Em cartaz no Museu de Arte de Blumenau a exposição aberta no início de setembro Paisagem como linguagem: entre espaço, imagem e experiência está aberta para visitação até o dia 1º de novembro. Uma obra da artista plástica gaúcha radicada na Itália Cristie Boff foi uma das escolhas da curadora Ana Zavadil para participar da mostra coletiva.
A paisagem nessa exposição, não se apresenta como cenário, ou pano de fundo, mas como uma linguagem em constante deslocamento. Ela emerge entre o que é visto e o que é vivido, entre o espaço que se habita, a imagem que se constrói e a experiência que se partilha. Mais do que representar um lugar, as obras aqui reunidas ativam a paisagem como um campo de relações, em que matéria, gesto, memória se entrecruzam.
Ao atravessar diferentes suportes, escalas e temporalidades, a paisagem revela-se como um território expandido, ora físico, ora simbólico, ora íntimo, ora coletivo. Nesse sentido o que antes poderia ser entendido como fundo torna-se estrutura, e o espaço deixa de ser mero contexto para assumir um papel ativo na produção de sentido. A paisagem passa a operar como um modo de pensar e organizar o mundo. Entre imagem, espaço e experiência esta exposição propões uma leitura transversal da paisagem, entendida como condição compartilhada e linguagem comum. Um campo aberto onde o olhar não se fixa, mas circula, onde o visível não se encerra na forma, mas se prolonga na experiência. Aqui a paisagem não se contempla à distância ela se atravessa, ou seja, a travessia pode ser entendida com o movimento do ser (“Dasein”, na Filosofia de Martin Heidegger (1889-1976)) em direção a compreensão do sentido, da existência e da finitude humana, um ir além de si mesmo ou do mundo imediato.
A paisagem é abordada não como motivo iconográfico, ou referência geográfica, mas como linguagem transversal, que atravessa práticas, materiais e modos de percepção. Mais do que representar o mundo, as obras operam a paisagem como campo expandido, em que o espaço, a imagem e a experimentação se articulam de forma indissociável, pois, no campo expandido, as categorias tradicionais deixam de ser fixas e passam a operar como relações.
A paisagem se constrói no intervalo entre o visível e o sensível, entre o corpo e o território, entre a materialidade do espaço e a sua inserção simbólica. Ela não se limita ao que se apresenta diante do olhar, mas inclui aquilo que o aravessa – memória, tempo, deslocamento, afeto. Nesse sentido, o pano de fundo deixa de ser suporte para tornar-se estrutura ativa, capaz de organizar a experiência criativa e produzir significado.
A transversalidade que perpassa as obras não busca uniformizar discursos, mas evidenciar como a paisagem pode se caracterizar como linguagem, capaz de acolher diferenças sem anulá-las. O olhar se desloca, o espaço se torna experiência e a imagem deixa de ser fim para tornar-se passagem.
A figura humana quando presente não se afirma como centro ou medida da paisagem, mas como um de seus vetores, corpo e território se atravessam, dissolvendo fronteiras entre sujeito e território. O humano surge como rastro ou gesto, integrados aos fluxos materiais e simbólicos que constituem a paisagem. Mais do que habitá-la ele é por ela constituído.
A presença humana inscreve-se na paisagem como passagem. O corpo aparece não para dominar o espaço, mas para revelar sua espessura, medir distâncias, ativar memórias, tensionar limites. Entre figura e fundo, cria-se uma relação instável, em que ambos se transformam mutuamente. A centralidade da figura humana em alguns trabalhos opera como estratégia crítica, pois quando a figura humana ocupa o centro não é para interromper a paisagem, mas para torná-la visível em sua intensidade. O corpo, ou parte dele, aparece como superfície de inscrição, onde o espaço deixa marcas e estimula memórias. Assim, a paisagem não se realiza ao redor do humano – ela acontece nele. A figura humana emerge como paisagem sensível. Michel Foucault dizia que o corpo era o ponto zero no mundo, o lugar onde os caminhos e o espaço se cruzam.
Em outros trabalhos. A paisagem se constitui por meio de símbolos, grafias e escrita assêmica, deslocando a noção de leitura para o campo da experiência visual. Esses símbolos não se organizam como linguagem comunicativa, mas como território sensível, onde o gesto, o ritmo e a repetição, produzem uma paisagem que se percorre com o olhar. Aqui, escrever se aproxima de cartografar, não se trata de dizer algo sobre o mundo, mas de inscrever nele uma presença.
Há paisagens que não se oferecem ao olhar como imagem, mas como escrita. Signos indecifráveis, grafias sem idiomas e marcas suspensas no sentido formam campos que convidam à deriva. Nessas obras a paisagem não se lê – ela se atravessa como um território onde o sentido permanece em estado de suspensão.
A exposição reúne obras que abordam a paisagem como linguagem e experiência, articulando espaço, imagem, corpo e signo e convida o público a experimentar a paisagem como condição compartilhada e em permanente transformação.
Artistas:
Andréa Brächer, Alexandra Eckert, Cátia Usevicius, Cleci A. Serpa, Cristie Boff, Edson Possamai, Esther Bianco (in Memorian), Fátima Pinto, Isa Dóris Teixeira de Macedo, Isabel Ferreira, Isabel Marroni, Ivone Rabelo, Jane Maria, Jussara Moreira, Kika Costa, Lisi Wendel, Mara Castilhos, Mari Sangoi, Márcia Marostega, Maria Cristina, Mariza Vedana, Mary Marodin, Mhel Gabbardo, Mylène d’Huyer, Paulo Abenzrragh, Rita da Rosa, Selir Straliotto, Tina Dumoncel e Virginia Ghiggi
Texto: Ana Zavadil
