Não costumo ser rígida, tenho opinião sobrando. Exceto do que uma boa índole e educação nos propiciam, quase tudo para mim é negociável. Nas minhas listas de qualquer coisa sempre têm lugar pra algo ou alguém mais. Adoro surpresas, mas prefiro surpreender. Amo apresentar gente bacana pra gente legal. Sou presidente do Partido Livre do Feito é Melhor Que Perfeito. Topo quase tudo com quem eu for com a cara e com o coração, na minha bolsa a necessaire não tem o creme da hora, mas tá sempre cheia de vontade. Já meus pensamentos costumam ser (mil vezes) mais rígidos e randômicos do que o meu corpo e as minhas ações. Quando enfio algo ou alguém na cabeça é difícil sair de mim… assim naturalmente, como um espacato no paralelepípedo de madrugada.
A Dona Escrita é a minha clínica geral, terapeuta e geriatra. É com ela que eu deveria ter consultas marcadas e revisões semanais para abrandar a guerra entre pensamentos, pessoas e sonhos que acampam todos os dias dentro de mim. E é bem nela, na escrita, que mora, vive e se encrusta toda a minha rigidez. Enquanto não vira sopa de letrinhas, que façam sentido e gerem algum (des)conforto também para você que me lê, tudo o que sinto, ressinto e que me habita, fica trancado em mim, gerando ansiedade, insegurança, frustração e o pior de tudo: culpa. Uma amiga já vem me habitando desde o início do ano e outra desde o último sábado.
Sabe aquelas pessoas que dão vontade de ser amiga na hora em que a gente enxerga pela primeira vez? Era 1989 e foi quando recebi um convite para cumprir a primeira tarefa remunerada da minha vida que eu conheci a Luciana. Eu a ajudaria a organizar a receber as meninas do Baile do Catálogo de Brotos e também a bolar os textos da publicação impressa. O Catálogo era um baile que existia em Porto Alegre e reunia parte da sociedade da cidade e a gurizada toda adorava participar. Eu tinha 16 anos, não juntava lé com cré, ainda queria ser bailarina do Royal Ballet e também pouco ligava para o universo glamuroso e de egos e tafetás dos nomes e sobrenomes a que estava sendo apresentada. Apenas fiquei encantada com a beleza e as roupas charmosas daquela mulher diferente que me tratava de igual para igual. Ela era moleca, apesar de sempre estar elegante e com o maior carinho e bom humor, me pegou pela mão. Sem planejar nada, me ensinou um pouco de tudo e me acolheu naquele novo desafio. Do jeito dela, leve, divertida e direta, me cochichava: “Não dá bola, ouve e sorri. Deixa eles coordenarem, e faz do teu jeito, que sempre dá tudo certo.”
Ela já tinha filhas ainda pequenas que eram duas bonecas e que às vezes apareciam por ali, a Maria Eduarda e a Julia. Foi o marido da Lu e pai das gurias, o Elias da Rosa e o Paulo Gasparotto que me chamaram para a aventura temporária naquela casa batizada de Alto da Bronze. Tudo era novidade e interessante para mim, que vivia de árvore em árvore na Vila Assunção, mas conviver com a Luciana naqueles meses é a memória mais querida que eu tenho dessa época. Acho que na verdade, eu vislumbrava ser como ela nos próximos anos da minha vida: bonita, cheia de estilo, sorridente e mãe de duas guriazinhas lindas e sapecas, que todos os dias aprontavam alguma fofurice, que ela chegava contando faceira e orgulhosa.
Mais de três décadas depois, tenho a mesma sensação quando encontro pela primeira vez a Ana Luiza em uma aula de yoga à convite da nossa amiga em comum, a Lu Brites. Parecia meio tímida, dona de um par de olhinhos puxados, irresitível e sapeca, que se revezava entre uma atenção total e uma curiosidade desconfiada. Corpo forte, coração alegre e alma cheia de anseios e sonhos. Orfã, mãe, bailarina, professora de AeroYoga, produtora e artista divina que deu a volta ao mundo com o Cirque du Soleil, onde a vi, anos antes aqui em Porto Alegre, voando altooooo no trapézio. Uma deusa destemida que arrancava Ooooohs e mais Oooooohs do público. Ponta firme para a aventura e o trabalho. Esse tanto de qualidades, coragens e aptidões da Ana, só fui descobrir meses depois, quando graças as deusas, nos conhecemos melhor em dois retiros de yoga em Miguel Pereira. A Ana tem um casal de filhos pequenos e lindos e ao lado do marido gringo que conheceu no circo, realizava o sonho de ter um canto só dela no mundo, uma casa linda no meio do mato no alto da Gávea. Eu… cinquentando… pensava… quem dera ter tido a mesma valentia e talento para dar a volta ao mundo dançando e voando com uma trupe do Cirque du Soleil.
A doçura e leveza da Lu com as pessoas e a vida e a urgência de fazer acontecer e de sonhar da Ana mexem com tudo em mim. É exatamente essa mistura que me faz acordar todos os dias desejando dias melhores. Mesmo, que às vezes, eu sinta que viver é subir a escada rolante ao contrário. Repetindo os degraus, ações e erros, sem sair do lugar… Não foi assim na vida da Ana, nem na da Lu, nem na da maioria das minhas amigas e aposto que também não é bem assim na sua, que está aqui me lendo até agora. Saímos do lugar sim! Fazemos coisas incríveis e inspiramos umas às outras desde sempre e para sempre. Em qualquer momento da vida. Voando altíssimo ou dando a mão para outras mulheres de sorriso no rosto. Contei para a minha irmã que estava sem escrever desde março e entalada com um assunto desde janeiro. A Isa me olhou e disse: “Como a morte te mobiliza, né, mana?”. Eu respondi para ela que sim, talvez, mas o que me mobiliza mais é a vida. E as pessoas do meu caminho. Ontem a Luciana faria 70 anos, e de presente para nós todas, me despeço com o que escreveu a Ana, aos 48 anos na sua carta de despedida: “Dancem!”
P.S: Duda, Julia, Zoe e Leo, que mulheres incríveis trouxeram vocês ao mundo. Sorriam, brinquem, dancem e façam do jeito de vocês!
Com amor,
Mariana Bertolucci

Maravilhoso !
Nossa, amiga! Que texto maravilhoso. A tua cara, te vejo nele, de cabo a rabo. Brilhante.
Mari querida
Que linda homenagem, adorei!!
Beijos
Lindo Mariana! Coisa boa relembrar desta época que mencionas. Sempre fosse sucesso em tudo que fizesses. Lembro bem de ti nesta época. Nossos pais muito amigos, sempre te acompanhei. Luciana e Ana Luiza, bem
lembradas , mulheres TOP! Um beijo carinhoso
Mari vc tem o dom de preencher as palavras com emoção!! Escuto sua voz durante a leitura, linda e profunda reflexão, obrigada por compartilhar!!!
Te amo!!!
Saudades!!!
Amo vc também parceira ! Muitas saudades !
Texto lindo,cheio de amor.
Que linda memória e reflexão!Text lindo e com muita emoção ❤️
Uau Mari. Que lindo