tem muuuuita mulher! No meu “todo mundo” tem gente de todas as raças, gêneros, orientação sexual, crenças religiosas e idades. No meu “todo mundo” tem arte, tem dança, teatro, música, cinema e livros de todos os jeitos, de história também, viu? Tem gente que lutou, foi torturada e sobreviveu a ditadura e tem sangue nordestino e gramadense correndo nas veias. No meu “todo mundo” tem uma baita turma que dedicou a vida toda a combater fakenews todos os dias e faz jornalismo de verdade. Hoje, neste domingo, meu voto é por mim e por todo mundo. E o seu?

Mariana Bertolucci

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  1. Claudia Prado says:

    Mari querida, sem ar com seu texto. Uma porrada, um carinho em nós, mulheres? Não importa. Somos e fazemos tudo isso e mais um pouco. Época de reflexão e luta. Somos mulheres. Guerreiras, fortes. Ainda absorvendo cada palavra sua. Gratidão por compartilhar. Bjs no coração

  2. Heloisa says:

    Mari tu sabes te definir muito bem e eu que te conheço de toda a tua vida te enxergo neste texto.Todos nós queremos o melhor pelo Brasil,que parem de matar mulheres (nunca se matou tanto como estamos assistindo passivamente) que tenhamos penalidades mais duras e execuções reais.Assim como está não pode continuar.Deus proteja o Brasil e bandido fique na cadeia .

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