Antes mesmo de se aposentar como Procuradora do Município de Porto Alegre, Cláudia Padaratz já carregava consigo uma inquietação que, com o passar dos anos, se transformaria em um verdadeiro propósito de vida: compreender a realidade das mulheres e contribuir, de forma concreta, para a promoção de sua dignidade e autonomia.
Embora sua trajetória profissional tenha sido construída no Direito e na Advocacia Pública, foi justamente o contato permanente com diferentes histórias humanas que ampliou seu olhar para questões que, muitas vezes, permanecem invisíveis. Ao longo de décadas de atuação, percebeu que as mulheres, em diferentes contextos sociais e culturais, enfrentam desafios específicos, frequentemente silenciosos e naturalizados, relacionados à desigualdade de oportunidades, à sobrecarga de responsabilidades e à limitação de sua autonomia.
Ela própria reconhece que sua condição pessoal sempre foi privilegiada. Ainda assim, como mulher que viveu sua juventude e consolidou sua carreira especialmente nas décadas de 1980 e 1990, experimentou barreiras e circunstâncias comuns a muitas profissionais de sua geração. Essa experiência, somada à formação jurídica, à vida familiar e às inúmeras realidades que conheceu ao longo da carreira, moldou uma percepção cada vez mais sensível sobre as questões femininas.
Ao deixar a Procuradoria, decidiu dedicar seu tempo e sua energia a essa causa, passando a desenvolver atividades junto a comunidades em diferentes países e estabelecendo um diálogo próximo com mulheres de distintas culturas e origens. Em vez de encontrar diferenças profundas, descobriu algo ainda mais significativo: as semelhanças.
Em suas vivências internacionais, Cláudia relata que praticamente em todos os lugares se repetem demandas por respeito, autonomia e igualdade de oportunidades. Mulheres que continuam assumindo praticamente sozinhas grande parte das responsabilidades familiares e comunitárias, muitas vezes sem reconhecimento ou sem acesso às mesmas oportunidades disponíveis aos homens. Mulheres que desejam apenas caminhar com liberdade, dignidade e segurança, e que sonham oferecer às suas filhas um futuro mais amplo do que aquele que lhes foi possível viver.
Uma experiência particularmente marcante ocorreu em Calenga, em Angola, durante uma roda de conversa exclusivamente feminina. Entre relatos emocionantes, desabafos difíceis e momentos espontâneos de alegria, criou-se um ambiente de profunda identificação entre mulheres que, apesar de viverem em contextos completamente distintos, compartilhavam sentimentos, preocupações e aspirações muito semelhantes. Ao final do encontro, os longos abraços trocados simbolizaram uma conexão construída não pela geografia, mas pela condição humana compartilhada.
Para Cláudia, falar em dignidade feminina significa tratar de algo muito concreto. Significa assegurar que cada mulher possa fazer escolhas sobre a própria vida, tenha acesso efetivo à educação e ao trabalho, participe das decisões que afetam sua família e sua comunidade, tenha sua integridade física e emocional respeitada e possa exercer plenamente sua voz na sociedade.
Sua experiência também lhe ensinou que grandes transformações frequentemente começam por pequenos gestos. Em situações de extrema vulnerabilidade, ser ouvida com respeito, encontrar uma rede de apoio, ter acesso a oportunidades de formação, aprender uma atividade que possa gerar renda ou simplesmente ser reconhecida como alguém cuja história importa são iniciativas capazes de produzir impactos profundos e duradouros.
Mais do que uma atuação assistencial, Cláudia Padaratz passou a enxergar sua missão como um compromisso permanente com a promoção da autonomia e da valorização das mulheres. Sua trajetória demonstra que a dignidade feminina não conhece fronteiras nacionais, diferenças culturais ou barreiras linguísticas: trata-se de uma causa universal, construída diariamente por meio da escuta, do respeito, da educação e da criação de oportunidades para que cada mulher possa escrever a própria história com liberdade e dignidade.
Essa atuação ganhou forma prática por meio de um projeto que vem sendo desenvolvido de maneira contínua nos últimos anos junto a comunidades vulneráveis, especialmente em Angola. O que começou como uma iniciativa movida pela vontade de ouvir e acolher mulheres transformou-se em uma ação permanente de promoção da dignidade feminina, fortalecida a cada nova edição. Após experiências realizadas em 2024 e 2025, o projeto terá sua terceira edição em 2026, reafirmando o compromisso de construir pontes entre mulheres de diferentes realidades, mas unidas por desafios, sonhos e aspirações comuns.
Por Fernando Guimarães
